Internacional

25 de Abril. Uma data de memória, também para os outros

Não é só em Portugal que se recorda ou celebra o dia 25 de abril. Nos EUA, no Vietname, em Itália ou na Coreia do Norte, o “Dia da Liberdade” tem outros significados históricos, mais ou menos festivos. Guerras, revoluções, libertações e nascimentos de exércitos escolheram o mesmo dia para ficar para a História. E são recordados, ano após ano, lá fora, mas também cá dentro.

1898. Declaração de guerra dos EUA a Espanha

Norte-americanos e espanhóis já andavam de costas voltadas, pelo menos desde 1895. O motivo? Cuba. A luta pela independência daquela colónia espanhola, iniciada em fevereiro daquele ano, granjeou o apoio de grande parte da opinião pública dos EUA. A brutal repressão de Espanha exercida sobre os locais, recebeu enorme destaque na imprensa americana e fez aumentar a simpatia de Washington para com a ideia de revolução.

Quando em fevereiro de 1898 o USS Maine – um velhinho couraçado, enviado para Cuba para  proteger os cidadãos norte-americanos ali residentes – se afundou no porto de Havana, devido a uma explosão ocorrida em circunstâncias misteriosas, subiu a pressão da opinião pública para uma intervenção dos EUA. Os espanhóis ainda tentaram avançar para uma solução intermédia, que pudesse garantir alguns privilégios de autonomia aos cubanos, mas o Congresso norte-americano aprovou resoluções de apoio à independência unilateral de Cuba e à retirada de Espanha da ilha.

No dia 24 de abril, Espanha declarou guerra aos EUA, que responderam da mesma moeda no dia seguinte. O confronto acabou por ser rápido e facilmente ganho pelos norte-americanos. No início de maio destruíram uma importante frota espanhola ancorada em Manila, nas Filipinas, e dois meses depois trucidaram a armada caribenha de Espanha, numa combate naval ao largo de Cuba, pondo fim à guerra. Em dezembro desse ano, os espanhóis renunciaram a Cuba, cederam Guam e Porto Rico aos EUA e ainda “venderam” as Filipinas aos americanos, pela simbólica quantia de 20 milhões de dólares.

1915. Início da campanha militar de Gallipoli

Um dos maiores desastres da história militar europeia começou a 25 de abril de 1915, em plena Primeira Guerra Mundial. Frustrado com os poucos avanços dos aliados no coração do continente, o então Primeiro Lorde do Almirantado britânico, Winston Churchill, concebeu um ambicioso plano de ataque contra o Império Otomano, aliado da Alemanha e dos restantes Impérios Centrais.

O objetivo principal era a conquista de Constantinopla – atual Istambul – para que, através dela, fosse possível repelir os otomanos do conflito e criar uma linha de apoio aos aliados russos, isolando as tropas inimigas.

Se o plano era bom, a sua execução foi desastrosa. A frota dos aliados foi repelida à entrada do estreito de Dardanelos e os milhares de soldados que desembarcaram na península de Gallipoli foram chacinados, durante os largos meses de intensos combates. No final, o exército invasor avançou pouco mais do que uma centenas de metros e Churchill abandonou o posto para ir combater nas trincheiras francesas.

Pelo menos 58 mil militares morreram, incluindo 29 mil britânicos e irlandeses, e 11 mil australianos e neozelandeses. Do lado do Império Otomano, contaram-se cerca de 87 mil mortos. A Campanha de Gallipoli envolveu ainda forças francesas, indianas, africanas, canadianas e alemãs. No total, mais de 300 mil pessoas ficaram feridas. Conhecido como “Anzac Day” – de Australian and New Zealand Army Corps – o dia 25 de abril é uma das datas mais importantes na Austrália e é recordado, ano após ano, com homenagens aos soldados caídos às portas do Império Otomano.

1932. Criação do Exército do Povo da Coreia do Norte

Na Coreia do Norte, o 25 de abril é um dia de festa, uma vez que se celebra a criação do corpo militar do regime. Na realidade, o Exército do Povo da Coreia foi concebido no dia 8 de fevereiro de 1948 e organizado de acordo com o modelo e com a ajuda soviética.

O afastamento de Pyongyang da URSS nos anos 60 e 70, levou Kim Il-sung a alterar a data, em 1971, e a decretar o dia 25 de abril de 1932 como o momento histórico do nascimento do exército. A justificação apresentada pelo o homem que inventou o Zuche – o alicerce teórico da peculiar experiência comunista da Coreia do Norte – apontava para o surgimento das primeiras forças de guerrilha que, em 1932, desafiavam os exércitos japoneses.

O dia 25 de abril é, então, feriado nacional na Coreia do Norte, desde essa altura e costuma ser festejados com as já tradicionais paradas militares e demonstrações de força em Pyongyang.

O Exército do Povo da Coreia é composto cinco braços armados: Força Terrestre; Força Aérea; Marinha; Força de Operações Especiais; e Força Estratégica de Mísseis. Com cerca de 1 milhão e duzentos mil membros ativos, é um dos maiores do globo. O seu líder é o líder do regime: Kim Jong-un.

1945. Libertação de Itália e fim do regime fascista

A Festa della Liberazione ou Anniversario della Resistenza marca o fim da guerra civil italiana, da ocupação nazi de Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, e do regime fascista de Benito Mussolini. A libertação das duas principais cidades do norte de Itália, Turim e Milão, pelas tropas norte-americanas – já depois de Bolonha (21 de abril) e Génova (23 de abril) – no dia 25 de abril de 1945, permitiu à resistência italiana –composta por grupos de combate comunistas, socialistas, cristãos, monárquicos, anarquistas e liberais – anunciar pela radio a tomada do poder e apelar à perseguição e execução de todos os fascistas, ao som daquele que é hoje em dia um verdadeiro hino de liberdade: a canção “Bella Ciao”.

À libertação daquelas duas cidades seguiram-se vários movimentos semelhantes e, em menos de uma semana, acabou a Itália de Mussolini. Il Duce foi detido enquanto tentava fugir para a Suíça e abatido no dia 28 de abril. Dois meses depois os italianos decidiram, em referendo, acabar com a monarquia e avançar para uma república. Em 1949 o primeiro-ministro Alcide De Gasperi decretou que o dia 25 de abril passaria a ser feriado nacional.

Desde essa altura que a data se celebra com pompa e circunstância por todo o país. Em Roma e em Milão é bastante comum organizarem-se marchas e paradas, em memória dos que caíram na resistência ao fascismo e ao nazismo.

1975. Princípio do fim da Guerra do Vietname

Os últimos dias de abril de 1975 abriram caminho para a conquista de Saigão – capital de Vietname do Sul, apoiada militarmente pelos EUA e Austrália, hoje denominada de Ho Chi Minh –, por parte do exército do Vietname do Norte, e para o fim de um dos conflitos mais sangrentos do período da Guerra Fria.

A ofensiva das forças vietnamitas comunistas rumo à principal cidade do país, levou à ordem de evacuação da embaixada da Austrália em Saigão, no dia 25 de abril, quase dez anos depois da chegada dos primeiros soldados australianos ao país, para combaterem junto dos vietnamitas do sul.

Cinco dias depois da evacuação, deu-se a libertação (para uns) ou a queda (para outros) da cidade e o fim da guerra, com a rendição dos sulistas ao exército do norte.

A Guerra do Vietname foi uma das intervenções militares norte-americanas que mais debate levantou, particularmente nos EUA, e é um dos marcos históricos do conflito ideológico que marcou o século XX, posto em confronto através das chamadas “guerras por procuração”. Iniciada em 1945, a guerra resultou num total calculado de 2,3 milhões de mortos, nos quais se incluem 1,3 milhões de soldados e cerca de 1 milhão de civis.

Os Estados Unidos terão investido perto de 200 mil milhões de dólares no conflito.