Politica

A semana da revelação e a revelação da semana

Chamam-lhe ‘coming out’. Num governo nacional, é o primeiro. Da direita à esquerda deram-se reações divergentes. Graça Fonseca não dará mais entrevistas sobre o tema. E já recusou várias.

A primeira governante portuguesa a assumir a sua homossexualidade fê-lo esta semana. Graça Fonseca, secretária de Estado adjunta e da Modernização Administrativa, lançou a revelação numa entrevista ao Diário de Notícias com as seguintes palavras: «Se as pessoas começarem a olhar para políticos, pessoas do cinema, desportistas, sabendo-os homossexuais, como é o meu caso, isso pode fazer que a próxima vez que sai uma notícia sobre pessoas serem mortas por serem homossexuais pensem em alguém por quem até têm simpatia». 

No primeiro tempo, as reações foram de saudação, à esquerda, e de condenação, à direita. «A sexualidade de quem integra o Governo é-me completamente indiferente, mas querer fazer política por conta desse tema já me revela muito. Hoje, uma coisa assim não demonstra coragem, diferença ou novidade. Apenas exibe que não tem mais nada para dizer», escreveu, o vice-presidente da bancada do PSD, Carlos Abreu Amorim. 

«Pelos vistos ser homossexual é curriculum», disparou Virgílio Macedo, outro deputado social-democrata. 

Os parlamentares socialistas, por outro lado, saudaram o ato. Isabel Moreira elogiou «a coragem», defendendo que «o espaço público precisa de mais coragem, de mais Graças Fonsecas». 

Tiago Barbosa Ribeiro, também do PS, acrescentou que «achar que isso não interessa nada no Portugal de 2017 é não conhecer o país crivado de preconceitos que ainda somos. Tendo uma posição de destaque e poder social, ajudou certamente a que os alvos da discriminação numa qualquer família, escola, empresa, rua, possam sentir-se hoje mais protegidos».

Polos em inversão

Mas se as reações iniciais foram marcadas pelo apoio do seu partido, o PS, e por uma alegada «indiferença» na oposição, Graça Fonseca viu, ao longo desta semana, as equipas trocarem de lugar no campo.

Alfredo Barroso, fundador do Partido Socialista, escreveu: «Não conheço pessoalmente Graça Fonseca, mas já sabia que ela era homossexual. E isso que tem? Nada».

«Julgo que a secretária de Estado da Modernização Administrativa, de que muito raramente se ouve falar, terá aproveitado a oportunidade de uma entrevista (...) para praticar um ato considerado de ‘coragem pessoal’, mas também, e sobretudo, para uma manifestação de mera propaganda pessoal», acusou o sobrinho do falecido Presidente da República, Mário Soares.

E dessa vez veio a direita defender o gesto da governante. Carlos Moedas, o português escolhido para a Comissão Europeia por Pedro Passos Coelho, tweetou: «A coragem da Graça Fonseca é importante para os que lutam por uma sociedade mais justa. Obrigado Graça». Houve mais moderados do PSD a apoiar a revelação. Rubina Berardo, deputada na Assembleia da República, afirmou ao SOL  aplaude «a declaração [de Graça Fonseca], achando também que «devemo-nos elevar para além da tradicional ‘clubite partidária’, especialmente no que diz respeito à materialização de direitos fundamentais». 

Mais distante da política ativa mas ainda observador atendo, Miguel Poiares Maduro pediu mesmo: «Que tal praticarmos um pouco mais de moderação?». Para o antigo ministro de Passos, «dizer que ninguém tem nada a ver com a orientação sexual da secretária de Estado é verdade, mas deve haver alguma razão pela qual nunca nenhum membro do governo tinha até agora assumido a sua homossexualidade». 

 

Alfredo Barroso

«[Pretendeu] desviar as atenções do essencial: a pobreza que persiste, a discriminação entre mulheres e homens no trabalho, os jovens sem perspectivas de futuro, o racismo larvar que continua a manifestar-se contra os negros...»

 

Poiares Maduro

«A declaração pública da secretária de Estado pode ajudar outros, em contextos de trabalho por exemplo, a poderem livremente assumir a sua orientação sexual»
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Direita atirou primeiro com indiferença e depois com louvor. Esquerda aplaudiu e Alfredo Barroso contrariou