Internacional

EUA. Caça ao bruxo

Justiça entrega investigação às ligações entre a campajnha de Trump e o Kremlin a um conselheiro especial: Robert Mueller, antigo diretor do FBIe antecessor de Comey, demitido há uma semana.

EUA. Caça ao bruxo

Donald Trump retaliou logo ao acordar. Um pouco antes das 8h da manhã locais desta quinta-feira, o presidente foi ao Twitter escrever que a convocatória de um conselheiro especial para a investigação aos possíveis laços da sua campanha com o governo russo não passa de mais uma prova de que todo o processo é “simplesmente a maior caça às bruxas na História da América”. E acrescentou:_“Apesar de todos os atos ilegais cometidos pela campanha de Clinton e administração de Obama, nunca ninguém convocou um conselheiro especial”, lançou na rede social, com um erro ortográfico que corrigiu mais tarde.

Trump respondia nas redes à grande notícia da noite de quarta-feira. O_Ministério da Justiça convocou pela segunda vez na História um conselheiro especial para supervisionar a investigação às alegadas ligações russas da equipa do novo presidente e garantir que o processo se mantém independente. A decisão foi tomada pelo procurador-geral-adjunto como resposta ao amontoar de indícios sugerindo que Donald Trump e o seu governo podem estar a tentar obstruir a investigação, numa primeira instância com a demissão de James Comey, na semana passada, e, terça-feira, com a notícia de que o líder americano lhe pedira numa conversa em privado que “deixasse passar” a investigação ao seu conselheiro para a Segurança Nacional, Michael Flynn.

“Com base em circunstâncias únicas, o interesse público exige de mim que coloque esta investigação sob a autoridade de alguém capaz de exercer um grau de independência superior ao da cadeia normal de comando”, escreveu Rod Rosenstein na quarta-feira, convocando o estatuto de conselheiro especial e nomeando para o cargo Robert Mueller, antigo diretor do FBI, antecessor do demitido James Comey e um nome altamente respeitado em Washington. Ao entregar a investigação a um conselheiro especial, Rosenstein parece acabar com as suspeitas sobre a independência da investigação e aceitar os apelos de congressistas democratas e meios críticos a Trump que passaram os últimos dias a pedir um painel independente ou um procurador especial a quem fosse atribuído o caso.

O_cargo de conselheiro especial é semelhante. Mueller tem ainda que responder a Rosenstein – que é procurador-geral-adjunto, mas, visto que o procurador-geral Jeff Sessions se teve de escusar da investigação devido aos seus próprios laços russos, é a voz de maior autoridade da Justiça neste caso –, o que quer dizer que, em termos práticos, o conselheiro especial tem também de responder ao presidente. Mas Mueller terá mais margem de manobra para determinar o rumo da investigação do que um procurador normal: pode decidir se informa ou não o Ministério da Justiça do andar da investigação, pode analisar “quaisquer laços ou coordenações entre o governo russo e indivíduos associados à campanha do presidente Donald Trump” e para além disso pode fazer acusações criminais e pedir mais recursos para a investigação – algo que Comey pediu dias antes de ser demitido, de acordo com o “New York Times”.

Novas crises Os investigadores americanos ainda não encontraram provas de que a campanha de Donald Trump esteve em conluio com agentes russos responsáveis pelas interferências do Kremlin nas eleições, que alegadamente aconteceram sob a forma de ataques informáticos a estruturas democratas e campanhas de informação, por exemplo. O grosso da crise parece para já centrada em Michael Flynn, o antigo conselheiro para a Segurança Nacional, demitido por ter ocultado conversas com o embaixador russo nos Estados Unidos depois das eleições e que, segundo revelava esta quinta-feira a publicação “McClatchy”, nos seus primeiros dias de governo travou uma operação militar na Síria que desagradava ao governo turco – que lhe pagou 500 mil dólares em segredo, um dado que então era desconhecido da sua própria administração.

A crise atual no governo de Trump parece ser sobretudo autoinfligida, pelas tentativas de travar investigações ou, como revelava esta quinta o “New York Times”, ao ignorar os avisos do próprio Flynn, que terá avisado o governo de que estava sob investigação por ligações ao Kremlin antes de tomar posse.  

Os comentários estão desactivados.