Internacional

Na França, os extremos dividem-se

Le Pen faz campanha pelos votos da esquerda radical francesa, que ainda não tomou posição oficial para a segunda volta. Não os conseguirá.

Jean-Luc Mélenchon tem muito para saborear na derrota. O homem da esquerda radical francesa acabou em quarto lugar, melhorou oito pontos em relação às presidenciais de há cinco anos, ganhou em quatro das dez maiores cidades francesas, ficou em primeiro no voto dos mais jovens, quase ultrapassou o candidato gaulista no terceiro lugar e ficou a menos de dois pontos de Marine Le Pen.

Mélenchon obteve o triplo dos votos do Partido Socialista – um pouco mais de sete milhões de eleitores –, revitalizou a moribunda esquerda francesa distante do centro, mas, ao contrário do que aconteceu há quinze anos, não mobilizou o voto contra a Frente Nacional.

Do “façam Le Pen cair até ao ponto mais baixo” que proclamou em 2002, quando Jean-Marie passou à segunda volta, Mélenchon passou no domingo a um “cada um sabe, na sua consciência, qual é o seu dever”. Foi o único grande candidato a não recomendar o voto em Emmanuel Macron, iniciando o debate sobre se é coerente – ou responsável – ser-se simultaneamente contra Le Pen e não recomendar o voto no único homem em posição de a travar.

O porta-voz do líder da France Insoumise insistiu em dizer esta quarta-feira que Mélenchon não vai declarar apoio a qualquer um dos candidatos da segunda volta. Um dado que se pode mostrar irrelevante. De acordo com uma sondagem realizada pelo “Le Monde” no domingo, apenas 9% dos eleitores da aliança da esquerda radical se dizem dispostos a votar em Le Pen no segundo turno – 29% não escolhem nenhum, o que deixa cerca de dois terços disponíveis para eleger Macron.

O movimento de Mélenchon, para além disso, atirou um referendo online aos seus seguidores, perguntando-lhes qual deve ser a posição do France Insoumise para a segunda volta, mas dando apenas três escolhas: Macron, voto nulo ou abstenção. O voto Le Pen não é uma alternativa. “Nem um só voto para a Frente Nacional”, explica Éric Coquerel, coordenador do Partido da Esquerda, que, com alguns setores do Partido Comunista, constitui o principal da aliança dos Insoumises.

Obstinação?

A liderança do movimento diz que quer deixar a decisão sobre o que fazer no segundo turno aos seus apoiantes – principalmente num ano em que mesmo os maiores partidos optaram por primárias abertas – e que o apoio a um ex-banqueiro que propõe despedir mais de cem mil funcionários públicos e reforçar o teor neoliberal da segunda metade do governo de Hollande deve ser referendado.

Mas os críticos não se conformam, principalmente levando em conta que Mélenchon recomendou proibir a Frente Nacional em 1997, apoiou Jacques Chirac contra Jean-Marie em 2002 e François Hollande contra Nicolas Sarkozy dez anos depois.

"Como se fosse possível colocar o ‘banqueiro austericida’ Macron no mesmo plano de angústia política”, reclama o colunista Rubén Amón no “El País”, queixando-se da mesma posição tomada pelo Podemos, o partido irmão espanhol dos Insoumises. “Ou se está com a Frente Nacional, ou se está contra a Frente Nacional. De outro modo, a ambiguidade pode converter-se num exercício de cumplicidade incendiária com o pior cenário possível.”

Os socialistas franceses repetem as críticas. “É o seu orgulho”, lançou esta semana Malek Boutih, acusando Mélenchon de ser um obstinado e de dar “um grande impulso” à Frente Nacional. O argumento mais visível é a de que os extremos se tocam e que, assim, os eleitores que votaram no programa eurocético, antiglobalização, anti-sistema e por um Estado Providência mais robusto, como defendeu Mélenchon, podem trocá-lo facilmente pelos pontos em comum com Marine Le Pen.

Migração de votos

As semelhanças entre os programas, porém, tendem a ser exageradas e, para além disso, as consultas indicam que a maior transição de eleitores na segunda ronda acontecerá não do campo de Mélenchon (9%), mas das fileiras do candidato do centro-direita, Fillon, de onde 33% dos seus apoiantes admite votar Le Pen no início de maio.

Mas a Frente Nacional continua a comparar-se à campanha de Mélenchon e tenta disputar-lhe os votos. Nas redes sociais multiplicam-se imagens alegando mostrar os pontos em comum entre os candidatos e os pesos-pesados já entraram em cena.

“Parece-me que tem muito mérito”, disse Jean-Marie Le Pen à rádio francesa, elogiando a posição de Mélenchon de não recomendar Macron e opôr-se abertamente à sua filha. “Muitos dos seus eleitores recusar-se-ão a votar em Macron e muitos podem votar em nós”, afirmou, por sua vez, o vice-presidente da Frente Nacional, Florian Philippot.