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Rodrigo Saraiva: ‘Ser liberal não é só fazer umas privatizações’

A Iniciativa Liberal quer ser partido e ir a votos já nas legislativas. O SOL falou com Rodrigo Saraiva, um dos líderes. 

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Alguém adotou a palavra proibida: «Liberal». Depois de uma governação, entre 2011 e 2015, fortemente marcada pela acusação de neoliberalismo, a Iniciativa Liberal quer romper com o estigma: de quem acusava e de quem governava. Dizem-se ao centro e já recolhem publicamente assinaturas para serem um partido com listas às próximas eleições depois das autárquicas deste ano: as legislativas e as europeias.

O SOL falou com um dos fundadores da Iniciativa Liberal (IL), Rodrigo Saraiva, que aponta mesmo ao novo centrismo que vem emergindo no último ano: «Somos de um centro quase radical», caracteriza Saraiva, na mesma linha com que Emmanuel Macron se auto descreveu durante as presidenciais francesas de 2017.

Para ele, «o eixo entre a esquerda e a direita existe, mas não é a única forma de ver as coisas», do mesmo modo que a linha «entre conservadorismo e progressismo» não é a mesma que guia os membros da IL.

«Normalmente associa-se o pilar social à esquerda e o pilar económico à direita, mas se eu for a favor da adoção por casais homossexuais e, ao mesmo tempo, de mais iniciativa privada na economia, sou de quê?», ironiza, bem disposto. «Um liberal de 2017 não é exatamente igual a um liberal de 1947 [data do manifesto liberal de Oxford que serve de inspiração direta ao manifesto da IL], tal como um socialista não é o mesmo. O mundo evolui, as pessoas adaptam-se a novas dinâmicas», considera também.

Sobre o facto de nem Trudeau nem Macron rejeitarem uma lógica de Estado social – preferindo propor reformá-lo; Trudeau, aliás, aumentou a despesa estatal face ao seu antecessor conservador – Saraiva assegura que a Iniciativa não é alérgica ao papel do Estado na sociedade. «Nós não dizemos que o Estado não deve interferir. O Estado não se pode desresponsabilizar», incluindo em matérias sociais, certifica. «Como é que podes defender a equidade e o Estado não ajudar quem não tem condições de vida?».

No já referido manifesto, disponível para consulta na página oficial da IL (liberal.pt), o proto-partido assume como prioridade a saudável relação de Portugal «com os seus parceiros europeus, lusófonos e atlânticos». Organização das Nações Unidas, União Europeia e CPLP, portanto. Três dos pilares fundamentais em que assentam os partidos do ancestralmente denominado ‘arco-de-governação’. Esses pontos em comum são, por exemplo, refletidos na resposta de Rodrigo Saraiva à questão de com quem contam de quadros oriundos dos partidos já existentes.

«Temos pessoas que já foram simpatizantes ou até militantes muito ativos do PS, do PSD e do CDS. As nossas portas estão abertas para qualquer personalidade vinda de um partido, como estão para qualquer cidadão», diz, não fazendo «distinção entre partidos e sociedade», por acreditar que os partidos «também são uma forma de participação cívica».

Embora admitindo que a transição de ‘associação’ para partido político gere, «naturalmente», estruturas orgânicas – «faz parte» –,manter as plataformas digitais «é uma máxima» a preservar. «Não somos contra os partidos nem queremos herdar os vícios dos partidos», esclarece.

Sobre a UE, diz: «Não haja dúvida que somos portugueses e europeístas». O partido liberal europeu – ALDE – é a família de Bruxelas com que mantêm maior proximidade. Aliás, um dos membros da IL, Alexandre Kraus, é assessor do ALDE. Outros membros são José Adelino Maltez, recente candidato derrotado a grão-mestre do Grande Oriente Lusitano e militante do ALDE, e o professor universitário Bruno Horta Soares.

Em relação à questão federalista, Saraiva adverte: «Estamos numa maratona e o debate do federalismo é para ser feito mais à frente, consoante os debates e o envolvimento colaborante que vamos mantendo».

A sua visão é globalista e colaborativa. Para a IL já «não há fronteiras» e não é só do ponto de vista económico. «Claro que há países e que gostamos da nossa cultura e identidade» – uma coisa que não entra em conflito com a outra, a seu ver.

Depois de Lucas Pires e o grupo de Ofir não terem conseguido vingar eleitoralmente, de Portas e Santana deixarem adiado o projeto do partido liberal, situado entre o CDS e o PSD, surge agora a IL para ocupar esse espaço político.

O cientista político Pedro Magalhães considera, em declarações ao SOL, que «a experiência do governo anterior [PSD/CDS, 2011-15] em Portugal terá consolidado uma hostilidade a um discurso economicamente liberal» e, também, que «nem sequer uma grande fatia do eleitorado dos partidos de direita em Portugal é sensível a esse discurso».

No entanto, o dirigente da IL permite-se discordar; afinal Macron também foi eleito num país de boa relação com o seu estatismo. «Nunca existiu partido liberal em Portugal. O nosso desejo é criá-lo, o nosso objetivo é desmistificá-lo». E governo liberal em Portugal? «Também nunca houve; com todo o respeito. Ser liberal económico não é só fazer umas privatizações», atira.

Para Rodrigo Saraiva ainda não houve executivo português que englobasse as três dimensões liberais: «social, económica e política». Ao fantasma do ‘neoliberalismo’, diz somente: «Eu aceito discutir o neoliberalismo com quem aceitar discutir o neocomunismo, o neo-socialismo ou o neofascismo ou qualquer ideologia que tenha ‘neo’ antes, se é que isso existe...».