Economia

Brexit abala o futuro europeu

O Brexit vai alterar o funcionamento eonómico da União Europeia. O acordo que sair das negociações que começam depois das eleições britânicas marcará o futuro europeu.

As eleições gerais britânicas são na quinta-feira. Onze dias depois começam as negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia (UE).

O Brexit será negociado de forma diferente, em função do resultado do escrutínio. Mas qualquer que seja a forma, o andamento e o resultado das negociações para a saída britânica, esta terá um impacto profundo no futuro da economia europeia.

«Na Europa estas coisas são negociadas, negociadas com muita tecnocracia. Os ingleses vão ter que o fazer. Sou incapaz de dar uma visão concreta do que é que o Brexit vai representar. Acho que obviamente será muito mais prejudicial para o Reino Unido do que será para a Europa. Disso não tenho a menor dúvida», começa por afirmar Daniel Traça.

Para o reitor da Nova School of Business and Economics (Nova SBE), do ponto de vista do continente há duas dificuldades. «A primeira é que o Reino Unido é um membro fundamental da UE que dá à UE uma projeção global que é relevante e vamos perdê-la».

A outra «tem a ver com a projeção global e com o facto de o Reino Unido ser um dos grandes contribuintes líquidos para o orçamento europeu».

Segundo Daniel Traça, que falou ao SOL durante as Estoril Conferences, «um dos problemas que se vai pôr, nomeadamente a Portugal,. é que o orçamento europeu vai reduzir-se e a perda da contribuição britânica, mesmo com todos os rebates, vai fazer-se sentir nos pacotes financeiros que vão ser distribuídos. Isto vai ter um impacto no funcionamento da Europa».

A opinião é partilhada por Lodewijk Willems, que no mesmo evento que decorreu esta semana em Cascais, considerou que «o Brexit terá consequências problemáticas para o Reino Unido mas também vai afetar de foram muita séria a União Europeia a 27».

 

Isolamento traz dificuldades

Com o Brexit, prevê o antigo embaixador belga no Reino Unido, UE e Alemanha, «há um enorme risco para o Reino Unido», uma vez que  «em 2030, em termos demográficos, a Europa terá 5% da população mundial e haverá uma enorme concorrência indiana, chinesa, do sudeste asiático, de África a crescer.  Nestas circunstâncias, um Reino Unido isolado terá muitas dificuldades».

O também antigo consultor bancário considera que este é um perigo «visível» e que o Reino Unido terá de «fazer um acordo razoável, terá de fazer concessões» e que quem liderar o governo «vai precisar de muita stamina para fazer essas concessões, uma vez que na campanha do Brexit houve muitas mentiras, muita desinformação, foram feitas várias falsas promessas, ditas muitas inverdades sobre aquilo que é a Europa».

 Já Nigel Farage espera que das negociações resulte «um acordo comercial razoável». Se não for alcançado, aquele que foi um dos principais rostos da campanha do Brexit argumenta que «nenhum acordo é melhor que um mau acordo».

 

Negociações difíceis

Quando o líder do governo britânico «chegar à sala», prevê Farage, vai «entrar em negociações muito difíceis». O político britânico, que também participou nas Estoril Conferences, considera os ingleses «pessoas pragmáticas e razoáveis. Que o Brexit vai acontecer, é uma realidade. Como vai acontecer é que ainda temos de descobrir», diz Nigel Farage.

É este pragmatismo e razoabilidade que na perspetiva de Lodewijk Willems, cuja mulher e os dois filhos são britânicos, poderão levar a um acordo que seja mais mais razoável.

 «Durante 40 anos o Reino Unido esteve com um pé dentro e com um pé fora da União Europeia. Depois do Brexit esperamos que esteja com um pé fora e um pé dentro. Este é o resultado que queremos e esperamos se pessoas sensatas tentarem ser sensatas», resume o diplomata, que considera haver pessoas deste calibre em ambos os lados das negociações.

«Conheço muitos diplomatas britânicos de topo que respeito muito, que durante 40 anos fizeram um trabalho notável a defender os interesses britânicos na Europa», conta o antigo embaixador, para quem a diplomacia britânica «foi sempre brilhante a negociar opt-outs, exceções, e funcionou.

Por isso, acrescenta, o que «temos de esperar é que este Brexit e que o novo tratado que se terá de assinar vai de facto assegurar que economicamente nos mantém muito próximos».

 

Subsídios europeus

O antigo consultor bancário do BNP Paribas lembra que vai ser muito difícil para o governo inglês ultrapassar o facto de «os maiores subsídios europeus à agricultura serem para Gales, Irlanda do Norte e Escócia» e para as dificuldades que terá em «negociar novos acordos de comércio livre com países terceiros que preferem sempre um acesso ao mercado único, que é uma ideia britânica».

Lodewijk Willems diz que os «primeiros sinais do Brexit já estão aí». O preço a comida, que o Reino Unido «importa em quantidades massivas, está a subir e os bancos estão, sem fazer muito barulho, a sair para algumas atividades».

Também Daniel Traça lembra que o «Reino Unido apostou muito numa lógica de ser um grande hub global, Londres é uma das grandes cidades globais» e que com a saída da União Europeia «não se vê que essa estratégia vai ter continuidade».

O professor de Economia considera que há ainda uma outra dimensão na questão do Brexit. «A Europa está à procura das suas próprias soluções, precisa de muito diálogo e distrair-se com a situação britânica pode atrasar ainda mais a procura de soluções para a Europa».

 

Catalisador

O reitor da Nova SBE considera que «nos últimos anos temos sentido na Europa esta dificuldade de se catalisar com as dificuldades» que enfrenta e que estas geram «falta de otimismo e essa falta de otimismo gera falta de vontade».

Na perspetiva de Daniel Traça, enquanto o Brexit «não se resolver vai criar dificuldades a que a Europa resolva rapidamente os seus problemas de funcionamento» e «até chegarmos ao fim do processo vai ser muito complicado». Mas «pode servir de catalisador depois de estar resolvido» para o o futuro do projeto projeto europeu.

 

Impacto em Portugal

«A dificuldade de a Europa encontrar o seu caminho teve, tem tido e continuará a ter um impacto no nosso país», lembra o economista, que aponta a mudança do modelo económico de Portugal – para exportações globais – como forma de responder a alguns um desses impactos.

«Obviamente que não vai ser fácil chegar a uma solução compacta e clara mas ao mesmo tempo vai dar espaço para Portugal continuar a trilhar o seu caminho no meio desta situação complexa», acrescenta.

Já Lodewijk Willems considera que «na altura em que o Reino Unido sair, o comboio europeu vai aumentar de velocidade» e que é «do interesse da Bélgica, de Portugal e de todo o continente ter-se a certeza que mantemos o Reino Unido, através de algumas pontes, a bordo do projeto europeu».