Sociedade

Partilhas originais. Mãe há só uma, mas soluções há muitas

Em Portugal, a entrega da criança à mãe, com visitas esporádicas do pai, continua a ser a solução mais utilizada em caso de divórcio. Mas há quem queira quebrar estereótipos e foram exatamente essas novas dinâmicas que o i quis conhecer. Há quem vá viver com o pai, quem tenha uma semana com um, outra semana com outro e há até casos em que são os pais a andar de mochila às costas

Joana Silva, 29 anos

Aos seis, ficou à guarda do pai

Se, ainda hoje, os casos em que as crianças são entregues ao pai são dignos de notícia, no início dos anos 90 até o divórcio era coisa rara. Joana foi a primeira do grupo de amigos a ter os pais separados e até hoje não conhece nenhum caso semelhante ao seu. Isto porque, aos seis anos, ficou a cargo do pai e só tinha direito a visitar a mãe uma tarde por semana.

A solução não foi a ideal, assim como não foi perfeita a gestão familiar entre pai e mãe. Apesar de nunca terem sido casados, estavam juntos há dez anos, numa relação tão sólida que o pai de Joana assumiu como seu o filho de um ano que a mãe tinha de uma anterior relação.

O cenário perfeito desaba quando Joana faz seis anos e é informada que os pais se vão separar. Joana e o irmão passaram a estar na casa da mãe uma semana e na do pai na outra, num sistema que durou apenas três meses, altura em que o pai anuncia que vai casar e ter um filho. “Com a desculpa de que os filhos deviam estar todos juntos, leva a minha mãe a tribunal para pedir custódia total”.

Aqui, a balança estava desequilibrada: de um lado, um pai com um trabalho estável e fontes de rendimento e, do outro, uma mãe que começava a fazer os primeiros trabalhos como modelo e atriz, depois de ter estado anos proibida de trabalhar. “Para o meu pai, o lugar da mulher era em casa, a tratar dos filhos”, conta. Não é, por isso, difícil imaginar o desfecho desta sentença.

Durante o resto da infância e adolescência, Joana viveu “sob o regime militar do pai”, no meio de uma disputa entre progenitores, madrastas e padrastos que não lhe davam direito sequer a pedir para ir dormir um dia a casa da mãe.

Aos 12 anos, numa discussão, o pai expulsa o irmão de Joana de casa, que vai viver com a mãe. A partir dai, foi-lhe permitido um fim de semana de 15 em 15 dias para estar na casa da mãe, para poder estar também com o irmão. Depois, foi “só” esperar até aos 18 para mudar de morada definitivamente.

Apesar de um crescimento digno de traumas futuros, Joana já fez as pazes com tudo e todos, inclusive com o pai, com quem não falou durante muitos anos. E da experiência, tira algo positivo. “Sei bem que, caso me veja numa situação de divórcio, os tempos com pai e mãe vão ser equilibrados e nunca vou deixar que aconteçam tentativas de substituição por parte de madrastas e padrastos, como aconteceu comigo”.

Mariana Santos, 39 anos

Os filhos ficam, os pais é que trocam

As conversas com colegas, amigos e outros pais separados dava-lhe quase a garantia que, no seu caso, a solução passaria pela residência alternada. “Conhecia casos de trocas semanais, quinzenais e até dia sim, dia não. Todas funcionavam e pensei que connosco também iria ser assim”. Mas não. Em tribunal, o ex-marido, ainda a digerir uma separação que não partiu da sua vontade, fincou pé quanto ao que tinham em comum: os filhos e casa.

“Depois de alguma insistência percebi que não iria conseguir dar a volta à situação”, conta ao i. Perante um casal que se recusa a ceder, o juiz decretou o ‘bird’s nest’ como a melhor solução. Nestes casos, os filhos permanecem na casa que era de família e são os pais que vão entrando e saindo, consoante o tempo que cada um tem direito. No caso de Mariana e o marido, as trocas aconteciam três vezes por semana. “Eu ficava com a segunda e a terça, o pai com a quarta e a quinta, eu voltara para sexta, sábado e domingo e assim encadeava na semana seguinte”, explica, recorrendo à memória de um esquema montado em conjunto e pensado para que os filhos sentissem o mínimo de transtorno.

A verdade é que, na altura com 4 e 7 anos, nunca questionaram a escolha dos pais, até porque as mudanças nas suas rotinas foram mínimas. “Era quase como quando o pai ou mãe têm que se ausentar em trabalho”, conta Mariana, “para eles foi o ideal”.

Nos intervalos em que tinham que sair de casa, Mariana ia para uma outra e o pai dos filhos voltava para casa dos pais. Agora que o ex-marido vai ter também uma casa própria, a escala mantém-se mas vão passar a adotar o sistema de residência alternada, sempre com o cuidado de minimizar o impacto no dia-a-dia dos filhos.

Susana leal, 44 Anos

Uma semana com a mãe, uma semana com o pai

Quando se separaram, há 16 anos, Susana e Alfredo estavam longe de saber que a opção que escolheram para a dinâmica familiar é a recomendada hoje em dia pelos especialistas como sendo a mais próxima da ideal.

Como Carolina tinha apenas dez meses na altura do divórcio, acabou por ficar a cargo da mãe, como era habitual, no sistema de fins de semana de 15 em 15 dias com o pai. Mas não funcionou. “Tornou-se uma criança muito ansiosa, sempre a perguntar quem a ia buscar, em que dia ia trocar de casa, com quem ficava no fim de semana seguinte. Percebemos que como estava, não ia resultar”, refere Susana.

Com as vidas entretanto refeitas, pais e padrastos sentaram-se à mesa para discutir a solução. “O pai propôs a residência alternada e eu, como vi que era para o bem-estar da Carolina, decidi aceitar”. Além de ter ficado decidido que a troca era feita às sextas – hábito que mantém até hoje – ficou estipulado que apenas dividiam despesas médicas e escolares. “Em casa da mãe ela tem o seu quarto, a sua roupa, as suas coisas, e na casa do pai acontece o mesmo”, explica Susana. Carolina, na altura com quatro anos, interiorizou essa divisão de tal forma que quando chegava a casa de Susana, tirava a roupa que trazia de casa do pai, punha para lavar e só voltava a vestir no dia da troca. “Nunca lhe pedimos isso, pelo contrário, até lhe dizia para levar roupa e brinquedos de que gostasse, mas ela preferia assim”.

Nem mesmo quando, há dois anos, o pai foi viver para Braga, a mais de 40 quilómetros de Ponte da Barca, de onde são naturais, Carolina pôs em causa o sistema que os pais tinham escolhido para si. Continua a ter a semana do pai e a semana da mãe, que espera ansiosamente pelos próximos capítulos, uma vez que outubro é o mês da emancipação dos 18 anos e da entrada na universidade. “Cheira-me que aí somos nós que temos que a ir visitar”, brinca.