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Um país em santos

Antes da sardinha, do martelo e do manjerico, o motivo para a festa: os santos. Junho é, por excelência o mês deles. Há uns mais populares do que outros e, em algumas situações, o padroeiro ‘oficial’ da igreja não corresponde ao santo mais celebrado pelo povo. O b,i. reuniu os santos de cada capital de distrito e falou com Alberto Júlio Silva, autor do livro ‘Os Nossos Santos e Beatos e Outros Santos que Portugal Adotou’.

Estamos no mês deles. Dos santos - ou, pelo menos, de grande parte deles - como já deverá ter deduzido pelas imagens que acompanham este artigo. Se folheou esta página sem ler e saltou para a seguinte, estamos quase certos de que fez um esgar de espanto ao deparar-se - no mapa dos santos padroeiros de cada capital de distrito - com S. Vicente como patrono de Lisboa numa altura em que a cidade pulula em honra de Santo António. Se voltou atrás em busca de explicação, seja bem-vindo. Se começou a ler sem saltar etapas, pedimos desculpa pelo introito. Não nos detenhamos mais: é, efetivamente, assim. O santo casamenteiro é o mais popular da capital que há centenas de anos festeja o seu dia, de tal forma que este acabou por ser escolhido como feriado municipal. Mas é a São Vicente que cabe a posição de padroeiro oficial da capital, lugar que ocupa desde 1173. Foi, aliás, o próprio D. Afonso Henriques que ordenou que as relíquias do mártir Vicente - que viveu no século III - fossem trazidas para Lisboa. As relíquias chegaram por mar - ‘guardadas’ por um bando de corvos - através do hoje Cabo de S. Vicente e as aves fazem parte da iconografia de Lisboa, estando até presentes no brasão da cidade. A devoção ao mártir é mais antiga à antoniana, mas isso não significa que esteja mais enraizada - e prova disso são os grandes festejos que se repetem, por esta altura, ano após ano em honra do santo casamenteiro. Santo António pode ter ficado com o lugar de co-padroeiro - posição que ocupa também se alargarmos o discurso a Portugal, cuja padroeira é Nossa Senhora da Conceição - mas é, indubitavelmente, o mais acarinhado pelo povo.

Por isso, Alberto Júlio Silva - autor do livro Os Nossos Santos e Beatos e Outros Santos que Portugal Adotou [ed. A Esfera dos Livros] faz a seguinte distinção: «St.º António é o padroeiro da cidade de Lisboa - tanto que dia 13 de Junho é feriado em Lisboa -, S. Vicente é padroeiro do Patriarcado». 

Muitos dos feriados municipais dos diversos concelhos do país celebram-se, lá está, no dia dos respetivos padroeiros, embora também haja muitos locais em que a efeméride escolhida esteja associada, por exemplo, à elevação a cidade ou à concessão das cartas de foral. É o caso da Guarda, que tem Nossa Senhora da Assunção como padroeira mas que comemora o feriado municipal a 27 de novembro, data em que D. Sancho I entregou a carta de foral ao município. O mesmo acontece em Leiria, sob a ‘égide’ de Nossa Senhora da Encarnação, mas cujo feriado corresponde ao dia de elevação a cidade - 22 de maio. Encontramos uma situação similar no Funchal, cujo patrono é São Tiago Menor e feriado municipal a 7 de setembro, também correspondente à elevação da capital madeirense a cidade. Já no caso de Setúbal o padroeiro é São Francisco Xavier - missionário jesuíta do século XVI, um dos discípulos de Inácio de Loiola e um dos fundadores da Companhia de Jesus - e o feriado da cidade dá-se a 15 de setembro, data de nascimento de Bocage. 

Poderíamos continuar com mais exemplos, mas voltemos aos santos. A verdade é que, com mais ou menos festejos, todas as cidades portuguesas têm um santo - ou santa - padroeiro. E não há uma regra - o processo de ‘adoção’ dos diversos locais aos respetivos santos pode dar-se por diversos motivos. «Muitas vezes estavam ligados, de alguma forma, à própria história dos locais», disse ao b,i. o autor.

É o caso, por exemplo, da padroeira de Coimbra - a Rainha Santa Isabel - intimamente ligada à história da cidade e responsável pela fundação do mosteiro de Santa Clara a Velha. Na capital do Mondego, o dia da cidade celebra-se precisamente a 4 de julho, dia da morte da monarca - já agora, em 1336. 

Mas Coimbra é outra das cidades portuguesas sob forte influência antoniana. Afinal, lembra Alberto Júlio Silva, esta é a única cidade portuguesa, além de Lisboa, em que morou o santo português mais famoso de sempre. Foi, aliás, em Coimbra que Santo António teve o primeiro contacto com os franciscanos, por volta de 1219. Ficou tão fascinado com os votos de pobreza e com a espinha dorsal destes religiosos que «em 1220 abandonou a sua primitiva ordem - os Cónegos Regrantes de Stº Agostinho - e ingressou na Ordem Franciscana», conta Alberto.

Acima de Coimbra, outro exemplo de uma padroeira com fortes ligações à terra - Santa Joana, princesa de Portugal, é a protetora de Aveiro, onde ingressou num convento dominicano após recusar casar. A princesa da dinastia de Avis - que  oficialmente é apenas reconhecida pela igreja como beata - morreu a 12 de maio de 1490, dia em que Aveiro celebra o feriado municipal.

Noutros casos - e quando não há ligações diretas à terra - os santos padroeiros escolhidos pertencem, digamos assim, ao núcleo central de santo da igreja apostólica romana. Caso disso é S. José - padroeiro de Santarém e Beja. Em Santarém o dia do santo - dia do pai, 19 de março - coincide com o feriado municipal, já em Beja a efeméride escolhida para o dia da cidade não tem data fixa no calendário, uma vez que corresponde à quinta-feira da ascensão.

O Porto é um dos exemplos em que não há dúvidas - as comemorações do nascimento de São João, que têm o ponto alto na noite de 23 para 24 de junho - correspondem ao patrono da cidade e ao dia do município.

Já Évora ‘engana’. É que o padroeiro oficial da cidade é São Pedro, mas a festa popular com mais destaque desta capital alentejana é mesmo a feira de São João.

Esta não é, de todo, a única localidade em que vários santos são celebrados e, muitas vezes, nem os próprios habitantes sabem dizer, sem hesitações, qual o patrono da sua própria terra.

De tal maneira que para Faro, por exemplo, foram precisos três telefonemas e três conversas com párocos diferentes até chegar ao padre Miguel Neto, que respondeu com firmeza: «Em Faro o patrono é S. Tomás de Aquino. Mas se for o padroeiro do Algarve, já será S. Vicente».