Donald Trump. Antes da diplomacia, o nacionalismo

O presidente americano lançou-se num discurso altamente nacionalista antes de se encontrar com os líderes liberais de quem não gosta e aos quais desagrada. 

O presidente norte-americano arrancou esta quinta-feira uma nova jornada europeia com um discurso nacionalista e de vida ou de morte, antecipando uma cimeira dos G20 em que terá bastantes opositores às suas políticas iliberais, quase todos líderes europeus com quem Donald Trump parece ter dificuldade.

“A pergunta fundamental do nosso tempo é saber se o Ocidente tem vontade de sobreviver”, disse o líder americano em Varsóvia, onde discursou para uma multidão especialmente desenhada para lhe ser favorável: o partido do presidente e governo polaco pagou pelo transporte de centenas de pessoas vindas de territórios rurais e mais conservadores e antimigração do que os residentes da capital, e que receberam Donald Trump cantando o seu nome e assediando jornalistas.

Visita estratégica

A viagem a Varsóvia não acontece por casualidade. O partido de centro-direita no poder partilha a visão anti-institucional de Donald Trump, escolheu uma política altamente antimigração e contrária ao acolhimento de refugiados, vem tentando diferentes receitas para intimidar ou controlar meios de comunicação incómodos e parece ter conseguido manietar o Supremo Tribunal. A ida de Trump à capital polaca parece ser uma forma de o presidente norte-americano demonstrar apoio – e mostrar que o tem – de um dos mais antagonizados Estados-membros da UE antes de se encontrar durante um fim de semana em Hamburgo com os seus principais e muito mais liberais líderes.

Donald Trump não desiludiu a plateia reunida para si. O presidente americano falou esta quinta-feira das ameaças do secularismo, da Rússia – um tema raro nas suas declarações, mas sensível em território polaco –, imigração e terrorismo islamista. “Os americanos, os polacos e as nações da Europa valorizam a liberdade individual e soberania”, lançou numa das mais pequenas praças de Varsóvia – assim escolhida, segundo o “New York Times”, para evitar escassez de pessoas. “Temos de nos unir para contrariar entidades, venham elas de dentro ou fora, do sul ou leste, que ameacem estes valores e apaguem os laços de cultura, fé e tradição que fazem de nós quem somos.”

Tensão em Hamburgo

A cidade alemã que vai acolher alguns dos líderes menos apreciados na Europa encontra-se um vespeiro, mas as tensões não pertencem apenas às ruas. O presidente americano vai encontrar-se pela primeira vez com o presidente russo, Vladimiri Putin, o mesmo que os serviços de espionagem acusam de ter comandado operações de espionagem para o ajudar a chegar à Casa Branca.

O encontro é de alta importância simbólica e política, mas, ao que se sabe, só conselheiros e funcionários do Departamento de Estado dos EUA estão preocupados com ele. O próprio Donald Trump, escrevia esta quinta-feira o “New York Times”, não está, mesmo que ninguém na sua administração saiba o que vai dizer a Putin. Segundo o diário nova-iorquino, o presidente americano está sobretudo receoso com sermões que líderes como Angela Merkel lhe podem dar em matérias como o clima.