Opiniao

Nas mãos de Macron

Ameio da década de 90, Tony Blair dava uma maioria ao New Labour ao som da música pop Things Can Only Get Better. 

Mais do que uma cantiga para animar campanhas, «as coisas só podem ficar melhores» era o mantra político da esquerda europeia. Vinte anos depois, o espírito na Europa e na esquerda socialista é bem diferente: as coisas podem sempre ficar piores.

Olhe-se para França. Dos quatro principais favoritos nas sondagens, todos na casa dos 20%, dois são pela saída da União Europeia. E se Bruxelas já não podia dormir descansada com a provável passagem de Marine Le Pen à segunda volta – ainda que enfrentando o europeísta e favorito Emmanuel Macron – pior ficou com o incrível avanço de Jean-Luc Mélenchon nos estudos de opinião. Já ninguém pode excluir um cenário de confrontação antissistémica: de um lado a direita xenófoba e nacionalista de Le Pen, do outro o populismo de Mélenchon, o ‘Chávez francês’. Com estes dois protagonistas na segunda volta, dois resultados estariam garantidos: a falência dos partidos tradicionais e, muito provavelmente, da V República; a certidão de óbito da União Europeia. 

Le Pen põe as coisas nestes termos: a França tem de ser «um verdadeiro país» e não «uma mera região da UE» a quem, aliás, traça um triste fim: «vai morrer porque as pessoas não a querem». A candidata promete expulsar imigrantes, fechar mesquitas, repor fronteiras e abandonar o euro – medida que custaria meio milhão de postos de trabalho e 150 mil milhões de euros, segundo o Institut Montaigne. Alheio aos números, o seu povo regozija com a linha dura gritando em coro: «Este país é nosso». 

Mélenchon, que lidera o movimento ‘França Insubmissa’, apela a uma ‘revolução da cidadania’. Vestindo casacos ao estilo Nehru e falando aos seus apoiantes através de hologramas, Mélenchon quer França fora da UE, se não a conseguir reformar, e da NATO, em qualquer caso. Promete uma semana de trabalho de 32 horas, um salário mínimo de 1300 euros e taxar a 100% os mais ricos. E aponta o dedo ao PSF: tem uma candidatura ‘inútil’. 

O sucesso de Mélenchon espelha a degradação interminável dos socialistas. Benoît Hamon, escolha da ala esquerda de um partido traumatizado com Hollande, arrasta-se num humilhante quinto lugar, fora da segunda volta (o que não é inédito no PSF). E com François Fillon, aposta do centro direita, embrulhado em investigações judiciais, a melhor hipótese para derrotar o duo populista Le Pen/Mélenchon é o centrista Macron. 

Podendo chegar ao Eliseu sem nunca antes ter sido eleito para um cargo público, Macron, que alguns vêm como fusão entre Tony Blair e Justin Trudeau, fundou o seu próprio movimento com promessas de revolucionar o país e emagrecer o Estado. «Sou um guerreiro, tenho uma vontade de agir que me consome». Para passar à segunda volta, e eventualmente vencer, o antigo banqueiro de 39 anos precisa de três coisas: entrar no eleitorado do centro direita (ainda com Fillon), combater a abstenção e convencer os indecisos.   

As eleições francesas expõem o confronto entre duas Franças – uma que se dá bem com a vida e outra que não gosta de se ver ao espelho, La France Péripherique. Mas, mais do que isso, as presidenciais são um referendo à UE. Para evitar o ‘requiem’ da Europa, as esperanças estão concentradas em Macron, outrora conhecido como Mozart da finança.