Sociedade

O espião que vendia informações a troco de whisky vindo do frio

Carvalhão Gil é acusado de quatro crimes: espionagem, violação de segredo de Estado e corrupção ativa e passiva agravados. Recebeu milhares de euros a troco de informações confidenciais relacionadas com o Estado português e a NATO

Frederico Carvalhão Gil, o antigo espião do Serviço de Informações e Segurança (SIS) que foi acusado na semana passada de quatro crimes, vendia informações ao Sluzhba vneshney razvedki – Serviço Externo da Federação Russa (SVR) a troco de dinheiro e bebidas alcoólicas, como whisky e conhaque.

Na acusação do Ministério Público (MP), a que o i teve acesso, é referida a entregue de valores monetários elevados e de prendas, nomeadamente whisky escocês da marca Haig Clube e conhaque, por parte de Sergey Nicolaevich Pozdnyakov, o espião do SVR com quem Carvalhão Gil se encontrou pelo menos três vezes. O MP especifica até duas situações concretas em que foram detetadas bebidas alcoólicas na posse da toupeira: uma delas na Eslovénia e outra em Itália.

Na primeira, no final de 2015, o espião português esqueceu-se de uma garrafa de conhaque – oferecida pelo agente russo durante o encontro em Liubliana – no quarto de hotel onde se encontrava alojado. Durante a investigação, as autoridades portuguesas detetaram documentos que provam o contacto entre Carvalhão Gil e um funcionário do hotel, onde lhe pede que envie a garrafa para Portugal, disponibilizando a morada da sua casa no Cacém para o envio.

A segunda referência é feita aquando da descrição do encontro entre Carvalhão Gil e Sergey em Roma, altura em que ambos foram detidos pelas autoridades italianas. O espião russo ofereceu ao português um envelope com 10 mil euros e uma garrafa de whisky – os dois objetos foram apreendidos pelas autoridades aquando da detenção.

Recibos em nome de ‘Francisco’

Num dos documentos apreendidos pelas autoridades após a detenção dos dois espiões, é revelado que a secreta russa não escapou à crise e contabilizava o capital que gastava com os seus informadores: “Declaro que recebi 10.000 (dez mil) euros, 21 de Maio de 2016 - Francisco”. O documento manuscrito foi entregue, durante o encontro em Roma, por Frederico Carvalhão Gil a Sergey. O MP suspeita que ‘Francisco’ é o nome de código que o espião português usava como toupeira dos serviços russos, uma vez que o próprio, quando foi ouvido pelo juiz, assumira que o documento e o dinheiro encontrado teria como finalidade criar, em sociedade com Sergey, uma empresa de exportação de azeite.

Como revela a acusação, Sergey Pozdnyakov exigiu a Carvalhão Gil a elaboração e assinatura deste ‘recibo’ por forma a justificar junto do SVR o desembolso desta quantia.

Operação ‘Top Secret’

Na passada quinta-feira, o Ministério Público emitiu uma nota a dar conta da apresentação da acusação da Operação ‘Top Secret’. Carvalhão Gil e Sergey Pozdnyakov foram acusados de espionagem, violação de segredo de Estado e corrupção ativa e passiva agravados.

O espião português esteve ao serviço dos russos entre 2011 e 2016, altura em que foi detido. Os investigadores analisaram 35 viagens feitas por Carvalhão Gil, concluindo que em 16 existem indícios de que terão “ocorrido circunstâncias ou a verificação de coincidências que fazem supor terem servido para manter contactos com elementos do SVR”.

Carvalhão Gil entregou informação secreta abrangida pelo regime especial de segredo de Estado, tentando também entregar documentação com classificação de segurança NATO. Na altura da detenção dos dois espiões, para além da apreensão dos 10 mil euros, do recibo e da garrafa de whisky, foram também detetadas cinco folhas classificadas como ‘NATO CONFIDENCIAL’ com as seguintes inscrições: “Challenges risks and threats to the NATO member states energy security”; “Terrorist and Piracy threats to critical energy flows”; “Cyber attacks against critical energy infrastructure”; “Stability of NATO supliers and transit countries”; “Economic risks for NATO energy flows”.

Noutras folhas apreendidas, estavam também informações pessoais e profissionais de “um ex-ministro da República Portuguesa, dois funcionários do Serviço de Informações de Segurança, um ex-diretor deste mesmo serviço, bem como um terceiro indivíduo que não se mostra ligado aos Serviços”. O MP defende que tais informações poderiam ter interesse para os russos “permitindo que, a partir das informações obtidas, fossem desenvolvidas outras pesquisas e, eventualmente, ações concretas junto das pessoas visadas, designadamente, vigilâncias e eventuais pressões”.

Carvalhão Gil está neste momento em prisão domiciliária com pulseira eletrónica. O MP defendeu a prisão preventiva, mas o Tribunal da Relação de Lisboa entendeu que fosse mantida a medida de coação existente. Já o agente russo esteve em prisão preventiva em Itália, tendo sido posteriormente libertado. Regressou ao seu país de origem, sendo desconhecido o seu atual paradeiro.