Sociedade

Cova da Moura: ‘Tu estás sempre a colher algodão, só mudaram os campos’

A Cova da Moura não se vai livrar da má fama tão cedo. Os moradores continuam a ter de lidar com o racismo, com o medo e com a vergonha, mas, ainda assim, não trocam o bairro por nada.


Quem se limita a traçar paralelas ao bairro da Cova da Moura sem nunca se atrever a entrar, não imagina o labirinto que é o interior. As casas, visivelmente degradadas, formam entre si uma teia difícil de compreender para quem não conhece o sítio. O SOL passou um dia na Cova da Moura e tomou o pulso aos moradores que já se habituaram ao sobe e desce a que a colina obriga.

No Bairro do Alto da Cova da Moura, assim é o nome completo desta zona da Amadora entalada entre a estação de comboios de Santa Cruz-Damaia e o IC19, vivem cerca de 7 mil pessoas. A grande maioria, de origem cabo-verdiana, começou a instalar-se no bairro no início dos anos 70 e por aqui tem ficado. Na altura era «meia dúzia de barracas», como nos explicaram os moradores mais antigos. Agora são mais de 16 hectares.

A Cova da Moura está novamente nas notícias. Foram 18 os agentes da Polícia de Segurança Pública da esquadra de Alfragide, a um escasso quilómetro da Cova da Moura, que foram acusados pelo Ministério Público de tortura, sequestro, injúria e ofensa física agravada por discriminação racial depois de, em 2015, um grupo de jovens do bairro ter entrado na esquadra. Segundo a acusação, os agentes terão algemado e agredido violentamente os seis jovens com pontapés, socos, bofetadas e tiros de borracha.

Nas conversas com os moradores, as histórias de violência policial repetem-se. Durante a visita do SOL ao bairro, não se viu sequer um agente da autoridade.

São 9h da manhã e o bairro não podia estar mais calmo. Logo à entrada, ao subir a primeira rua, um senhor que desce cuidadosamente de muletas é o primeiro a dar-nos os bons dias, prática universal dentro do bairro.

À entrada juntam-se uma pequena banca de frutas e legumes e outra de peixe. «Bom dia», diz-nos logo o Sr. António. «Vivo aqui desde 1976. Isto agora está muito melhor, dantes nem havia estradas. Era difícil viver aqui», conta. Em relação à polícia, afirma, desconfiado, jamais ter tido problemas: «Nunca me encostaram à parede».

Já mais acima está Sampadjudo, a alcunha tem origem na denominação dada aos habitantes das ilhas do Barlavento do arquipélago de Cabo Verde. Sampadjudo brinca com o cão, Nero, enquanto fala sobre os vários episódios de violência da polícia para com os moradores: «Aqui o bairro é tranquilo, as pessoas vão trabalhar ainda de noite e só chegam quando já é noite outra vez. Tudo calmo. À exceção da polícia. Já vi os polícias darem um tiro com uma bala de borracha a uma mulher que tinha uma criança ao colo», conta. A cada esquina que passa, uma nova história de violência.

Carlos ‘Cash’ e Alexandre, dois jovens ativistas que dedicam grande parte do tempo a ajudar a comunidade, explicam a dinâmica do bairro. «O dia-a-dia não é muito diferente de outras zonas de Portugal. As pessoas vão trabalhar de manhã e mais à tarde é que a malta começa a reunir-se para beber um  copo», afirma Carlos, que mora na Cova da Moura desde miúdo. Nos últimos anos, as mudanças foram bastantes: «A estética do bairro melhorou muito, as ruas, a limpeza, as casas mais coloridas, mais condições, as escolas, associações», acrescenta, orgulhoso, enquanto aponta para os coloridos murais pintados nas fachadas das casas. «Gosto de morar aqui, não trocava isto por outro sítio. Mesmo que nos mudássemos para qualquer outro sítio, esta é a nossa casa. É aqui que nos sentimos bem», acrescenta Alexandre.

Os problemas do bairro são comuns a outras zonas: «a falta de emprego». Um problema que se agrava quando no currículo diz que se é da Cova da Moura: «No teu currículo entra o teu nome, os teus dados, mas quando chega à tua morada, esse é o fator dissuasor. Tens que meter a tua morada como se fosse Damaia ou Águas Livres para não seres associado à Cova da Moura e para não pensarem que és um perigo», explica Alexandre: «Muitos jovens estão parados mas têm escolaridade, são formados. As oportunidades existem, só que não nos são dadas», diz.

«As pessoas acham que isto aqui é o inferno; é a informação que passa, mas cá dentro as coisas são completamente diferentes. Há problemas? Há, como no centro de Lisboa ou em qualquer outro sítio do mundo», afirma Alexandre.

A conversa acaba por ir parar obviamente à ação da polícia no bairro. Carlos conta que já foi agredido duas vezes pela polícia: «Fui chamado de preto e ainda levei uma bela surra desde a noite até de manhã dentro da esquadra. No tribunal eu é que fui condenado por ofensa à integridade física», explica.

«Numa das vezes apareceu a carrinha e vinham lá uns nove polícias. Um deles foi ter comigo ao café e, por trás, mandou-me com a cabeça contra o balcão, espetou-me com a cara na carrinha, pontapé no cu e mandou-me lá para dentro. No tribunal, ficam todos a olhar para ti como se não fosse nada», revela. «Quando se diz que a sociedade portuguesa não é racista, isso dá vontade de rir.»

Maria da Graça, do café A Princesa da Buraca, que conta com a vantagem de não ser estigmatizada pela cor, por ser branca, concorda com o preconceito: «Às vezes dizemos que somos da Cova da Moura e as pessoas olham-nos de lado. Há discriminação para com quem é aqui do bairro».

À frente do pequeno café reúnem-se três amigos que vivem no bairro há 40 anos: o Canelas, o Francisco e o Sardeira. De copo de jeropiga na mão, Canelas não tem dúvidas: «Isto é um espetáculo morar aqui, nunca tive problemas com ninguém.» Sardeira concorda: «Já nos habituámos a isto, agora até estranhávamos se tivéssemos de sair».

Apesar de ainda haver poucos clientes, as toalhas já estão estendidas na rua, à porta do salão cabeleireiro Nuno. Nélson não é da Cova da Moura, mas é como se fosse, vem aqui desde pequenino e, desta vez, aproveitou para vir cortar o cabelo. Quais as principais diferenças no bairro de há uns anos para cá? «Só se for a polícia a bater mais na gente», responde. «Mas eu sei que não são todos assim. Há bófias bons e há bófias maus». Nélson, que ficou a meio do corte de cabelo para nos responder, confessa que sempre sentiu discriminação: «As pessoas veem um grupo de brancos e acham que vão estudar, se veem um grupo de pretos é porque vão assaltar». E a solução não é fácil. «Isso não vai mudar tão cedo, só quando meterem um Obama na Presidência é que isso é capaz de mudar», diz.

Do topo da Cova da Moura vê-se tudo. Há que espreitar por entre as casas, mas desta vista privilegiada percebe-se o verde do Monsanto e os blocos de prédios dos subúrbios de Lisboa. Acima de nós temos um emaranhado de fios elétricos que afunilam até aos postes de eletricidade misturados com as bandeiras que ainda sobram das festas do bairro. No ar há um aroma a café torrado.

O almoço é no Coqueiro com Carlos, que nos serviu de guia durante o tempo que estivemos no bairro. As questões raciais continuaram na ordem do dia. De Muhammad Ali a Barack Obama, passando pelas princesas da Disney que nunca são negras e aterrando nos campos de algodão dos Estados Unidos da América, onde milhares de negros foram escravizados. «Tu estás sempre a colher algodão, só mudaram os campos», diz Carlos, referindo-se às poucas oportunidades que são dadas aos negros hoje em dia no mundo da política e da finança, por exemplo.

Moinho da Juventude

Da parte da tarde o bairro ganha outra vida. Há mais gente nas ruas e aproveitam-se as sombras para fugir ao sol tórrido. Das janelas sai o som das mornas cabo-verdianas.

É pelas 15h que o espaço de cidadania participativa, que faz parte da Associação Cultural Moinho da Juventude, ganha vida. Quem nos recebe no espaço é o senhor Teodoro e a Luz. Aqui, o objetivo e tirar os idosos de dentro de casa, mantê-los ocupados e fazê-los sentirem-se úteis. Hoje trabalha-se a caligrafia. Luz é colaboradora do espaço e ensina sete idosos, maioritariamente mulheres, a escrever. «Só lhes dou trabalho, sou uma chata», brinca. Teodoro vai-nos explicando que o Moinho da Juventude trabalha com mais de 100 colaboradores e todos os dias serve para cima de 600 refeições.

Nascido na década de 80, quando o bairro se começou a desenvolver, o Moinho da Juventude é um projeto comunitário construído pelos próprios moradores, mais especificamente por um grupo de mulheres que reivindicavam melhores condições de vida, como saneamento básico e uma creche para as crianças. Cresceu daí e hoje dá apoio a todo o bairro.

Mimi é formador de informática, trabalha na associação há 12 anos e hoje é uma das vozes mais ativas da Cova da Moura. «As pessoas vêm o Moinho como uma espécie de governo do bairro. As pessoas fazem reivindicações e apontam o que está mal no bairro e, ao mesmo tempo, também esperam que o Moinho resolva tudo», explica Mimi.

Nascido em São Tomé, viveu depois em Angola antes de se mudar para Portugal, onde passa a maior parte do tempo com a comunidade cabo-verdiana da Cova da Moura. «Eu não sou só angolano ou são-tomense ou português. Eu quero ser todos eles», afirma.

«Não só ensino como aprendo aqui imenso. Há pessoas de 70 ou 80 anos que nunca tinham pegado num computador e agora me mandam mensagens a dizer ‘boa noite’ e isso é que me deixa satisfeito, isso é que é enriquecedor. E não são só ‘blacks’, são brancos», conta com orgulho.

A segurança no bairro é tema do qual todos querem falar e Mimi não é exceção. «Aqui há insegurança? O que é que é insegurança? Aqui na Cova da Moura não vês ninguém aos tiros, é muito raro. Mas quando acontece… É como aqueles casos em que os vizinhos se matam, mas se esses casos acontecessem aqui na Cova da Moura, qual seria a repercussão que teriam?», deixa no ar.

«Os bairros como a Cova da Moura são vistos como bairros problemáticos. Mas porquê? São pessoas com baixa escolaridade, falta de oportunidades, que vieram com a família e não tiveram tempo para estudar, são pessoas que estão no desemprego. Esses é que são os fatores que fazem com que o bairro seja mais problemático do que outros», explica.

Relativamente às acusações de ações violentas por parte da polícia, Mimi diz: «Quem é que não tem respeito pela polícia? Aqui as pessoas temem a polícia, como é que não hão de respeitar? As pessoas, quando desafiam a polícia, é porque já estão cansadas de levar. Se, respeitando ou não respeitando, levam porrada na mesma, o que é que as pessoas vão fazer? Têm de se defender». E compara: «O Sócrates quando foi preso no aeroporto, ninguém o espancou». O essencial é não generalizar: «Se dizemos que os políticos são todos bandidos já estamos a exagerar, se dizemos que os polícias são todos maus também estamos a exagerar.»

«Estes pretos que tanta gente diz que são maus e que fazem distúrbios são pretos portugueses, frutos desta sociedade. Estamos a atirar a responsabilidade para as pessoas por serem pretos e por viverem num gueto», atira. «Quem são os lisboetas? Quem são os portugueses? Somos cada vez mais diferentes e não podemos fugir dessa diversidade, não podemos querer só coisas positivas», sintetiza Mimi.

Para este formador de informática são-tomense, angolano, português, a Cova da Moura «não é uma pequena África que nasceu aqui, isto é Portugal. Até porque quando o Éder marcou o golo vibrámos todos...»