Internacional

Michel Temer: “Se quiserem derrubem-me [eu não me vou demitir]”

Em entrevista à “Folha de São Paulo”, o ainda presidente brasileiro nega o seu envolvimento em casos de corrupção e garante que não vai sair

Até agora, Michel Temer tem sido poupado às investigações de corrupção do caso Lava Jato. Não é porque não haja suspeitas sobre ele: Temer consta em várias “delações premiadas”, nomeadamente ligadas às empresas Petrobras e Odebrecht, mas a justiça brasileira tem sempre recusado investigar estas alegações. Um dos casos mais conhecidos envolve até o juiz federal de Curitiba Sérgio Moro, que recusou 21 perguntas da defesa de Eduardo Cunha sobre o envolvimento de Michel Temer. 

O antigo presidente do parlamento Eduardo Cunha, juntamente com Aécio Neves e Michel Temer, foram os principais obreiros do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Quando foi detido, Eduardo Cunha ameaçou repetidamente abrir a boca e “enterrar” a República brasileira. 

De alguma forma, o que prometeu, cumpriu. Michel Temer está a ser investigado, por pelo menos três crimes, pelo Supremo Tribunal Federal: corrupção passiva, obstrução à justiça e organização criminosa. Tudo devido a alegadas luvas, pagas em seu nome por empresários, para garantir o silêncio de Eduardo Cunha. 

A denúncia de dois administradores da JBS, maior empresa de carnes do mundo, os irmãos Joesley e Wesley Batista, envolve o presidente Michel Temer numa manobra para comprar o silêncio do ex-presidente do parlamento Eduardo Cunha, preso desde outubro. A acusação ao presidente é acompanhada de gravações que envolvem, para além de Temer, o presidente do PSDB, um dos maiores aliados de Temer, o senador, agora suspenso, Aécio Neves. 

Temer confirmou ter-se encontrado com Joesley Batista, no Planalto, mas negou ter aprovado a compra, por milhões, de Eduardo Cunha. Grande obreiro do impeachment de Dilma Rousseff e próximo de presidente no PMDB, Cunha está preso desde outubro passado em Curitiba.

O presidente considerou que a gravação em que “ordenava” que fosse pago dinheiro a Cunha tinha sido adulterada para ele parecer dizer o que não disse. No entanto, o juiz do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin considerou que a gravação onde se ouve Michel Temer a autorizar um suborno é legal. E as diversas avaliações técnicas confirmaram a credibilidade da gravação: é “audível, inteligível e apresenta uma sequência lógica e coerente, com características iniciais de confiabilidade”, lê-se numa nota da Procuradoria--Geral da República brasileira.

Mesmo a “Folha de São Paulo”, que afirma que há edição em partes da gravação, nota que a parte mais polémica, em que alegadamente Temer autoriza o empresário Joesley Batista a comprar o silêncio de Eduardo Cunha, não terá sido editada.

Temer veio então confirmar, em entrevista à “Folha de São Paulo”, que recebeu o empresário Joesley Batista em março, na sua residência, sem ter registado oficialmente essa reunião, e numa altura em que o empresário da JBS já estava envolvido em três processos judiciais. Mas nega ter indicado ao empresário que pagasse a Eduardo Cunha; e diz que o seu assessor Rodrigo Rocha, apanhado com uma mala de 500 mil reais, recebida da JBS e alegadamente para pagar a Cunha, tinha feito um ato que “não pode ser aprovado”, mas que “é de boa índole, muito boa índole”. 

Michel Temer está confiante em que conseguirá impedir os 11 processos de impeachment que entraram contra ele. Para andar, qualquer desses processos necessita de uma maioria de dois terços no parlamento, em que, até agora, o presidente tinha o apoio de 80% dos parlamentares. 

Em entrevista à edição brasileira do “El País”, o antigo ministro da Educação do PT Tarso Genro afirma que Temer está em maus lençóis. Não só pelo caso, mas porque perdeu a sua base mediática de apoio, expressa na tomada de posição editorial da Globo contra ele. “A Globo, que foi o ‘partido político’ que deu sustentação para o impeachment de Dilma Rousseff, acabou de publicar um editorial retirando seu apoio. Portanto, o apoio principal do Temer, que é o oligopólio da mídia, está se retirando. Com isso, ele perde mais da metade da base dele”, diz Tarso Genro.