Economia

Força do Qatar está nos países a oriente

Corte de relações e ligações com os vizinhos deixa Doha em dificuldades. Mas bloquear exportação de gás natural é difícil. China, Índia, Japão e Coreia do Sul são os principais clientes.  

A crise diplomática entre o Qatar e os seus vizinhos árabes  – corte das ligações terrestres, aéreas e de transporte da Arábia Saudita, Egito, Emiratos Árabes Unidos (EAU) e Bahrein – poderá custar milhares de milhões de dólares  numa diminuição do comércio e do investimento.

No entanto, qualquer tentativa para bloquear as exportações qataris de gás natural liquefeito (GNL) poderá levar os grandes consumidores a responderem de forma assertiva.

O Qatar é um dos produtores de petróleo mais pequenos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) – 618 mil barris de petróleo por dia (bpd) –, mas o gás natural liquefeito acrescenta outros 1,3 millhões de barris por dia.

Mesmo que abandone o acordo da OPEP para o corte de produção de petróleo, não se notará muito. O verdadeiro poder do Qatar está em ser o maior exportador mundial de GNL.

A recente expansão dos portos permite ao pequeno país de 2,7 milhões de habitantes continuar a exportação de GNL. Esta exportação permitiu um superávit comercial de 2700 milhões de dólares em abril e a melhoria dos portos permite importar os bens que o encerramento da fronteira terrestre com a Arábia Saudita, a única do país, impede.

As exportações de gás natural e de petróleo não deverão ser afetadas, mesmo que as águas da Arábia Saudita e dos EAU estejam interditas aos navios qataris.

Estes poderão navegar através das águas iranianas e passar o Estreito de Ormuz através do habitual canal de navegação no território de Omã ou ficar no setor iraniano caso Omã se junte ao corte de relações.

 

Retaliação

Qualquer bloqueio às exportações de gás natural do Qatar despoletaria uma crise imensa e convidaria a uma retaliação dos principais clientes de GNL – o Japão, Coreia do Sul, China e Índia.

A Qatargas já assegurou à principal importadora japonesa, a Jera Coque, que os fornecimentos não serão interrompidos. E, por agora, o Qatar continua a ter acesso ao Canal do Suez, a rota dos seus carregamentos de GNL para a Europa. Mas os navios em trânsito de e para o Qatar não podem aportar em Fujairah, EAU, o maior porto de abastecimento da região.

Quando o Japão precisou de fonte de energia de substituição a seguir ao acidente nuclear de Fukoshima, a Qatargas apareceu.

No entanto, este incidente poderá reavivar a memória de Tóquio dos anos 1970 e da excessiva dependência dos exportadores de gás e petróleo do Médio Oriente. A mesma lógica aplica-se à China, que tem estado empenhada nos últimos anos em diversificar as fontes energéticas.

Partilhando o Campo do Norte, o maior campo mundial de gás natural, com o Irão e com instalações vulneráveis até à fronteira iraniana, Doha não tem grandes alternativas a uma manutenção de relações razoáveis com o Irão.

 

Alimentação

É precisamente nestes dois países que também poderá estar a resolução de um dos outros temas mais sensíveis desta crise: a segurança alimentar. No caso do Qatar, 40% dos alimentos consumidos chegam por terra. Sem a possibilidade de usar as fronteiras terrestres, o país vai depender do ar e do mar, o que pode comprometer o custo do transporte e pressionar os preços de alimentos.

A Arábia Saudita e os EAU forneceram 309 milhões de dólares dos 1050 milhões de dólares de importações de comida do Qatar em 2015. A maioria, principalmente os laticínios, passa pela fronteira terrestre da Arábia Saudita.

Doha terá de encontrar alternativas e já está em conversações com o Irão e a Turquia para assegurar a compra de bens alimentares e de água e evitar que haja falta de comida no país.

«Estamos em conversações com a Turquia e o Irão e com outros países», disse à agência Reuters a meio da semana um responsável governamental do Qatar que falou sob anonimato.

De acordo com este governante qatari, os bens alimentares e as reservas de água seriam transportados por via aérea, através da frota de carga da Qatar Airways.

No país há reservas de cereais para quatro semanas e o governo tem reservas estratégicas de alimentos consideráveis na capital do país.

 

Aviação

O corte de relações é total e os países sunitas nem sequer permitem que os aviões da Qatar Airways, uma das principais companhias áreas do mundo, utilizem o seu espaço aéreo. A companhia, que está no centro da tentativa do Qatar se tornar num hub turístico, deverá sofrer com a interdição de voar para alguns dos principais aeroportos do Médio Oriente.

Muitos aeroportos da região do Golfo funcionam como centros de voos de longa distância (hubs, em inglês). O Hamad, principal aeroporto do Qatar, transportou quase dez milhões (9,8) de passageiros no primeiro trimestre.

A interdição do espaço aéreo dos países vizinhos significa que os voos da Qatar Airways têm de fazer desvios significativos caso voem para África ou para a Europa, por exemplo. Em termos operacionais, é difícil para a companhia, que consome mais combustível e arrisca-se a perder os slots nos aeroportos que utiliza.

A companhia cancelou os 55 voos diários que fazia para os países com quem agora está de relações cortadas, e os cidadãos do Qatar não podem sequer utilizar os aeroportos do Dubai ou de Abu Dhabi, onde estão baseadas a Emirates e a Etihad, para fazerem escala e apanharem outros voos. O Governo de Doha tem estado a pedir dinheiro emprestado para financiar os 200 mil milhões de dólares necessários para a construção de infraestruturas para o Campeonato do Mundo de Futebol de 2022.

 

Construção

Por causa do torneio, estão em curso muitos investimentos estrangeiros no país, especialmente no setor de construção. Segundo a BBC, um novo porto, um metropolitano, um centro médico e oito estádios são alguns dos exemplos de obras atuais.

Os custos de construção também poderão aumentar, impulsionando a inflação, uma vez que o alumínio e outros materiais de construção ficarão mais caros uma vez que já não poderão ser importados por terra.