Desporto

Trindade. Nem o fantasma derrotou o Homem-Sombra

Contagem decrescente para o início da Volta a Portugal. Já falámos de José Maria Nicolau. Agora é a vez do seu rival de sempre, Alfredo Trindade, que venceu a prova por duas vezes, tal como Nicolau, em 1932 (pelo Clube Rio de Janeiro) e em 1933 (pelo Sporting)

Faro, 24 de agosto de 1933.

Dizia Nicolau, José Maria Nicolau: “Em toda a minha carreira de ciclista, esta é a fase em que me sinto mais triste. É doloroso ver passar os outros na estrada, e eu, empoleirado num automóvel, não poder acompanhá-los.”

Nicolau fora da Volta a Portugal. Problemas físicos. Que viriam a multiplicar-se.

Onde havia Nicolau, havia também Trindade, Alfredo Trindade.

Onde não havia Nicolau, Trindade subia ao topo da rivalidade indomável, sem adversário direto.

Quarta Volta a Portugal em Bicicleta.

Trindade e Nicolau eram muito diferentes de feitio, de estrutura física.

Inegavelmente, os maiores rivais que pedalaram pelas estradas deste país tão bisonho nesse início dos anos 30.

Trindade sentado à mesa de um café, preparando a etapa que se seguia:

– É minha intenção abandonar o ciclismo de competição. Gostaria que esta Volta a Portugal fosse a minha última prova.

E o jornalista, abismado:

– Mas disputará outras competições, outras provas, certamente.

– Não! De forma alguma! Quero que esta volta seja a última prova da minha carreira.

Trindade já tinha ganho a Volta a Portugal. No ano anterior. Nessa altura corria pelo Clube Rio de Janeiro.

Era discreto, calado. Chamavam-lhe “O Homem-Sombra”.

E dizia, num aceno de despedida:

– Bem vê, as necessidades da minha vida não me permitem treinar. Eu vim correr a Volta sem ter pegado na máquina desde a última prova. Desde que me estabeleci, mais preso fiquei. Apesar dos triunfos que tenho obtido, não posso viver deles ou explorar as minhas qualidades de ciclista. Tenho, pois, de me dedicar por inteiro à vida prática para assegurar o presente e o futuro da minha família.

Nascido em Valada do Ribatejo, Trindade tinha 25 anos.

Ganhou essa Volta a Portugal, na qual Nicolau fora obrigado a desistir.

Parceiros

Parecia, às vezes, que não conseguiam correr um sem o outro. Nicolau, o “Hércules do Cartaxo”, com loja de mecânica de automóveis montada lá na sua aldeia. Trindade, carpinteiro que adorava futebol, que passou pelo Rio de Janeiro, pelo Sporting, que saiu do clube do Lumiar em desencontro com o futuro que se propunha para o futuro velocipédico do clube, regressando mais tarde, que pedalou com a camisola dos Leões de Ferreira do Alentejo.

Alfredo Trindade tentando dizer adeus à volta que tanto o encantava.

Trindade também parecia triste, como Nicolau.

Trindade com arranques súbitos de orgulho, arrastando o pelotão atrás de si entre Portalegre e a Covilhã.

Para onde corre Trindade?, perguntavam aqueles que o não viam sem Nicolau.

Pouco importava a fileira de nomes: João Francisco, Eugénio Martins, Santos Duarte, Joaquim Rosmaninho, Rodrigues Dias.

Trindade contra a montanha.

Serra da Estrela: o esforço da escalada. A violência da luta tenaz, porfiada, sem quartel.

Trindade contra si mesmo: a sombra do “Homem-Sombra”!

Fernando de Almeida na sua peugada nas Penhas Douradas. Uma ladeira que não tem horizontes. E descidas vertiginosas: 70, 75 quilómetros por hora.

O fim aproxima-se, e a luta será a dois: César Luís e Alfredo Trindade.

O duelo formidável da Régua, Trindade que cai. Mas era um trepador exímio. Um homem sem negativas no auge do combate. A sua escalada é épica. Recupera o atraso, ultrapassa adversários, entusiasma os grupos firmes e resolutos que, na beira do caminho, não perdem um segundo da sua respiração esfalfada, aquela alma num corpo mínimo que parece querer saltar-lhe do corpo para a estrada, devorando quilómetros com o apetite voraz de um Pantagruel.

Alguém grita:

– Força, Nicolau!

Trindade sorri.

Também ele sabe correr contra fantasmas.

“Perto de São Martinho do Porto a estrada tem curvas íngremes e perigosas. Diante da nossa vista desdobra-se um panorama esplêndido. Os corredores, porém, não temem o perigo e mantêm o mesmo ritmo.”

Lisboa à vista! Lisboa à vista!

Trindade foge vertiginosamente até Loures.

Olha para trás, mas nenhum vulto o ensombra. Nenhum fantasma.

Milhares e milhares de pessoas fazem a sua guarda de honra. Imperial.

Desabafa: “Pensavam que eu já tinha morrido…”

Um esgar de orgulho irónico.

Galga a Calçada de Carriche a mais de 20 quilómetros por hora. Quem agarra Trindade, que voa na cidade? Quem contraria a sua indómita vontade?

Foguetes. Girândolas. Mantas debruadas estendidas nas janelas.

Este homem corre contra o quê?

O vento desata a soprar forte, inclemente. Como se quisesse, num acesso de iracúndia, empurrar para a retaguarda o esforço inequívoco dos homens que se aproximam do limite das suas resistências.

A meta é, contudo, um chamamento mais melodioso do que todos os cantos que fascinaram Ulisses.

Prosseguem, surdos, insensíveis.

Lumiar. Alameda das Linhas de Torres.

São 16h02 quando Alfredo Trindade entra no Estádio do Lumiar, rodando triunfante em seu redor. Seguem-se Ezequiel e César Luís.

Lisboa espera-os na hora do triunfo.

Até o Chiado ficou vazio.

Ficaria vazio pela noite fora até ao raiar da madrugada.