Luís Monteiro. De tão irrequieto foi parar ao parlamento

É um jovem irrequieto, nascido numa geração que dá que falar. Luís Monteiro é o mais jovem deputado eleito desde o 25 de Abril

Luís Monteiro tem 24 anos e é do Porto. O mestrado está a meio, promete ao pai que o vai acabar mas, entretanto, está ocupado no serviço público. Luís foi eleito, aos 22 anos, deputado da Assembleia da República pelo grupo parlamentar do Bloco de Esquerda. Foi o mais jovem deputado de sempre desde o 25 de Abril. O i foi tentar perceber algumas das motivações de um Millennial que leva a irrequietude a sério.

Sempre foste irrequieto?

Tive uma infância muito boa, mas muito calminha. Mas sim, fui sempre muito irrequieto nas ideias. Desde sempre. Tinha 15 anos quando comecei a ler algumas coisas de política, sempre adorei História, tanto que segui Arqueologia. Adorava História de Arte, disciplina a que era muito bom aluno. Então desde o nono ano que comecei a interessar-me muito por política e aproximei-me do Bloco de Esquerda, sem qualquer compromisso.

Os teus pais já tinham alguma ligação à esquerda?

Sim, a minha mãe, o meu pai nem tanto. A seguir ao 25 de Abril foram ativistas, embora eu ache que nessa altura toda gente tenha sido. Mas o meu tio sim, foi mesmo militante organizado do MES (Movimento Esquerda Socialista), partido que entretanto desapareceu. E o meu bisavô esteve preso pela PIDE para aí um dia ou dois, porque era despachante oficial na alfândega e conseguia dar entrada cá em Portugal de umas revistas (que nunca cheguei a saber quais eram), proibidas. Ainda teve uns desacatos com a PIDE poucos anos antes do 25 de Abril.

Sentes que isso te influenciou?

Sim, sim. O meu bisavô já morreu há bastantes anos, eu tinha para aí 10 ou 11 anos. Ele era um contador de histórias, contava-me todas estas histórias e claro que me influenciou. Depois eu acabei por ir dar à biblioteca mais política do meu tio e ele ia-me dando alguns livros.

Não era um género de doação de 100 livros, eu ia pedindo, ele ia oferecendo, e agora parte das minhas prateleiras estão cheias de coisas dele.

Houve algum livro que mexesse mais contigo nessa altura?

Vários, vários. Porque ele ia dando algumas referências, contextualizava os livros com a época em que tinha sido escrito, acrescentava várias curiosidades. Quando tinha 16 anos, no décimo ano, ele deu-me os três tomos das “Escolhas de Lénine”. E eu rapidamente desisti de ler aquilo, como deves compreender. Tirando um capitulozinho muito engraçado que se chama “O que fazer” e é um género de guia prático de como fazer uma revolução. É muito político sempre, claro, mas estes textos clássicos são sempre muito pesados. Mas essa do Lénine em particular é fácil e muito acessível, ele diz passo a passo como é que se vai ocupar o Palácio de Inverno, expulsar de lá os Czars e instaurar um novo regime. Claro que hoje em dia a revolução nunca seria nada disso não é? Se formos ali ocupar a Assembleia, no máximo dão-nos dois pares de estalos e mandam-nos ter juízo. Mas, na altura, a imagem daquele texto é muito pitoresca, a preparar uma revolução em cima da mesa. Achei demasiado curioso.

Despertou aí alguma coisa?

Despertou, não para ler o resto das obras mas um lado mais revolucionário.

Foi também por volta dos 15 anos que te ligaste ao associativismo.

Sim. Quando cheguei ao Bloco não podia estar inscrito ainda, porque tinha 15 anos. Mas, no percurso académico, sem dúvida. A Associação de Estudantes da Soares dos Reis, que estava moribunda, onde já não havia eleições há muitos anos, foi muito importante. Fizemos um grande abaixo assinado, juntámos uma Assembleia Geral, houve eleições, ganhei-as nesse ano, no décimo ano. Entre o décimo primeiro e o décimo segundo ano na escola sinto que fiz muitas coisas, dediquei muito do meu tempo àquilo.

Sentes que esta é uma geração preocupada e ativa? Ou há uma despreocupação política?

Acho que é possível estatisticamente perceber quais são os interesses das pessoas. Acho que, acima de tudo, os jovens podem não se interessar por discussões políticas nos jornais ou na televisão, mas têm preocupações muito concretas que são preocupações políticas e sociais. Durante o meu período no associativismo fomos sentido isso, se calhar as pessoas não acordavam e iam ver as capas dos jornais, mas juntavam-se em torno de questões muito concretas que lhes diziam respeito. Na escola Soares dos Reis, organizámos concentrações, manifestações em defesa do ensino artístico que eram questões políticas e que eles sabiam que eram políticas, porque nos dirigíamos diretamente ao ministério, à Direção Regional de Educação do Norte (DREN), e havia essa consciência social e de capacidades de reivindicação, percebendo que isso nos podia levar a algum lado.

Na Faculdade de Letras da Universidade do Porto também estiveste na direcção da Associação de Estudantes. Quando ias aos Encontros Nacionais de Direções Associativas (ENDA), sentias que havia um propósito comum de defesa nos jovens ou há interesses pessoais ali em causa?

Chateia-me um bocado aquele discurso paternalista em que se diz que os jovens não querem saber de nada. Mas também me chateia um bocado que as academias sejam os maiores contribuintes para isso. Estão burocratizadas. O ENDA é um proforma para eles irem lá lançar os seus quadros. Aliás, vamos a ver e, por exemplo, na Federação Académica do Porto os últimos seis ou sete presidentes foram todos assessores de grupos parlamentares ou secretários de Estado. Agora sempre que tenho Comissão de Educação sento-me em frente ao Luís Rebelo que é assessor do PSD, com quem eu discuti grandes assuntos durante dois ou três anos nos ENDAS_e por aí.

Havia uma agenda política partidária?

Havia uma agenda e acho que isso é demasiado evidente, o que ainda é mais escandaloso. Sempre fui do Bloco e sempre me afirmei como sendo do partido mas nunca foi por isso que perdi a legitimidade de participar nas coisas. Mas, nunca levei uma agenda partidária ou parlamentar para cima da mesa. Até porque a nossa Associação de Estudantes tinha gente de todos os lados políticos e todas as conquistas que se fizeram dentro e fora foi graças a discussões com toda gente, nunca por existir uma cartilha vinda de fora. Mas acho que isto é um problema dos estudantes que podem não se sentir representados por este ou aquele governo mas acima de tudo não se sentem representados pelos seus próprios representantes, isso é que é horrível. Já nem passa no imaginário dos estudantes achar que estas pessoas as vão ajudar, servem só como estruturas festivas, recreativas, gastam um milhão de euros em Queimas das Fitas e pronto, resume-se um bocadinho a isto e sempre me revoltou um bocado. Porque, de facto, é preciso uma estrutura muito organizada para pôr em causa isto, estrutura essa que é muito difícil de construir.

Achas que, em certa medida,
os jovens encaram a faculdade como um local de passagem e não estão preocupados com o legado que
deixam?

Há um filósofo que é o Deleuze que diz algo como: a nossa vida contemporânea é um género de uma máquina de lavar em centrifugação, em que nós nem conseguimos olhar para o lado, porque aquilo anda tão rápido que não conseguimos parar, nem sequer olhar pela janela da máquina, não dá para ver nada. Acho que isso acontece com os estudantes, Bolonha obrigou-nos a fazer um curso de três anos, a cumprir um conjunto de créditos, há uma pressa muito grande, há uma carga horária excessiva, há metas a cumprir, há um certo sentido de competição muito pouco saudável. Nem sou adepto das teorias da competitividade, mas aceito que dentro de um panorama e de um mercado de trabalho mais exigente, possa fazer sentido que as pessoas tentem ser melhores, mas chateia-me um bocado a filosofia do ser “o” melhor. Isso tem destruído o conceito de “universidade”. As pessoas querem ser as melhores e por isso perdem a capacidade de se juntar e discutirem em coletivo soluções. Perdeu-se esse espírito.

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