Politica

Elísio Summavielle: ‘Há uma overdose de turistas e Lisboa parece Bombaim’

Às vezes senta-se na esplanada d’A Brasileira e pergunta, por brincadeira, se «ainda servem portugueses». O presidente do Centro Cultural de Belém afirma que a cidade tem que se estender para a sua zona porque «o centro Baixa-Chiado já esgotou» e «já é raro encontrar portugueses na rua». Elísio Summavielle, 60 anos, acha que o Porto está mais a tempo de travar a overdose do que Lisboa. É impossível estar com Elísio Summavielle sem falar da sua paixão pelas touradas. É maçon, assume e não percebe os que o não fazem. Mas não votou.

Em homenagem ao Batista-Bastos, que morreu recentemente...

O meu querido BB!

Vamos começar a entrevista com a pergunta: «Onde estava no 25 de Abril»?

Estava em casa. Foi o meu pai que me acordou a dizer que havia qualquer coisa, que lhe tinham telefonado. E disse-me: ‘Vou-te levar ao Colégio’. Eu andava no Colégio Moderno. Saímos de casa a um quarto para as oito, chegámos ao Colégio e não havia aulas. Havia uma revolução. Depois fui com o meu pai pelas avenidas abaixo, deixámos o carro nos Restauradores e fomos para o ‘cenário’, para a Baixa.

Tinha na altura 16 anos...

17. 17 anos. Assistimos a tudo, estivemos no Largo do Carmo. Foi um dia fantástico... Uma madrugada clara e limpa, como escreveu a Sophia. Ao princípio havia dúvidas se era um golpe de extrema-direita, se era de extrema-esquerda. Depois não tivemos dúvidas nenhumas quando vimos os militares a saírem do Terreiro do Paço a fazerem o V [de vitória, já utilizado pelos Aliados quando venceram a II Guerra Mundial] ficámos a saber que era o movimento que tinha borregado no 16 de março... Ficámos no Largo do Carmo à espera do desfecho, no meio daquela multidão toda. Eu trepei para uma árvore, para o chafariz. Lembro-me de ver lá o João Soares muito próximo, o Francisco Sousa Tavares em cima do chaimite a dizer às pessoas para terem calma, que o regime ia cair. Foi um dia inesquecível e é um privilégio ter apanhado isso com 17 anos. Faço de uma geração realmente única, para o mal e para o bem [risos].

E agora diga-me onde é que estava quando o Centro Cultural de Belém começou a ser construído? Lembro-me na altura de uma grande maioria da esquerda que desancava neste projeto.

Eu estava no antigo Instituto Português do Património Cultural, IPPC. Era nessa altura presidente do IPPC, o Prof. Lamas [que Elísio Summaviele foi substituir na presidência do CCB em 2016]. Foi nesse tempo que arrancou o projeto e se fez o concurso público internacional de arquitetura, com base num plano de salvaguarda Belém-Ajuda. Eu era o historiador de serviço e no caderno de encargos do concurso público internacional a memória descritiva do lugar foi feita com a minha colaboração. Acompanhei o concurso, vi as diversas propostas e acho que a proposta vencedora – esta onde estamos a viver, do Vitorio Gregotti, é um monumento fantástico. Portanto, nunca fiz parte da turma dos velhos do Restelo.

Mas lembra-se que eram muitos?

Lembro-me perfeitamente. Eu dizia: ‘Aquilo faz sentido, não vai ofuscar os Jerónimos’...

Esse era o grande argumento de quem era contra.

Essa era a polémica. Mas penso que hoje em dia está perfeitamente sanada.

Dizia-se também que era uma obra do regime cavaquista...

Sim, teve esses contornos, evidentemente. E tirou-se partido político desta construção. Só que os governos passam e os monumentos ficam. Aquilo que o CCB é e pode ser é muito mais importante que conotações conjunturais e políticas.

Uma das coisas que os críticos também faziam na época era chamar ao CCB o ‘Centro Comercial de Belém’.

[risos]. O célebre complexo das Amoreiras, construído no tempo em que o engenheiro Abecasis era presidente da Câmara de Lisboa, do arquiteto Tomás Taveira, também gerou uma polémica enorme e  eu, pessoalmente, sempre achei que era um projeto muito interessante e que hoje provou a sua sustentabilidade. Repare que aquilo já tem mais de 30 anos e continua muito bem conservado.  Tem aquelas componentes de condomínio, serviços, comércio, que conseguem sustentar aquela construção. Como centro comercial, no fundo, o Amoreiras é o mais friendly que temos em Lisboa [risos]. Nunca fui um fundamentalista relativamente à arquitetura nova. Podem-me acusar de muitas coisas, mas disso não.

Leia a entrevista na íntegra na edição impressa do SOL, já nas bancas