Opiniao

Não se brinca com a segurança do Estado

A Proteção Civil ficou em cheque na catástrofe de Pedrógão Grande

Repare-se no nome: ‘proteção civil’.
Ora, quando 63 civis (e um bombeiro) morrem num incêndio, é porque a ‘proteção’ falhou redondamente.
Houve descoordenação e desorientação.
Para a qual a GNR também contribuiu poderosamente. 

É inadmissível os guardas terem enviado dezenas de pessoas para a morte, ao encaminhá-las para a maldita E236.
Que confiança se pode ter daqui para a frente nas indicações que a GNR dê aos automobilistas em circunstâncias idênticas?

Como se não bastasse a Proteção Civil e a GNR terem saído feridas da tragédia de Pedrógão, 15 dias depois as Forças Armadas eram humilhadas em Tancos.
De facto, é ridículo os militares deixarem-se roubar.

E o que se passou a seguir não abonou nada a seu favor.
Não gostei de ver o seu chefe máximo – o CEMGFA – ‘entalado’ entre o ministro da Defesa e o primeiro-ministro, a desvalorizar o episódio, dizendo que o material roubado valia uns meros 34 mil euros (note-se que nem arredondou para 35 mil, precisamente para dar uma ideia de rigor).

O senhor parecia não ter percebido que o problema não era esse.
O problema era, primeiro, a vulnerabilidade revelada pelo Exército; e, em segundo lugar, o facto de ter sido roubado material que pode ser usado de forma criminosa.

É claro que também se tentou fazer passar a ideia de que tudo aquilo estava ‘obsoleto’ e se destinava a ser abatido.
Mas o que significa explosivos ou granadas estarem obsoletos?

Quer dizer que não explodem?
Se bombas da 2.ª Guerra Mundial encontradas nos dias de hoje ainda estão em condições de explodir, será plausível que os explosivos e as granadas guardados em Tancos fossem inofensivos?
E os lança-rockets não funcionavam?

Poupem-nos a estas explicações – que estão ao nível do ‘raio’ proveniente da ‘trovoada seca’ que ateou o fogo em Pedrógão e do subsequente ‘downburst’ que o propagou.
Parece que estão a gozar com o povo. 

Também não foi um bom sinal para as Forças Armadas a demissão de dois generais em rutura com o chefe do Estado-Maior do Exército (CEME).
Ficou a ideia de que, nesta crise, o CEMFA e o CEME se puseram ao lado do Governo – ficando os militares do outro lado.

Ora, a governamentalização da tropa ou a instrumentalização de militares é uma coisa muito séria.
Recorde-se que este ministro da Defesa, no episódio do Colégio Militar, sujeitara o anterior CEME a uma humilhação em público, levando-o a demitir-se.
Este general foi o escolhido para o substituir.

Será que é mais dócil na relação com o Governo?
Se for assim, é péssimo, porque perde o respeito da instituição que chefia.
As Forças Armadas devem obedecer às decisões políticas do Governo; mas não devem em caso nenhum perder a sua autonomia e identidade, e ser subservientes em relação ao poder do momento.

Ainda os ecos de Pedrógão e Tancos não se tinham extinto, quando novo episódio abalou outra força da ordem: a PSP.
Inesperadamente, o Ministério Público veio acusar 18 agentes da esquadra de Alfragide de sequestro, tortura, racismo, etc. 

Isto, um ano depois de a IGAI (Inspeção-Geral da Administração Interna) ter arquivado um processo sobre o mesmo caso. 
Estamos, pois, perante dois inquéritos com conclusões opostas: um desculpa os agentes, o outro acusa-os.
E a ministra da Administração Interna veio pressurosamente demarcar-se da PSP e exigir uma justiça exemplar, fazendo aparentemente suas as acusações do Ministério Público. 

O Partido Socialista nunca escondeu os seus preconceitos em relação à Polícia.
Ninguém esquece a ordem dada por Mário Soares durante uma Presidência Aberta em Lisboa: «Senhor guarda, desapareça!».
Convém lembrar, porém, que uma coisa é o partido e outra o Governo; e que o Governo e a PSP não estão em barricadas diferentes, mas do mesmo lado da barricada.

À Polícia compete manter a ordem pública e proteger o Governo em caso de grave alteração da ordem.
E ao Governo compete  dar cobertura e força à Polícia. 
Não se lhe pede que feche os olhos a eventuais abusos dos agentes; mas também não pode olhá-los como se fossem potenciais delinquentes. 
E o apuramento dos factos relacionados com a sua atuação deve ser feito de forma discreta e não na praça pública.

É preciso perceber que o policiamento dos bairros problemáticos é uma tarefa duríssima e perigosa.
Esses bairros são viveiros de marginalidade e criminalidade. 
E isso não acontece por lá viverem africanos e seus descendentes: há bairros problemáticos onde a maioria é de origem europeia, e não são menos perigosos.
Para controlar essa gente, a Polícia tem muitas vezes de usar a força.
Ora, se os polícias começarem a ser humilhados, achincalhados em público, que condições terão para manter a ordem?
Que estímulo terão para atuar?
A tentação será a revolta ou a passividade.

Os inquéritos à atuação das forças armadas e das forças de segurança devem, pois, conduzidos com exigência e rigor – mas de forma reservada.
Fazê-los com grande estrondo mediático conduz à sua desautorização. 
Se estes agentes da esquadra de Alfragide forem amanhã condenados em julgamentos abertos, para gáudio de muita gente, os seus colegas que depois forem policiar bairros problemáticos serão alvo de chacota.
E umas forças da ordem humilhadas e sem autoridade não servem para nada.

P.S. – Gentil Martins e André Ventura foram alvo de tentativas de linchamento mediático. Um por dizer que a homossexualidade é «uma anomalia», o outro por afirmar que na etnia cigana há muita gente que se considera acima da lei e vive à conta do Estado. Ora:

1. Os ataques a que assistimos mostram que a liberdade de opinião tem zonas proibidas. E isso é inadmissível. Pelo facto de não concordarmos com esta ou aquela opinião não temos o direito de a proibir. Gentil Martins e André Ventura têm todo o direito de dizer o que pensam.

2. Nestes ataques há muito cinismo. Gentil Martins e André Ventura apenas disseram alto o que muitos outros dizem baixinho.

3. André Ventura fez acusações objetivas. Portanto, ou tem ou não tem razão. Se tem, há que confrontar a comunidade cigana com essas questões, no sentido da  sua melhor integração. Se não tem, deve ser desmascarado. Mas com factos e não com insultos. 

Toda esta polémica mostra que o ‘politicamente correto’ tende a constituir-se numa nova Censura. E é preciso dizer claramente ‘não’ a isso.