Cultura

Guerra dos Tronos. Quando a grande política se mistura com sexo e dragões

Inspirada num passado real, a saga das “Canções do Gelo e do Fogo” é atual porque discute a política e os problemas de poder e da sua legitimidade de hoje e de sempre

Conta o filósofo grego Aristóteles que os animais da selva se reuniram em plenário, tendo as lebres feito um discurso apaixonado sobre a necessidade de garantir uma maior igualdade na selva para todos os animais. A preleção foi apaixonada e poderosa, e como tal foi saudada pelos leões, que levantaram apenas uma pequena questão: “Ó lebres, onde estão os vossos dentes e as vossas garras?”

É o mesmo ensinamento que se coloca quando o conselheiro Lorde Petyr “Littlefinger” Baelish tenta fazer chantagem com Cersei Lannister, dizendo que sabe da origem incestuosa dos seus filhos e que eles não são filhos do rei, que foi seu marido, acrescentando: “Conhecimento é poder.” Cersei manda os guardas degolá-lo, mas no último momento impede a sua liquidação, respondendo: “Poder é poder.”

É essa mesma Cersei que explica a Ned Stark, a poucos episódios de ele perder a cabeça, que “quem participa na guerra dos tronos ou ganha ou morre, não há outra alternativa”. E que no momento em que ele aparece para reclamar o poder, baseado num papel do falecido rei, Robert Baratheon, recusa as pretensões “legítimas” deste: “É este o vosso escudo, Lorde Stark, uma folha de papel?” Quando ele tenta retorquir, “Mas eram as palavras do rei”, Cersei desarma-o pelas palavras e depois pela força de homens de espada e lanças, respondendo: “Agora temos um novo rei.”

Toda a saga da “Guerra dos Tronos” anda à volta da conquista do lugar do poder, um trono feito supostamente pelas mil espadas dos inimigos derrotados. A história da “Guerra dos Tronos” situa- -se num momento concreto da saga narrada nas “Canções de Gelo e Fogo”. Aegon i tinha unificado, através da conquista, os sete reinos, inaugurando uma dinastia Targaryen que durará cerca de 100 anos. A casa dominante coexiste com um conjunto de outras casas nobres que, embora subordinadas, são relativamente poderosas. Paulatinamente, este equilíbrio vai-se esboroar, com a decomposição do poder dos Targaryen, privados do poder dos dragões, mas sobretudo minados na sua autoridade devido ao reinado de um monarca louco. É neste momento que Robert Baratheon encabeça uma coligação de nobres revoltados que derrubam e matam o rei Targaryen para coroar o próprio Robert. O rei usurpador, legitimado pelo derrube de um soberano louco, vai ter apenas 17 anos de reinado. A sua presença na saga da “Guerra dos Tronos” é despachada nos primeiros capítulos. Com a sua morte, os sete reinos entram num período de incertezas, reconfigurações e guerras muito parecidas com determinados períodos da Idade Média.

O homem que escreveu a saga das “Canções do Gelo e do Fogo”, George R. R. Martin, confessa que a ficção recorre a momentos históricos para inspiração, como a Guerra das Rosas [ver caixas das páginas seguintes], mas com o picante de que, ao contrário da história já vivida e que é relatada nos manuais, nós, os leitores e espetadores, não sabemos nem dos desenvolvimentos nem do final. Resta saber se o próprio George R. R. Martin conhece e conseguirá escrever o final nos livros que lhe faltam para o fim da saga. Ela é, ao mesmo tempo, uma análise fantástica da nossa Idade Média e sobre o processo que leva ao enfraquecimento dos feudos e à concentração do poder numa monarquia absoluta. E como de uma legitimidade da força, da genealogia supostamente divina, se passa, segundo as palavras de Maquiavel, para um outro tipo de legitimidade que se baseia, simultaneamente, no amor e no temor, mas que se impõe pela aceitação, por parte da maioria das pessoas, do projeto político dos poderosos.

Não há legitimidade sem força, mas não há força que se consiga aguentar sem propagar o consentimento através da legitimação.

No momento da guerra que vivem os sete reinos, apenas a força parece mandar, mas essa mesma força das espadas é também uma construção política móvel e instável que necessita de narrativas que a legitimem e criem uma hegemonia que lhe permita perdurar.

Estas duas frases, retiradas de diálogos da série, demonstram as contingências da construção desta legitimidade e como ela não é estabelecida por nenhuma condição prévia, mas em momentos de rutura, sendo imposta pela força para depois ser legitimada.

O conselheiro político Varys, a aranha, troca golpes de cinismo com o conselheiro Petyr “Littlefinger” Baelish.

“Varys – Fiz o que fiz pelo bem do reino.

Petyr “Littlefinger” Baelish – Sabeis o que é o reino? São as mil espadas dos inimigos de Aegon [supostamente, o trono é feito de mil espadas, mas tem menos de 200], uma história que insistimos em contar uma e outra vez, até esquecermos que é mentira.

Varys – Mas o que nos resta quando abandonamos a mentira? Só o caos... um fosso que se abre para nos engolir a todos.

Petyr “Littlefinger” Baelish – O caos não é um fosso. É uma escada.”

Ou, como diz Varys noutro diálogo, “o poder reside onde os homens acreditarem que reside. É um truque, uma sombra na parede. E um homem muito pequeno pode projetar uma sombra muito grande”. Amém.