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Uma paixão imediata. Para durar uma vida

Aquilo que começou num curso de construção de cordofones transformou-se num ofício que Hugo Madeira quer quer manter para o resto da vida e, se possível deixar, como legado às gerações seguintes. A construção de guitarras portuguesas é uma  profissão que aprendeu e a qual agradece ao mestre Gilberto Grácio.

De um curso profissional que não correu muito bem até um «trabalho final que é recompensador», no qual «espera continuar para o resto da vida» e que é quase uma arte. Hugo Madeira aprendeu a profissão com um dos grandes artífices da construção de guitarras portuguesas, Gilberto Grácio. Aos 41 anos, Hugo é um dos poucos a fazer guitarras manualmente neste país. «Tenho uma concorrência saudável», ironiza.

O mestre, como lhe chama, levou Hugo Madeira a desenvolver os seus talentos e a enveredar por este ofício. «A princípio era só consultor do curso de construção de cordofones, depois passou a ser professor. Ele era único que sabia realmente construir instrumentos», diz Hugo Madeira.

«O mestre é o meu mestre e vem cá de vez em quando. Vem cá almoçar comigo, é meu amigo. É quase como um pai para mim. E vem cá orientar-me. E há muita coisa que eu ainda tenho de aprender», acrescenta. 

Hugo Madeira, que gosta da palavra «guitarreiro» para se referir à sua profissão, conta que este não é um ofício que «se aprenda em seis meses ou um ano». 

Aliás, nem um curso inteiro chega para aprender esta arte .«No final do curso pouco sabíamos. Construímos uma viola cada um. Éramos 12 formandos e pouco se soube. A viola foi praticamente construída pelo mestre. As 12 violas, portanto», diz Hugo Madeira, acrescentando que «o curso demorou um ano enão correu muito bem», especialmente por razões logísticas. Os materiais demoraram a chegar e «só começou a funcionar passados seis meses».

Ainda assim, elucida, que se não tivesse entrado na formação, hoje não seria ‘guitarreiro’. «Tenho tudo a agradecer. Se não fosse esta oportunidade não estava aqui a construir hoje». 

Mas até chegar a esta fase da carreira, ainda houve várias etapas a passar. Depois de terminado o curso, em 2001, «tivemos um interregno de seis meses a tentar convencer a câmara a ceder-nos um espaço para continuar» e a tentar persuadir o mestre a «dar-nos aulas». 

Entretanto, a procissão ainda ia no adro. Dos «doze formandos passaram para seis e de seis para três e depois com esses três constituímos uma empresa», com o apoio de um programa emprego do Instituto de Emprego e Formação Profissional. Depois ficaram apenas dois, para «virmos para este ateliê». 

O local de que fala é o Parque de Ateliers Quinta do Salles, um complexo de escritórios para arrendamento que é da fundação Marquês de Pombal, pertença da Câmara Municipal de Oeiras. «Agora estou a alugar este espaço, pago uma renda», diz Hugo Madeira que, entretanto, se separou do seu sócio e é empresário em nome individual, com a marca em nome próprio. 

«Ser ‘guitarreiro’ nunca era uma coisa que eu tinha pensado fazer. Apareceu o curso e eu atirei-me de cabeça porque gosto muito de música e gosto muito de trabalhos manuais», diz Hugo, que é de «artes» mas não é músico. «Sei afinar», conta.

O ateliê na Quinta do Salles é uma «fábrica de instrumentos artesanais» na qual o «grande desafio é a construção». Segundo o empresário, esta «é longa, demorada, e tem muitos pormenores». «O que o mestre nos mostrou foi como fazer a sério». Deu-lhe as ferramentas necessárias para este trabalho minucioso. «Disse-me que a aprendizagem disto são dez anos».

Uma década para aprender os pormenores. «Até se pode saber dobrar bem uma ilharga, mas não chega. E depois é preciso saber fazer moldes, é preciso saber as distâncias, é preciso saber fazer as divisões de escala. Há tanta coisa…», exemplifica. «E depois é preciso ter jeito, ter mãos. Não vale a pena. Ou se tem ou não se tem», garante.

 

Negócio Mundial

E é com este talento manual e com muito trabalho que Hugo Madeira foi construindo o seu negócio. «É um negócio pequeno, mas não é um negócio difícil», revela, dizendo já que se «se fizer as coisas como deve de ser as pessoas vêm cá». Além disso «não é um mundo muito grande», apesar de se estar a espalhar para o Japão e, através dos luso descendentes, na Europa. 

«Tenho até feito alguns instrumentos lá para fora», revela o empresário, num negócio que é sempre por encomenda. «Não vendo para lojas, porque isso obrigaria a baixar o preço, o que é muito complicado uma vez que sou só eu». Por isso, se uma loja pedir 30 guitarras, é impossível dar vazão à encomenda. Uma guitarra de fábrica custa à volta de 350 euros. As que saem das mãos de Hugo terão uns zeros à frente, não sabemos, já que não fala de números.

Hugo faz uma média de 12 guitarras por ano. Até podia fazer mais, mas durante um ano tem sempre pedidos de reparações. Ainda assim, só aceita «reparações se forem do mestre, ou da família do mestre, ou minhas. Se não, não fazia mais nada». 

As guitarras portuguesas são o core business, mas faz outros instrumentos de cordas. «Faço violas clássicas, faço bandolins. Estou a fazer um baixo de fado», aponta Hugo Madeira.

A construção de uma guitarra portuguesa demora 180 horas. Mas é uma contabilidade difícil de fazer. «Tudo depende. Faço várias ao mesmo tempo. Umas estão numa fase, outras estão noutra. Por causas das colagens, isto vai-se revezando», esclarece. 

A madeira é um dos aspetos decisivos da construção de uma guitarra portuguesa. «Têm que ser madeiras nobres, bem selecionadas», salienta o ‘guitarreiro’. «O mestre dantes ia mesmo à fonte, eu mando vir pela internet. Se não estiver satisfeito, devolvo». 

«O meu fornecedor já sabe mais ou menos o que é que quero». Mas não «há uma única madeira que seja» autóctone de Portugal. «Fazer tampos em pinho não dá. Tem o veio muito largo, muita resina e o som não presta» afirma Hugo Madeira. 

«O balsanto, a madeira mais nobre que utilizo, vem da Índia. Também pode vir do México, mas não existe em países frios ou temperados como o nosso. A nogueira que é a menos nobre que utilizo e vem da América. O pinho abeto vem do norte. Da Europa, do Canadá», revela, ao mesmo tempo que lembra que estas madeiras são cada vez mais raras devido a «guerras, secas, poluição, sobrepovoamento».

Além disto, há o abate. «Cada vez se abatem árvores mais novas. Por exemplo no Canadá, que até tem uma boa política de reflorestação, abatem árvores cada vez mais jovens. E para fazer um tampo é preciso uma árvore com pelo menos um metro de diâmetro».

O construtor afiança que «para ser uma guitarra portuguesa de topo tem de ser mesmo balsanto». Já a de «nogueira faço mais barata, para quem está a aprender, para quem não pode dar muito dinheiro por ela», diz, acrescentando que o «pinho abeto é obrigatório em todas», para os braços. 

 

Instrumento peculiar

Para além das madeiras nobres há outras características que distinguem a guitarra portuguesa. «É um instrumento muito peculiar porque precisa sempre de alguma afinação. É muito sensível a diferenças de temperatura e ao ar condicionado», explica o ‘guitarreiro’, revelando que até há «casos de artistas que vão para o palco e depois aquilo começa tudo a desafinar por causa do ar condicionado em cima». 

Hugo Madeira espera ficar, para sempre, ligado a este ofício. «Espero fazer isto o resto da minha vida», confessa. «Ganhei uma paixão por isto logo desde o início do curso». O ‘guitarreiro’ admite que gosta de «construir tudo» mas que as guitarras portuguesas «são as suas prediletas». 

Sempre que «posso tento inovar» diz, uma vez que «não se pode estar parado» para além tentar «sempre mudar um bocadinho, também para personalizar». 

Hugo Madeira garante que o seu «sonho já está realizado» mas que ainda gostaria de deixar o legado «para as gerações futuras». Isto porque o mestre Gilberto ensinou-o com um olhos postos no que ainda virá, esperando que o seu discípulo, um dia, «também viesse a ensinar». 

Um passo que não dará para já. «Tenho que ganhar cal. A guitarra portuguesa é um instrumento difícil».   

Publicado originalmente na edição impressa do b,i, de 8 de abril de 2017