Estudo sobre Baleia Azul revela que jogo começou com mortes inventadas

Os primeiros casos de automutilações e suicídios em rede surgiram na Rússia e, apesar de não haver provas, foram associados ao jogo Baleia Azul. Os especialistas em segurança online pedem cautela nestas associações e falam em efeito de contágio.  

Ainda no ano passado, na Rússia, uma reportagem dava a conhecer grupos pró-suicídio na rede social VKontakte. Também neste caso, os jovens eram aliciados a atos como a automutilação e o suicídio, através de uma rede de vídeos, códigos e símbolos. Pouco depois, o jornal russo Novaia Gazeta publica uma notícia na qual relaciona este grupo a mais de 130 suicídios que aconteceram no país entre novembro de 2015 e abril de 2016.

A partir daí, não foi preciso muito para que casos semelhantes fossem notícia em vários países. Na Colômbia, terão sido identificados 3200 jovens com perfil nesta rede social e, no Brail, foram noticiados dezenas de suicídios cometidos por jovens que, alegadamente, estariam ligados ao jogo Baleia Azul. Também Portugal não escapou a esta onda e, até ao momento, o Ministério Público tem em curso três inquéritos, nas comarcas de Setúbal, Portalegre e Faro, relacionados com este jogo.

Mas a questão que se coloca é: estarão todos estes casos verdadeiramente relacionados com o atualmente conhecido Baleia Azul? Parece que não e, tal como Pedro Marques, especialista em segurança na internet, explica ao SOL, esta associação pode causar um efeito de contágio. 

«Acreditamos que o caso Baleia Azul teve início num hoax [palavra técnica usada em contexto informático, que pode ser traduzida como embuste]», refere o coordenador do Centro Internet Segura. Esta opinião é partilhada pelos vários membros da rede europeia Insafe, da qual o organismo português faz parte. 

No entanto, o site Better Internet for Kids – plataforma pública da rede Insafe – lembra que, apesar de ter começado em torno de notícias falsas ou sobre as quais faltam provas, a verdade é que o jogo «tornou-se problemático». Num texto que tenta explicar a forma como o jogo se tornou um fenómeno mundial, a equipa diz que existem casos de jovens que estão a explorar o medo e que, para isso, criam os seus próprios desafios online, garantindo que fazem parte do jogo Baleia Azul.

Por outro lado, os media são apontados, tanto pela rede internacional como pela delegação portuguesa, como um importante veículo de informação sobre o tema, mas Pedro Marques lamenta o «caráter alarmista» adotado por alguns meios de comunicação social. «Era importante que se falasse mais da parte preventiva e não tanto dos casos que vão aparecendo nem a forma como o desafio se desenrola», explica. Por isso, o Centro Internet Segura faz até um paralelo entre este fenómeno e o que acontece no caso do suicídio. «Os media podem ter um efeito devastador na propagação de comportamentos auto-lesivos e suicidas através do efeito Werther», ou suicídio por contágio, que acontece normalmente quando uma notícia sobre o tema é divulgada. 

Os casos portugueses

O Ministério Público já confirmou que tem em curso três inquéritos relacionados com o jogo Baleia Azul. No entanto, já foram vários os casos de jovens hospitalizados depois de se terem automutilado, alegadamente para responder aos desafios deste jogo. O mais recente aconteceu ontem, em Braga, onde uma adolescente de 14 anos deu entrada no hospital com cortes feitos com um x-ato.

Esta semana, foram ainda identificados mais dois casos na zona de Viseu. Um de uma rapariga de 14 anos com cortes superficiais na zona do pescoço e outra no concelho de Mangualde, com um corte na mão. 

Ao Centro Internet Segura Portugal chegou apenas um caso, até porque, segundo os responsáveis, «as vítimas continuam a preferir dirigir-se diretamente às autoridades», nomeadamente à Polícia Judiciária e à PSP. «Procedimento totalmente válido», salienta Pedro, uma vez que as regras estabelecidas obrigam o centro a encaminhar para as autoridades todos os casos que lhes chegam e, caso haja necessidade de acompanhamento psicológico, também para a APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.

Sem adiantar pormenores sobre o caso, Pedro Marques refere que a vítima tinha recebido um contacto via WhastApp, com partilha de imagens de automutilação. «O meio de propagação das mensagens é aliás um dos pontos que nos faz fazer a diferença entre a Baleia Azul e outro género de grupos pró-suicídio», explica o responsável. Isto porque, no caso da Baleia Azul, os desafios são lançados através do Whastapp e no caso das vítimas russas, a partilha dos desafios era feita através de redes sociais e grupos fechados.

Mesmo assim, este é o primeiro caso do género com o qual o centro teve que lidar. «Os mais próximos que tivemos estavam relacionados com sites e blogues pró-anorexia e pró-bulimia, que, tal como nestes jogos de automutilação, também promovem que seja a própria pessoa a ter ações lesivas para a sua saúde». 

Pedro Marques aproveita para lembrar que do total de contactos que recebem, 42% prendem-se com questões técnicas – melhorar o perfil ou palavras-passe – 31% referem-se a burlas e abusos de privacidade e, por fim, 27% estão relacionadas com questões comportamentais como o cyberbulling ou revenge porn.

Já na linha de denúncia de conteúdos ilegais – que já não abrange casos de self harm, como os de automutilação ligados à Baleia Azul – os contactos estão relacionados com pornografia infantil, racismo ou apologia à violência. Neste caso, desde Abril de 2016, esta linha já recebeu mais de 1800 denúncias, 50% das quais feitas no primeiro trimestre deste ano. «Temos sentido um crescimento abrupto das denúncias», refere, lembrando que 32% dos casos estão relacionados com pornografia infantil e 14% com conteúdos de erotização de menores.