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Fernando Ulrich sai de cena

Adepto do Sporting, Ulrich tem no tango o seu principal hobby.

Depois de 13 anos à frente da liderança do BPI, Fernando Ulrich abandona o cargo, dando lugar ao espanhol Pablo Forero. Ainda assim, vai continuar ligado à instituição financeira que recentemente foi alvo de uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) por parte do catalão CaixaBank assumindo a função de chairman. O polémico banqueiro sai pelo seu próprio pé face às novas circunstâncias do banco. «Entendo que a entrada em funcionamento desta nova fase deve ser protagonizada na liderança executiva por alguém originário do CaixaBank. Eu não podia ser essa pessoa» disse Ulrich, no passado mês de fevereiro, quando anunciou a sua saída. E apesar de ter estado sempre envolvido na vida do BPI já veio admitir que não vai sentir saudades do cargo. «Saudades não vou ter nenhumas porque continuo cá. Já trabalho há 45 anos e já não tenho a energia que já tive. (...) Continuarei completamente comprometido com o BPI. Espero talvez com um pouco menos de stress», revelou. 

Fernando Ulrich nasceu em Lisboa, em 1952, no seio de uma família tradicionalmente ligada à banca - o seu avô paterno foi administrador do Banco de Portugal - e desde muito cedo decidiu que também iria seguir esse rumo. Até entrar na banca teve uma breve experiência como jornalista, no jornal Expresso, onde usava o pseudónimo Vicente Marques para assinar artigos sobre mercados financeiros. Mais tarde, entre 1981 a 1983, foi chefe do gabinete do ministro das Finanças e do Plano, nos governos de Francisco Pinto Balsemão e ainda assessor do Embaixador de Portugal junto da OCDE como responsável pelos assuntos económicos e financeiros. 

Só a partir daí é que vira a página e já com 31 anos entra finalmente no setor financeiro. A convite de Artur Santos Silva ingressa na Sociedade Portuguesa de Investimentos, que daria origem ao BPI. Em abril de 2004, 22 anos depois de ter entrado na instituição financeira, assume a presidência executiva do BPI, que agora deixa.

Foi ainda um dos rostos do movimento Compromisso Portugal que contava com centenas de empresários e gestores - liderado por António Carrapatoso, António Mexia, Diogo Vaz Guedes e Filipe de Botton - e tinha como missão de lançar «uma nova geração» de decisores. A ideia era criar condições que levassem «a sociedade civil a pressionar o governo a realizar as mudanças indispensáveis ao país». Ficou conhecido pelo encontro no Beato.

Casado e com três filhos acabou por não concluir a licenciatura, apesar de ter frequentado o Instituto Superior de Economia da Universidade Técnica de Lisboa. Adepto do Sporting, tem no tango o seu principal hobby. 

O banqueiro polémico

Dono de uma personalidade forte, Ulrich é conhecido pela sua frontalidade, impulsividade e pelo seu caráter combativo nomeadamente pelos confrontos que protagonizou com Ricardo Salgado (BES) e com Paulo Teixeira Pinto (BCP). Com o ex-dono disto tudo desentendeu-se quando este anunciou que, numa possível fusão BPI/BES, o BES assumiria uma posição dominante. Já com Paulo Teixeira Pinto trocou acusações no decorrer da OPA lançada pelo BCP sobre o BPI e que viria a falhar. Antes da queda do BES, enviou uma carta ao governador do Banco de Portugal para repor «a verdade dos factos» sobre os alertas que tinha vindo a fazer, mas que foi desvalorizada por Carlos Costa. 

Considerado «politicamente incorreto», Fernando Ulrich também provocou polémica ao propor mudanças radicais em matéria laboral, nomeadamente a liberalização total dos despedimentos coletivos e individuais e o corte nos vencimentos dos assalariados. Acabou por ficar conhecido por todos os portugueses pela sua polémica expressão «ai aguenta, aguenta» face à possibilidade do país ter de aguentar mais austeridade. Estávamos em 2012, após a apresentação do Orçamento de Estado para o ano seguinte. «Não gostamos, mas [Portugal] aguenta, e choca-me como há tanta gente tão empenhada, normalmente com ignorância com o que está a dizer ou das consequências das recomendações que faz, a querer empurrar-nos para a situação da Grécia», disse o banqueiro. 

Recentemente, foi uma das vozes que apoiou a escolha de António Domingues, antigo administrador do BPI, para a liderança da Caixa Geral de Depósitos. Referindo-se a Domingues como um «grande amigo», Ulrich afirmou que o administrador era a pessoa melhor colocada que conhecia para assumir a grande responsabilidade. «Trabalhamos juntos há 27 anos. É a pessoa com quem, ao longo destes 27 anos, partilhei mais angústias, preocupações, busca de soluções. É uma pessoa a quem o BPI muito deve. E toda a comissão executiva. E eu em particular», declarou.

Guerras internas

Dentro do próprio BPI teve de enfrentar guerras. Depois de ter sobrevivido à OPA hostil do BCP sobre o BPI, à crise internacional em 2007 com o subprime e à falência de várias instituições financeiras que deixaram marcas profundas no sistema financeiro recentemente foi obrigado a reduzir, sob ameaça de multas elevadas, a exposição que o banco tinha a Angola por exigência do Banco Central Europeu (BCE). A tarefa não foi fácil e acabou por criar conflitos com Isabel dos Santos, que se opunha à desblindagem de estatutos do BPI e à OPA do CaixaBank. Uma solução que acabou por contar com o apoio do Governo português e do Presidente da República - ao ponto do executivo preparar uma legislação que permitia a desblindagem de estatutos nos bancos ao facilitar o fim da limitação de votos dos acionistas. Um diploma que retirou poder à empresária angolana e que permitiu que a OPA do banco catalão recebesse luz verde. Também descontente com este desfecho ficou o grupo Violas - acionista de referência da instituição financeira, assim como os pequenos acionistas do banco que acenaram com processos judiciais para travar a operação. 

Publicado originalmente na edição impressa do b,i de 29 de abril