Politica

Geringonça. Marcelo critica otimismo de António Costa (outra vez)

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa voltaram à Faculdade de Direito de Lisboa, onde se conheceram. Falou-se de otimismo, de Costa ver sol onde há chuva e da sintonia sobre a Europa

Poderia dizer-se que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa estão em lua-de-mel desde que o Presidente da República assumiu funções.

Além de atestar a constitucionalidade da solução de governo e de certificar o bom funcionamento da geringonça, Marcelo defende o executivo, alegra o país e demonstra uma relação próxima com o primeiro-ministro, que foi seu aluno na Faculdade de Direito: há selfies, abraços e guarda-chuvas partilhados. 

Se Passos Coelho, dizem, é a argamassa que cimenta os partidos que sustentam o governo, sendo a discordância de Bloco de Esquerda, PCP e PS com a direita bem maior que quaisquer discordâncias entre eles, Marcelo Rebelo de Sousa será o cimento entre o executivo socialista e o país. O silêncio sindical nas ruas, claro, também é fator determinante para a denominada paz social. 

Mas, numa equação tão aparentemente perfeita nas suas imperfeições, Marcelo Rebelo de Sousa mantém-se como mais do que uma peça numa engrenagem que, do ponto de vista político, é distante das suas verdadeiras origens.

Embora essa distância seja múltiplas vezes ignorada, ou até desconhecida, ela vai sendo marcada pelo presidente. E, curiosamente, sempre com a mesma achega, quase fraternal, sobre o otimismo de António Costa. 

A primeira advertência (pública) veio em maio de 2016: “O primeiro-ministro tem um otimismo crónico e às vezes ligeiramente irritante”, disse o antigo professor.

Menos de um ano depois, em abril de 2017: “Eu às vezes digo: não, o senhor primeiro-ministro irrita-me um bocadinho, porque é evidente que há problema e está a tentar explicar-me que não há esse problema, e não me entra na cabeça.

Portanto, não me venha dizer que roxo não é roxo, é um violeta sei lá o quê.” 
E ainda ontem, novo ataque a Costa, o otimista, por Marcelo: “É impossível ser mais otimista que ele [Costa]. Todos os dias, mesmo quando chove, abre os cortinados e está um sol ridente! Que nem é o caso agora, que está a chover e ele vê sol, mas enfim.” 

Ontem, apropriadamente, chovia mesmo, brincou o chefe de Estado num debate sobre a Europa onde também estava o visado, António Costa – ambos de regresso pontual à Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. 

O reequilibrar veio a seguir e bem direto ao líder da oposição, Passos Coelho. “Esse é um grande encanto [o otimismo] e faz bem ter um primeiro-ministro assim [Costa]. O que seria ter um primeiro-ministro pessimista...”

Acerca do projeto europeu, o líder de governo afirmou: “Sozinhos estaríamos sempre pior que em conjunto e a União Europeia é efetivamente uma mais-valia.” 

“Há razões para estarmos confiantes”, sublinhou Costa. 

Marcelo, por sua vez, disse à audiência (e ao primeiro-ministro): “A grande maioria dos portugueses pensa o mesmo que nós os dois sobre a Europa e Portugal.”

E o puxão de orelhas ao otimismo saiu suavizado pelo europeísmo em comum. 
Marcelo pediu aos partidos para, “nalguns casos, repensarem-se e reaproximarem-se dos povos” para resolver problemas nacionais, pressionando “para que a Europa facilite a resolução desses problemas”.