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Férias do antigamente. Quatro meses sem fazer nada, o jogo do prego, o Bronzaline...

Quem sabe o que significa a palavra Bronzaline tem de ter mais de 45 anos ou então ser um maníaco do pop de praia de meados do século XX. Idem para o jogo do prego. É preciso ter tido muita sorte para ter quatro meses de férias - o século XX também teve coisas boas. Não havia burquíni, mas muitas mulheres ainda iam para a praia vestidas dos pés à cabeça. E se não fosse o início do turismo nos anos 60, a legalização do biquíni poderia ter demorado mais tempo... 

Bronzaline

Foi provavelmente o primeiro “bronzeador” no tempo em que o conceito “protetor solar fator 50” não existia. O creme era castanho e o seu uso chegou aos anos 80, quando já havia, de facto, protetores solares no mercado mas, lá está... o conceito “fator 50” continuava a ser desconhecido. Aliás, o nível de proteção solar nos recém-chegados protetores Nivea acabava no mísero fator 3… O Bronzaline marcou duas gerações que acreditavam nas propriedades que a pasta castanha teria de produzir um bronzeado bonito. A publicidade ajudou a construir esse mito - os anúncios do Bronzaline eram muito eficazes, ao contrário da sua capacidade de proteção solar: inexistente. Vinha da fábrica Nally, que também fabricava o creme Benamor: esse ainda se pode comprar em lojas dedicadas à “nostalgia”.

Manteiga de cacau

Muitos cosméticos, nomeadamente hidratantes, continuam a ser feitos com o ingrediente manteiga de cacau. Mas houve um tempo (anos 50-60) em que, na falta de Bronzaline ou lata de creme Nivea azul, quem ia à praia comprava mesmo a manteiga de cacau - essa não é castanha, mas sim branca - e esfregava o corpo para o proteger minimamente do sol. A manteiga de cacau foi, de facto, um dos primeiros protetores solares do país, em conjunto com o creme Nivea simples, o famoso da lata azul. Aliás, em muitas praias do “antigamente”, uma bola gigante azul com a palavra “Nivea” e que funcionava como publicidade ao creme servia de ponto de encontro, principalmente dos mais novos.

Quatro meses de férias

As aulas acabavam a 9 de junho e recomeçavam a 1 de outubro. Isto nas escolas industriais e comerciais, porque nos liceus era a 7 de outubro. Quando o ensino se unificou, as aulas continuaram a começar em outubro mas, nos tempos mais conturbados, era quando calhava. Dependia das escolas e de os horários estarem prontos, os professores colocados, etc. Hoje, estes quatro meses de férias parecem uma coisa impensável, mas no passado foi assim. Os longos quatro meses de ausência da escola tornavam o regresso às aulas um momento ansiosamente desejado. A geração que viveu isto foi a última que soube o que era “nada para fazer”. Mas havia livros, televisão e rua.

Jogar ao ringue e ao prego

O entretenimento clássico na praia in illo tempore era atirar um ringue de um lado para o outro. O ringue era habitualmente de borracha. Geralmente, podia-se jogar entre duas equipas. Era preciso apanhar o ringue no ar, caso contrário dava-se ao adversário a possibilidade de “matar” (acertar) num jogador da equipa adversária. Mas também se jogava o ringue só entre duas pessoas, sem grandes regras. O jogo do prego também foi muito popular. O prego era um prego gigante e cada um dos participantes, sentados na areia, eram obrigados a fazer algumas acrobacias com mãos e dedos para o segurar.

Os pacotes de batatas fritas

Hoje é uma complicação conseguir a licença de vendedor ambulante nas praias. No “antigamente”, a atividade era livre de grandes regras e a venda ambulante dividia-se em três momentos: a “senhora dos bolos”, “o homem das batatas fritas” e o “senhor dos gelados”. Ou então era a “senhora das batatas fritas”. A “mala” dos bolos tinha várias gavetas e a sua abertura era um momento de suspense: as bolas-de-berlim eram apenas uma das variedades. Já o “homem das batatas fritas” percorria a praia com um saco às costas e o dos gelados tinha o seu saco frigorífico. Ninguém achava que havia sal ou açúcar a mais. As férias de antigamente eram “diet free”.

Mulheres na praia todas vestidas

Estávamos muito longe de ouvir falar do burquíni e da burca, mas convivíamos com a nossa espécie particular de burquíni. As praias estavam cheias de mulheres mais velhas que nunca se punham em fato de banho - entravam vestidas dos pés à cabeça e abandonavam a praia sem terem tirado uma peça de roupa. Algumas estavam todas vestidas de preto, outras usavam cores garridas, mas o conceito era o mesmo: a ideia de despirem a roupa e vestirem um fato de banho comum não lhes passava pela cabeça, por razões de hábito. Iam ao mar só molhar as pernas, geralmente por razões de saúde. 

Quando o biquÍni era proibido

A culpa da legalização do biquíni em Portugal foi das “estrangeiras”. O vestuário de praia durante o século XX português obedeceu a regras muito estritas - até ao início dos anos 50, os homens eram obrigados ao fato de banho completo ou, em alternativa, a vestirem calções e uma camisola interior. Essa obrigação dos homens de tronco vestido acabou nos anos 50, mas as mulheres continuaram a ser proibidas de usar biquíni nos anos 60. A lei acabou por ceder ao turismo que começava a surgir em Portugal: era impossível travar as mulheres estrangeiras de adotarem o vestuário de praia que tinha sido inventado nos anos 50.

Quando o banheiro tinha uma corda para “dar banho”

A praia começou a ser frequentada, por razões de saúde, do século XIX ao século XX e, no início, pelas classes altas. Apenas os menos abonados que viviam junto ao mar “faziam praia”. O resto do país, com a exceção da burguesia e dos aristocratas, não tinha meios para fazer férias junto ao mar. Muitos nem férias tinham. O Algarve sem gente (que Miguel Sousa Tavares costuma recordar com nostalgia) era a consequência. Só em caso de força maior (uma doença) as pessoas com menos dinheiro “faziam” praia. O banho de mar fazia parte do catálogo de cura. Em algumas praias, os banheiros tinham uma corda a que os banhistas se agarravam para a sessão medicinal.