Cultura

Crítica de discos. É favor aumentar o som

O vídeo não matou a estrela da rádio


Mac Demargo This old Dog

Fiel companheiro

lll O vídeo não matou a estrela da rádio, mas o séc. xxi acabou com as estrelas rock favoritas da classe média. Agora, ídolos da rua, só no rap. E nas elites de qualquer coisa sem uma célula musical como é o indie. Mac DeMarco é um ídolo à medida da classe média alta das cidades. Tudo o que lhe aconteceu tem um aspeto acidental, “independente” e “desalinhado”. É involuntário e não premeditado. E as canções fazem eco desse estatuto espontâneo. Correm como um rio sereno ao ritmo de uma vida com problemas de Primeiro Mundo, como não haver cerveja ao pequeno-almoço ou a casa de hambúrgueres favorita estar fechada ao domingo. A graça de tudo isto é que, tal como Father John Misty, Mac DeMarco goza com a inadvertência e é o primeiro a saber que o fim pode estar a cada esquina. A personagem pateta ofusca o lado sério – as histórias podem ser ridículas, mas a escolha de sons é de mestre. Há menos guitarras clarinhas, maior predominância de sintetizadores e um espaço entre os sons muito bem calculado. Slacker, sim, mas com critério

Pond The Weather

Pressão atmosférica

lll Os vizinhos do lado dos Tame Impala moram na Via Láctea, mas o caos de que se alimentam é bem terreno. “The Weather” é uma montanha-russa de pedais fuzz, falsetes, canções com princípio e fim mas sem meio, desencaixadas de uma organização (?) que nunca existiu. Este desgoverno tem graça quando o cabelo despenteado dá uma boa cara, mas os Pond parecem estar a experimentar por experimentar, sem interesse aparente nas conclusões. Um pouco como Björk em álbuns como “Medúlla”, é um exercício estilizado pela desordem natural das coisas, mas vago e inconsequente. Os australianos já acertaram nos testes quando o psicadelismo saiu da casca outra vez – “Hobo Rocket” (2013) e “Man It Feels Like Space Again” (2015) –, mas agora estão só a flutuar na maionese, a unir planetas e estádios, galáxias e cidades, à procura de uma gravidade que não venha no boletim meteorológico. Estes mantras não são novos, mas estiveram abandonados; agora, os Pond assumem a exploração mas, como em tudo, nem sempre se descobre a pólvora 

Anohni Paradise

Cabo da pouca esperança 

lll Se o pensamento é asfixiado todos os dias pela inquisição do dedo no gatilho, é natural que a palavra perca a competição social para a imagem e que a mensagem subscreva o que não foi dito ou escrito. E se Anohni, por todas as transformações corporais formalizadas na voz castrada, foi um alien pop, hoje é uma voz que se faz escutar não apenas pela transexualidade, mas também, e sobretudo, por uma agenda política incomodativa e divergente do politicamente correto. Quem ousaria questionar Obama no final do mandato? Anohni fê-lo em nome de Chelsea Manning, a ex-militar transgénero que passou informações confidenciais à WikiLeaks e acabou atrás das grades. Tal como “HOPELESSNESS”, “Paradise” é um panfleto poderoso sobre causas 2.0 como o género e o ecossistema, mas convém recordar que antes dos abaixo-assinados e documentos está a expressão de musical, e o EP sofre dos mesmos males de arquitetura sonora duvidosa do álbum. O desequilíbrio de forças favorece a força da expressão mas, enquanto corpo artístico, falta-lhe o tronco.