Politica

Partidos recrutam nos jornais para as autárquicas

Em 2017 são as mulheres das letras que partem à conquista da cidade de Lisboa. Comunistas, sociais-democratas e centristas recrutaram candidatas nos jornais. E elas contaram ao SOL por que disseram sim.

Dará o jornalismo uma boa escola política? Winston Churchill diria que sim, Paulo Portas não negaria. Mas a imprensa portuguesa formou, para este ano, uma fornada de candidatas para a política - não a nacional, mas a local. Mais concretamente, em Lisboa. E o SOL falou com elas. 

Cristina Ferreira de Almeida, que ajudou a fundar o canal CMTV como coordenadora de informação é a candidata independente que o PSD apresenta à junta de freguesia de Campo de Ourique, nas autárquicas deste ano. 

Ao SOL, a candidata dos sociais-democratas à Câmara Municipal de Lisboa, Teresa Leal Coelho, elogia a presença da antiga jornalista no projeto dos laranjas para a capital. «A proximidade, o envolvimento e a transparência com as pessoas são a marca da minha campanha e de todos os nossos candidatos às juntas. A Cristina Lobo Antunes representa bem este espírito», diz a também vice-presidente do PSD. «É uma grande mulher que sabe o que as famílias de Campo de Ourique precisam». 

Cristina Lobo Antunes conta que o aceitar do convite para tentar a junta de Campo de Ourique deriva de uma «vontade antiga». 

«Sempre gostei muito de política e trabalhar ao serviço da comunidade - a nível local, portanto - é o que me interessa mais», revela também ao SOL a candidata que é mulher de António Lobo Antunes. «Quero meter as mãos na massa».

Cristina, que utilizou Ferreira de Almeida durante toda a longa carreira jornalística, adotou agora o nome de casamento. «A carteira profissional define o nosso nome como jornalista, fechando essa porta e abrindo uma nova, decidi largar o peso do nome associado à profissão». 

A residente em Campo de Ourique estava algo desiludida com o jornalismo («ao fim de uma carreira perde-se um pouco do encanto do início, fica-se mais longe do terreno») mas o «retorno imediato» que a política proporciona entusiasma-a. Para a freguesia, preocupa-a a mobilidade e o estacionamento («o único autocarro ao sábado acaba à uma da tarde - o que faz com que se tenha que andar de carro sem haver lugar para estacionar») e toma a densidade populacional de Campo de Ourique como um bom desafio.

A nova candidatura literária do PCP à Assembleia Municipal

É um legado pesado mas feliz. Depois de José Saramago, noutro tempo, o Partido Comunista Português torna a ter outro vulto literário como candidatura à Assembleia Municipal. É Ana Margarida de Carvalho, jornalista e autora, filha de Mário de Carvalho. 

Jornalista de carreira premiada durante mais de 25 anos, não se encontra em exercício de profissão e é nas eleições locais deste ano que dará o seu contributo. Como razões para a sua candidatura, aponta a identificação com o programa eleitoral da CDU e a crença de que João Ferreira [eurodeputado do PC e candidato a Lisboa] se trata de «um ótimo candidato». 

«O facto de eu ser lisboeta pode fazer com que a minha intervenção cívica seja aqui útil. Já sou conhecedora enquanto cidadã, agora gostava de ser mais conhecedora da resolução dos problemas», assume a escritora. «Os jornalistas sabem de muitas coisas, mas sabem pouco de cada uma», sorri. «É um trabalho de equipa e eu sinto-me muito apoiada. São questões de muita proximidade e de intervenção; não é uma entrada na política», esclarece também, em jeito de conclusão. 

Abecasis: a flor das avenidas

Quem também prossegue de ânimo elevado para as eleições autárquicas deste ano é Raquel Abecassis, independente, pelo CDS à junta de freguesia das Avenidas Novas. Ao SOL, Abecasis lembra o tempo em que estudava na escola D. Filipa de Lencastre que é «ali no limite da freguesia», onde passou toda a adolescência e juventude. «Estudava ali e os meus amigos todos viviam ali. Passávamos a vida no café Flor das Avenidas. Fiz lá muitas asneiras e muitas coisas boas», recorda, também sorrindo. Essas memórias, diz Abecasis, que saiu da direção da Rádio Renascença, «são uma razão de fundo» para a sua candidatura. 

«Não hesitei muito. Não estou de todo desiludida com o jornalismo, mas fiz tudo o que tinha a fazer! Sempre tive uma atração pela política, mas sempre com a noção que no dia em que entrasse não poderia voltar». Para a filha de Nuno Krus Abecasis, «é um passo em frente». 

«Estava a fazer opinião e entrevistas; agora deixo de dar opiniões e passo a fazer aquilo que acredito. É um complemento», conclui.

Este ano, da esquerda à direita, parece que as autárquicas estão entregues a mulheres do mundo das letras.