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Uma exposição de vanguarda para ajudar a travar o tempo

Na cidade da Ribeira Grande, num concelho pobre da ilha de S. Miguel, nasceu um centro de artes que é um luxo em qualquer parte do mundo. A entrar no terceiro ano de vida, o “Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas” quer internacionalizar-se e para isso juntou duas coleções de vídeo (uma nacional e uma estrangeira) numa exposição com curadoria espanhola.

 

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Enquanto os convidados se dividem entre as salas de exposição e a entrada do edifício, há jovens que passam de skate no corredor que separa os dois corpos do moderno Centro de Artes Contemporâneas na Ribeira Grande (ilha de São Miguel, Açores), ao qual foi dado o nome de Arquipélago. Não vêm para a inauguração de “Tempo Líquido”, uma exposição de vídeos de duas coleções privadas, estão simplesmente a divertir-se. Habituaram-se a andar por estes espaços e tornaram-se frequentadores assíduos quando a diretora, Fátima Marques Pereira, convidou um artista para lhes desenhar uma rampa onde pudessem praticar as suas manobras. “Hoje já entram na biblioteca e levo-os muitas vezes a visitar as exposições”.

Inaugurado em março de 2015, o Arquipélago tem nove mil metros quadrados de área coberta, o que já de si é impressionante. Mas se os edifícios fossem medidos em termos de volume e não de área, este centro de arte contemporânea bateria todos os recordes. Os tetos altíssimos pertenceram outrora a uma antiga fábrica de tabaco e de álcool que ainda serviu de aquartelamento militar, na década de 1950, e foi totalmente recuperada pelos arquitetos Francisco Vieira de Campos, Cristina Guedes e João Mendes Ribeiro. Ao que já existia, o projeto juntou a Blackbox e a zona de reservas, construções minimalistas cor de pólvora, para combinar com o tom da pedra dos edifícios antigos. “O cimento foi feito com a terra de cá, o arquiteto queria a cor dos Açores e por isso fez várias experiências para chegar aqui”, explica Fátima Marques Pereira, que nos leva numa visita guiada por este espaço imenso.

“É tudo feito cá”, revela a diretora enquanto nos mostra as oficinas do centro. Como o equipamento já tem custos acrescidos devido à insularidade (o preço do transportes das obras, por exemplo, consome uma parte significativa do orçamento) foi preciso encontrar estratégias para cortar nos custos. “Fazemos carpintaria, construímos as paredes, pintamos, nada disso é subcontratado. Se for à loja vê molduras que foram desenhadas pela nossa arquiteta e feitas nesta oficina”. A situação de isolamento exige também que o centro possua a sua própria maquinaria (empilhadoras, plataformas elevatórias) para que possa funcionar autonomamente.

Mas se geograficamente o Arquipélago está isolado, em termos institucionais vai recebendo residências, endereçando convites e firmando parcerias que lhe permitam relacionar-se com o resto do mundo. O mais recente produto dessa política de “relações externas” é a exposição “Tempo Líquido”, com curadoria de Carolina Grau. A ideia da exposição, explica a curadora espanhola, é que “tudo está em movimento”. “Com a mudança do século XX para o XXI, tudo o que estava estático, tornou-se móvel. O que era impossível acontecer, está-se a verificar, as democracias estão a falhar, a União Europeia está a colapsar, tudo o que pensávamos que era constante e duradouro está a revelar-se transitório”.

A metáfora perfeita para esse tempo fluido e deslizante é o vídeo de Peter Fischli & David Weiss, “Der Lauf der Dinge (The Way Things Go)”, de 1987. O filme de meia hora vai mostrando uma espécie de “geringonça” em que uma reação provoca outra e assim sucessivamente, em efeito dominó, sem aparente objetivo, a não ser o colapso da própria obra.

O vídeo pertence à coleção Cal Cego, propriedade de um casal de Barcelona. “É uma coleção muito pequena, mas que traz muito conhecimento”, diz Josep Inglada, o proprietário. “Pensamos que todas as coisas têm de se fazer com paixão e vimos paixão neste lugar. Ficámos admirados com este edifício”, reconhece, “em boa hora foi inaugurado”.

“Enquanto na primeira sala da exposição tudo estava em movimento, aqui, na segunda sala, está tudo mais estático”, esclarece Carolina Grau, apontando para uma obra de Douglas Gordon. O vídeo chama-se Play Dead (Fingir de Morto) e comça por mostrar o olho de um animal. Aos poucos percebemos tratar-se de um paquiderme. “Nunca viste um elefante tão perto, é sempre um animal mítico que vês no Jardim Zoológico”, considera a curadora. “O artista pôs um elefante de circo na galeria Gagosian de Nova Iorque, e há uma voz que lhe vai dizendo ‘Agora finge-se de morto’, ‘Agora levanta-te’. É uma metáfora do artista que faz o seu número de circo na galeria e também uma obra sobre o mito da memória de elefante. É também um paradoxo sobre um animal que representa algo tão forte e ao mesmo tempo está numa posição tão vulnerável”. 

“Tempo Líquido” combina estas obras de artistas mundialmente reconhecidos (além de Fischi & Weiss e Douglas Gordon, há nomes como Bruce Nauman e Doug Aitken) com trabalhos de artistas nacionais que, aos poucos começam a ser reconhecidos internacionalmente, como João Onofre, Nuno Cera ou Rui Toscano. Para ver integralmente as 14 peças expostas, são necessárias “cerca de três horas”, reconhece a curadora, fazendo contas de cabeça.

“Esta exposição tem peças interessantíssimas e que estão expostas de uma maneira que explica a paixão de colecionar vídeo”, nota o colecionador Armando Cabral, proprietário de alguns dos vídeos exibidos em Tempo Líquido. “Uma das razões por que gostamos de vídeo é porque nos obriga a parar, a reduzir o ritmo cardíaco e ver as coisas com tempo, em vez de as vermos de fugida, como costumamos ver as obras de arte. Se repararem, há aqui peças que demoram meia hora a ver, mas devolvem-nos todo o investimento que fazemos nelas”.

 

"Temos uma televisão na sala com vídeos a correr"

Ambos engenheiros, Maria João e Armando Cabral colecionam arte contemporânea há cerca de dez anos. Com uma predileção especial por vídeos e fotografia, têm as obras expostas em casa. O que, explica Maria João, não lhes causa quaisquer constrangimentos, mas obriga a certas intervenções para criar as condições de exposição ideais.

Estas obras em vídeo estão sempre expostas como se fossem quadros ou só as veem de vez em quando?

Temos uma televisão na sala com vídeos a correr. Durante o fim de semana está sempre ligada.

E têm outra para ver o que está a dar nos canais do cabo?

Sim, esta que referi é só para videoarte. Também temos telas para projetar, mas só as descemos quando queremos ver um vídeo específico. Depois preparámos um espaço debaixo de nossa casa que comprámos há pouco tempo, e esse é um espaço estritamente expositivo.

Há artistas que exigem que as suas obras sejam mostradas em condições específicas?

Sim, temos uma parede pintada com um Pantone particular por causa disso, e o vídeo do Cory Arcangel [que retrata um jogo de consola viciado] tem de ser mostrado naquele monitor específico da Sony. Foi dificílimo encontrar. O João Pedro Paiva e o João Maria Gusmão também querem que os seus filmes sejam vistos naqueles projetores de 16 milímetros e finalmente conseguimos arranjar uma máquina para os mostrar da maneira que eles querem. O que tipicamente acontece é aquelas máquinas encontram-se para alugar, mas comprar é muito difícil.

E quem decide como as obras são expostas em vossa casa?

A curadoria costumo ser eu que faço.

Quando vê um vídeo numa galeria imagina que vai ficar bem na sua sala?

Sim, mas agora até estamos a arranjar a casa e aí vamos ter um sítio mais privilegiado para projetar.

Tipo galeria?

Galeria já existe lá em baixo, mas estamos a arranjar um espaço de projeção mesmo em casa.

Também colecionam arte mais convencional, pintura, por exemplo?

Só coisas muito conceptuais. Fotografia sim, instalações… pintura não temos muito.

Começaram logo pelo vídeo?

O vídeo foi das primeiras coisas. A fotografia e o vídeo andaram ali passo a passo. 

Imagino que seja mais fácil começar pela fotografia.

Até porque é mais barato.

O vídeo é muito caro?

Já é. Há vídeos de 20 mil euros, há vídeos de 400 mil [risos]. 

Ficam satisfeitos por saber que as obras estão a valorizar?

Que não é completamente um suicídio? [risos] Claro que ficamos muito satisfeitos com a valorização dos artistas, até porque nalguns casos temos acompanhado os percursos deles.

E ter tantas obras não causa constrangimentos em casa?

Nenhum. Temos um cão, um bóxer, que anda no meio das peças sem qualquer problema. Temos dois filhos adolescentes e a casa está sempre cheia de gente. Nunca tivemos constrangimentos.

Quando comprou a primeira peça já tinha noção de que estava a começar uma coleção?

Nós vivemos uns anos em Londres. Não tínhamos dinheiro para mandar cantar um cego, mas tornámo-nos amigos da Tate [Britain]. Passávamos lá horas infinitas e vimos uma exposição de arte africana que ainda hoje nos marca. Começámos por interessar-nos por arte africana. E fomos comprando livros, livros, livros.

Começaram a coleção pela arte africana?

Comprámos uma ou outra peça mas sem pretensão. Como o Armando trabalha muito em África, foi mais simples começar por arte africana, mas estávamos sempre na dúvida se seria autêntica.