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Mafalda Luís de Castro: 'Matar e torturar animais em praça pública já não é um espetáculo'

Nasceu no último ano da década de 80 e, ainda menina, fez parte do boom da ficção nacional. Filha, sobrinha e neta de jornalistas, Mafalda Luís de Castro dizia em criança que iria seguir essas pisadas - ou seria ginasta. Não seguiu o caminho das acrobacias nem o do jornalismo. Um acaso escolheu-a e acabou por ser uma das personagens principais da novela Olhos de Água, um sucesso televisivo em 2001. Dezasseis anos depois continua a trilhar, com cautela, os passos da representação. Há dois anos, adotou um estilo orientado para o bem do planeta - não come animais nem os seus derivados [é vegana, portanto] e tornou-se ativista da causa animal e ambiental. Se houvesse um referendo, Mafalda diz não ter dúvidas de que já não haveria touradas. Uma conversa à sombra da Bela Vista sobre o lado mais desconhecido da atriz que dá voz a Hermione na saga Harry Potter.

Foi ao casting da novela Olhos de Água como acompanhante da sua irmã, quatro anos mais velha, e acabou por ser escolhida. Como é que isso aconteceu?

Na altura foi um bocadinho triste para ela. A minha irmã teve o sonho de ser atriz desde muito pequenina, era uma coisa que estava dentro dela. Eu também dizia que queria ser mas era por imitação. A minha mãe levava-nos os castings, lá havia de perceber que tínhamos algum jeito para a coisa. E houve um dia em que levou a Joana a esse casting e fui só acompanhar. Chegámos lá, perguntaram-me se eu também queria fazer e pronto, fiquei.

Não houve problemas em casa?

Não, não houve rivalidade de irmãs. Obviamente que a minha irmã ficou triste, ainda por cima para uma criança é sempre complicado. E ela queria muito, desde sempre.

Tinham quantos anos?

Eu devia ter uns dez e a Joana 14. O papel era o de Margarida, que era a filha da protagonista Sofia Alves.

Quanto tempo duraram essas gravações?

Quase um ano, foi uma novela muito longa porque estava a correr bem, tinha muitas audiências. Essa altura correspondeu mais ou menos ao início da ficção nacional e ainda não havia as leis de trabalho infantil. Foi um ano complicado na minha vida, em que ganhei e perdi. A minha mãe não estava contente com o meu sucesso nas aulas, que era pouco, então pediu mesmo à diretora da escola para repetir o sexto ano. Costumo dizer que o que perdi na escola ganhei no trabalho. Conheci pessoas incríveis, cresci e aprendi muito, fiz grandes amigos. Ainda sinto que foi das personagens mais especiais que fiz. Acho que marcou tanto que, hoje em dia, as pessoas mais velhas ainda olham para mim como a Margarida dos Olhos de Água.

Alguma vez sentiu que escolheu demasiado cedo a profissão ou que a profissão a escolheu demasiado cedo? 

Nunca mais duvidei, a partir do momento em que isto aconteceu, de que seria atriz. Nunca mais ponderei sequer outro caminho. A partir do momento em que entrei na novela sempre soube que este seria o meu futuro. Mas na altura fazia ginástica rítmica e tive de deixar e isso ainda não está muito bem resolvido na minha cabeça, há uma mágoa qualquer que ficou cá dentro.

Essa parte da ginástica é a sua memória mais antiga de infância?

A minha memória mais antiga sou eu e os meus primos a andar da escola para a casa da avó e da casa da avó para a escola. Se tivesse que escolher uma imagem, seria essa. 

Sabe que a tendência da maioria das pessoas é nunca se lembrar à primeira de uma imagem. Nem hesitou.

(ri-se) No outro dia perguntaram-me isso. E eu não soube responder. Não contente com a minha não resposta, fui para casa pensar e lembrei-me. É uma imagem que tem muito a ver com Campo de Ourique, com os almoços em casa da nossa avó. Eu e os meus primos estudávamos todos no mesmo colégio. Isso era muito engraçado e fortaleceu muito a nossa relação, somos uma espécie de irmãos. Os mais velhos cuidavam dos mais novos no caminho. 

Iam almoçar todos dos dias a casa da vossa avó? Que bom.

Todos! Lembro-me de que os nossos colegas ficavam na escola porque comiam na cantina ou levavam almoço e eu até tinha inveja. Hoje em dia olho para trás e sei que fui uma privilegiada. 

Depois dessa novela, que foi um sucesso no país, passou a ser muito reconhecida na rua. Como é que lidou com isso?

Muito mal. Na altura não foi nada fácil até porque foi tudo muito rápido. Como é que se ensina uma criança que vai ter que aceitar as pessoas a chamarem-na a toda a hora, a pedirem fotografias, a ter de ser simpática e responder sempre bem? Não reagi realmente bem a isso. A minha mãe foi muito importante nessa altura, o meu pai também. Explicaram-me que era o preço a pagar e o meu crescimento enquanto pessoa foi muito importante para isso. Hoje já aceito essa exposição um bocadinho melhor.

Ainda assim nunca se sentiu confortável com esse mediatismo.

De todo. E não o escondo. Adoro que as pessoas gostem do meu trabalho mas não escondo que todos nós temos os nossos dias e nem sempre nos apetece falar a toda a gente na rua. Também tenho escolhido bem os meus trabalhos e esse impacto não tem sido tão grande como antes.

Quando escolhe os trabalhos tem isso em mente?

Não é por causa do reconhecimento mediático, de todo. Tem a ver com a minha forma de estar na vida, simplesmente. Se tiver oportunidade de fazer de vez em quando, excelente. É um trabalho muito violento que exige muito de nós, física e emocionalmente. Mesmo que não seja protagonista, é muito desgastante. Portanto são opções que têm a ver com o tipo de pessoa que somos. Se somos fortes ao ponto de aguentar novela atrás de novela ou se preferimos ter mais independência e tempo livre para estar com as pessoas de quem gostamos e um bocadinho de menos dinheiro. É uma escolha. E eu enquanto puder optar e tiver essa liberdade farei como entender. 

Já recusou muitos papéis em novelas?

Um ou dois. Não quero parecer arrogante mas houve uma altura em que não estava muito para aí virada, sentia-me bem como estava. Mas não eram papéis de protagonista. 

Nunca teve medo que isso fizesse com que se esquecessem de si como atriz?

Sim, tive e tenho. Costumam dizer que ‘quem não aparece esquece’ e acho que isso é verdade. Acho que realmente estou sempre a arriscar um bocadinho e a jogar com a sorte, mas pronto, sou assim. As pessoas criticam sempre um pouco, a minha família claro que fica preocupada. Mas enquanto eu sentir que tenho coragem para o fazer, vou fazendo.

Sente que há um certo descrédito em relação aos atores que vão da televisão para o teatro e que o contrário já não acontece?

Por acaso não sinto. Fiz uma paragem nas novelas para estudar teatro quando tinha 17 anos. Fui estudar para a Escola Profissional de Teatro de Cascais. E foram três anos em que estive só a estudar. Logo a seguir a isso fiz umas peças e sinto que tenho os meus contactos do teatro. Portanto, tenho o mundo das novelas e o do teatro. Nunca senti essa opinião em relação a mim.

Pelo que soube de si, chega sempre com os textos bem estudados. Irrita-a quando há colegas que chegam sem o trabalho feito?

Muito! 

É uma realidade comum nos sets?

(silêncio seguido de riso) É. Não digo que chega a metade, mas há uma minoria que não prepara bem os textos e isso para quem os prepara bem é chato. 

Este amor pelos animais nasceu quando?

Não nasceu há muitos anos, infelizmente. Há cerca de cinco anos estava a fazer uma novela, a Sedução, do Rui Vilhena, que escreve textos muito fixes. Uma das pessoas da equipa da caracterização era e é a presidente da associação que eu apoio, que é a Chão dos Bichos, em Loures. Iniciámos uma amizade muito forte e aprendi muito com ela. Desde aí comecei a ligar-me muito mais a esta causa e a conhecer muitos mais ativistas.

Já tinha animais nessa altura?

Sim, também foi um bocadinho por causa disso. Já tinha os meus cães e os meus gatos e estreitei a relação com ela. Fui-me interessando cada vez mais pela causa da defesa dos direitos dos animais, fui adotando os que pude. 

Quando diz que começou a tornar-se ativista isso implica o quê?

Comecei a ir a manifestações contra as touradas, contra maus tratos de animais. Acho que posso que dizer que me tornei numa ativista. E deixei de comer animais.

Quando é que se tornou vegetariana?

Há três anos. Mas há dois tornei-me vegan. A palavra em português é vegana.

O que é que isso implica? 

Uma pessoa vegana não come animais, nem carne nem peixe, nem os seus derivados. Ou seja, é uma alimentação que exclui leite, manteiga, ovos, iogurte, mel. Por exemplo, como mel de cana em vez de mel das abelhas. Para descomplicar, um vegano é 100% vegetariano.

Por que segue este regime?

Primeiro e antes de tudo, por causa deles [animais] e por questões éticas. Não me considero acima de nenhum animal e acho que consigo viver perfeitamente bem sem consumi-los. E depois disso tudo por que é muito mais saudável. Obviamente que fiz o meu trabalho de casa. Pesquisei muito, comprei livros e livros. Em termos físicos sinto-me realmente muito saudável. E mentalmente também. Depois uma coisa leva a outra e também tomei esta opção por questões ambientais.

Quanto às roupas os veganos também têm alguns cuidados, certo?

Sim. Não uso peles. Mas é muito simples, é só ter atenção às etiquetas. Ser vegan é uma forma de estar na vida, não se baseia só na alimentação. Por exemplo, um vegan não vai a espetáculos com animais, nem a jardins zoológicos ou aquários. 

É fácil para um vegano ir jantar fora em Lisboa?

É, muito. No início não era tão fácil mas agora já tenho as minhas manhas (ri-se). Por exemplo, se for jantar ou almoçar com o meu pai já sei que hei de ir a um restaurante mais tradicional português. Mas por mim está tudo ok. Sou uma gulosa e se me deram sopa, que adoro, um bom arroz de feijão e os legumes do dia, está feito. As guarnições dos pratos portugueses chegam para mim, fico ótima. E logo aí, qualquer pessoa que queira comer vegan pode ir a qualquer sítio. Depois já tenho um leque de restaurantes vegetarianos e veganos onde costumo ir. E em Lisboa, principalmente o vegetarianismo, está a florescer. 

Já ouviu críticas a esta sua opção?

Claro que sim! A mais recorrente é: ‘Onde é que está a proteína’. Ou que a função dos animais é mesmo a de serem comidos, que é a lei da vida. Também ouço muitas vezes que estamos no topo da cadeia alimentar. Estou preparada para responder a isso. Claro que tenho que respirar fundo antes por que não quero entrar numa discussão acesa. 

Já aconteceu ter esse tipo de discussão mais violenta?

Sim, no início. Era muito imatura e ficava mesmo chateada com as provocações. Agora já acho que nunca me devo incomodar com a opinião dos outros e que o meu dever é apenas partilhar a minha forma de estar. Se alguém conseguir levar daí coisas boas, se eu conseguir plantar uma sementinha nessas pessoas e consequentemente neste planeta, ótimo. 

Tenta comer também só produtos da época?

Sim e biológicos. Também estou envolvida noutras causas ambientais. Agora vou apoiar uma causa que se chama Linha Vermelha, da pegada ecológica. Houve um grupo que teve a ideia de tecer uma linha em croché e, quanto maior for a linha, maior será o apoio. Estou e estarei sempre ligada a estas causas através da minha vida no dia a dia.

Há duas semanas uma criança foi atacada por um rottweiler. Como ativista, como é que vê esse tipo de notícias?

O ponto da questão é que deveria haver fiscalização, há que começar na prevenção e não nos finais que se dão aos problemas. É preciso fiscalizar as pessoas que querem ter esse tipo de animais, não percebo por que é que as pessoas insistem em ter raças consideradas perigosas. Obviamente que cada tutor dá a educação que quer ao seu animal e isso infelizmente pode ser bom ou mau. Os cães são, sem dúvida, o reflexo dos seus detentores. Em Portugal devia haver mais fiscalização e penalizações para as pessoas que não cumprem regras relativas a esse tipo de cães. Também acho que as pessoas deviam ter mais cuidado com as crianças, que estão sempre mais vulneráveis do que os adultos. Os animais são maravilhosos no crescimento das crianças, mas a relação deve ser sempre controlada. Outra perspetiva: depois também acho que as pessoas deviam adotar mais, ir aos canis e instituições em vez de comprá-los. Para quê preferir um focinho assim ou...

Está a falar das raças que foram tão manipuladas para ficar com certas características que depois os animais têm problemas de saúde?

É horrível. Estudei isso por que gastava muito dinheiro a fazer a tosquia dos meus animais. Então fui fazer um curso de estética canina e estudei a teórica da coisa. Vim a descobrir, que não é novidade para muitas pessoas, mas passo aqui a dizer: a raça é feita pelo homem. As combinações entre cão x e y foram sendo feitas até surgir a raça. Numa visão futurista e ambiciosa, penso, para quê existir a raça? Acho que se devia controlar um bocadinho mais as pessoas que fazem criação. 

Como vê o trabalho do deputado do PAN, André Silva?

Acho maravilhoso. Tenho acompanhado o trabalho do PAN e julgo que só tem feito coisas boas para os animais e as pessoas. É um partido que realmente se preocupa com o planeta e só posso apoiar o trabalho deles. Têm acontecido muitas coisas boas desde que o PAN está representado no Parlamento, como a opção vegetariana nos locais públicos. Quando daqui a uns anos for mãe, claro que quero que os meus filhos tenham uma opção vegetariana. No entanto há países europeus que estão mais avançados em algumas matérias.

No ano passado estive em Barcelona e, numa livraria, encontrei várias pessoas acompanhadas pelos seus cães. Acha que Portugal caminha para essa realidade?

Infelizmente, ainda não. Esse é um passo que não está tão perto por que em Portugal as pessoas não são tão civilizadas como noutros países. Viajo várias vezes, felizmente, e vejo o comportamento das pessoas. Lá fora vejo cães no supermercado, nas lojas, nos cafés e sei que isso é possível por que as pessoas sabem estar com os seus animais. Cá ainda há muita gente que, por exemplo, não apanha sequer os dejetos. Uma coisa fundamental também é educar as novas gerações e o PAN também tem essa ideia de fazer esse trabalho de educação e sensibilização nas escolas. Acho que tudo começa por aí.

Acha que as touradas vão acabar nos próximos anos?

Acho.

Está mesmo convicta disso? Por que razão?

Estou muito convicta. As arenas têm estado vazias, já só vendem bilhetes e enchem casas as corridas mais conhecidas ligadas a meios de comunicação, até dos que fazem serviço público e não deviam fazê-lo. Esse é um dos fatores. O outro é o facto de estar a ser feito um grande trabalho por parte das pessoas que estão à frente dos ativistas que lutam contra as touradas. Cada vez mais o povo está sensibilizado para isso. Matar e torturar animais em praça pública já não é um espetáculo. Se houvesse um referendo a tourada acabava. Só que ainda há um grande lobby. 

Já teve alguma situação incómoda com a imprensa?

A coisa mais chata que me aconteceu foi terem-me apanhado numa fotografia sem a parte de cima do biquíni. Fiquei realmente triste.

Como é que se lida com isso?

Muito mal. Na altura fiquei mesmo magoada até por que sou tão despreocupada e descontraída que achava que não tinha ninguém [paparazzi] atrás de mim. Só que nessa vez estava na praia com os meus amigos do teatro e, depois vim a perceber, nesse sítio costumavam estar paparazzi e apanharam-me. Depois de feito não podia fazer nada contra isso, foi andar para a frente e tentar esquecer-me. Mas que não foi fácil, não foi.

Qual é o significado das tatuagens que tem no antebraço? [Num dos braços, tem tatuada a palavra Animal e, no outro, Liberation]

É uma frase, Animal Liberation, conhecida no mundo do ativismo que significa aquilo que quer dizer: a libertação animal. A libertação até eles serem livres como nós, que é aquilo defendo. No meu entender as vacas ou os porcos ou galinhas não estão cá para nos servirem de alimentação, nem de entretenimento, nem para testes de cosmética que são horrorosos. Nós basicamente usamos os animais e acho que devemos é conviver com eles. Os animais têm tanto direito à vida como nós.

Já participou em alguma manifestação internacional?

Não, já participei em campanhas. Adorava que as nossas manifestações cá tivessem afluência como lá fora. Infelizmente temos muitos ativistas de Facebook mas quando é hora de ir para a rua eles não estão lá, nunca os vejo. Deve ter havido um número maior de gente a ir à manifestação dos direitos do animal, que foi no mês passado, do que no ano anterior, mas não tanto quanto se pretendia. As pessoas têm que perceber que no sofá não se travam lutas. 

Entretanto, para além do ativismo e da carreira, também fez um curso de cake design?

Não, de pastelaria, há cerca de cinco anos. Gosto muito de fazer outras coisas. Sempre gostei de cozinhar, na altura estava mais virada para doces. Também fiz outro curso, de higiene e segurança alimentar. E ainda bem que fiz por que gostava muito de ter um restaurante.

É um plano a realizar a curto prazo?

Por mim seria para já. Mas sou muito mais de estar na cozinha e de tratar do conceito, falta-me encontrar a pessoa ideal para tratar do negócio. Se essa pessoa estiver a ler-me que se acuse (ri-se). Podemos iniciar um projeto visionário e cheio de amor.

Fez e faz muitas dobragens. Qual foi papel mais conhecido que dobrou?

O de Hermione [da saga Harry Potter]. Agora estou a dobrar a Barbie, que é a Jennifer Lawrence que faz no original, o que me deixa muito contente. 

E no teatro?

Estive agora dois meses em cena com a peça Vanya e Sonia e Masha e Spyke no teatro Armando Cortez. É uma comédia muito engraçada e o que mais gosto nessa peça é o facto de ser baseada no universo de Tchekhov, que é um dos meus autores preferidos e, acho, que da maioria das pessoas que gosta de teatro. Agora estamos em tournée, não sei até quando.