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França. O Titanic dos candidatos do centrão marca as eleições de abril

Há poucas coisas certas nestas presidenciais francesas, tal tem sido a quantidade de pequenos abalos, mas a mais certa é que os dois principais partidos franceses vão sair delas imersos numa grande crise política, com um desfecho difícil de prever. E as eleições legislativas estão marcadas para junho.

O circunspecto “Le Figaro” não fazia por menos: titulava, à largura de toda a primeira página, que Mélenchon era o Chávez francês. O candidato da Frente de Esquerda duplicou as suas intenções de voto nas sondagens e ultrapassou, em alguns estudos eleitorais, François Fillon, candidato da direita, que há uns meses, antes de ter sido indiciado num escândalo de corrupção, era considerado o vencedor certo das presidenciais francesas.

Uma das coisas que estão certas nesta corrida eleitoral é que o seu resultado será um enorme murro no estômago na elite política francesa. Os candidatos d’Os Republicanos e dos socialistas, que disputaram a segunda volta das anteriores eleições francesas, vão ter uma humilhante derrota – isto apesar dos apoios de que gozam no sistema político e mediático francês. Exemplo disso são os registos, disponibilizados pelo Conselho Superior do Audiovisual, quantificando os tempos durante os quais os candidatos aparecem nos 23 canais de televisão franceses: Fillon leva 301 horas e Benoît Hamon tem quase 256 horas, contra apenas 161 horas de Mélenchon – embora nas sondagens este último tenha mais do dobro das intenções de voto do socialista Hamon e esteja já colado ao candidato da direita Fillon.

Os resultados previsíveis da primeira volta das eleições presidenciais, a 23 de abril, vão abrir uma crise nos dois partidos mais importantes de França. Recorde-se que a direita e os socialistas tiveram cerca de 70% dos votos na primeira volta das eleições legislativas de 2012. Neste momento, os candidatos que são oficialmente sustentados pelos dois partidos têm pouco mais que o apoio de 26% dos eleitores – um cenário muito complicado para estes dois partidos do centrão francês, até porque há eleições legislativas marcadas para junho de 2017.

 

As agruras de Fillon

A queda do candidato da direita é o dado mais significativo desde o início do processo eleitoral. Depois de ter ganho as primárias da direita com 67% dos votantes de uma consulta que teve uma participação de quase nove milhões de pessoas, era cotado em todas as sondagens como o vencedor automático, mesmo indo à segunda volta com a candidata de extrema-direita, Marine Le Pen.

Fillon foi atropelado pela habitual gestão facilitista das elites francesas. O jornal humorístico “Le Canard Enchainé” descobriu que ele tinha empregado a mulher e os filhos em empregos fictícios no seu gabinete parlamentar, desviando assim, de uma forma ilegítima, mais de um milhão de euros dos contribuintes. O que obrigou o Ministério Público francês a abrir um processo e indiciar o candidato. François Fillon, o candidato do centro-direita francês às eleições presidenciais, foi indiciado pelos crimes de “desvio de fundos públicos”, “cumplicidade e ocultação do desvio de fundos públicos” e “cumplicidade e ocultação do abuso de bens públicos”, o que indica que as suspeitas têm substância para chegar a tribunal.

Apesar de ter prometido em janeiro abandonar a corrida presidencial caso acabasse indiciado pelas suspeitas de que, ao longo de mais de dez anos – primeiro como deputado e, mais tarde, como ministro do governo conservador – se assegurou de que a mulher recebia 900 mil euros por um emprego de assistente parlamentar de que ninguém se recorda e sobre o qual não parecem existir provas de que ela o tivesse desempenhado, Fillon não cumpriu.

O candidato voltou atrás com a palavra, argumentando que o caso é uma fabricação da esquerda francesa, que os juízes são cúmplices num “homicídio político” e que o veredicto cabe às urnas, não aos tribunais. Ao fazê-lo, Fillon encostou o seu partido à parede: não se afastou pelo seu próprio pé, convocou as suas bases conservadoras para uma grande manifestação e demonstrou a’Os Republicanos que apoiar um outro candidato a poucas semanas das eleições lhes custaria dezenas de milhares de votos.

Essa teimosia parece ter sido mortal para as ambições da direita francesa. As sondagens dão pouco mais de 18% a Fillon e mesmo os seus amigos mais próximos dentro e fora de fronteiras parecem estar a desertar.

Exemplo desses movimentos de abandono de apoiantes, tanto de Fillon como do socialista Hamon, parecem estar a dar-se até na Alemanha: o antigo líder do SPD, Sigmar Gabriel, e o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, afirmam ambos apoiar Emmanuel Macron. “Se eu fosse francês e pudesse votar, provavelmente votaria Macron”, afirmou o conservador ministro das Finanças alemão.

Emmanuel Macron é neste momento, nas sondagens, o candidato mais provável a ganhar a segunda volta das eleições presidenciais francesas, em maio. Está a par de Marine Le Pen nas sondagens e tem crescido à conta dos votos que fogem a Fillon e ao socialista Hamon.

A sua fraqueza é ter, por estranho que pareça, apoios a mais: depois de o antigo primeiro-ministro do governo socialista Manuel Valls lhe ter declarado o seu apoio, parece que o impopular presidente francês, François Hollande, vai fazer o mesmo. Para os eleitores franceses, este apoio pode funcionar como uma espécie de beijo mortal. O único cenário em que Macron pode não passar à segunda volta é caso os eleitores socialistas, dada a má performance do seu candidato, se voltem para o homem mais à esquerda, Mélenchon, e o levem à segunda volta – passando, assim, os dois candidatos antissistema. Le Pen e Mélenchon seria uma espécie de duelo imprevisível de Donald Trump contra Bernie Sanders.