A vida como ela foi...

8 de agosto de 1987. Maestro de uma orquestra de borboletas azuis…

Francisco Xavier de Araújo ficou na memória de Lisboa como o professor negro de patinagem do Jardim Zoológico. Cumprem-se, agora, anos sobre a morte do homem que abre o livro de António Lobo Antunes, “Os Cus de Judas”

Lembram-se do início de “Os Cus de Judas”, de António Lobo Antunes?

Recordemos, portanto: “Do que eu mais gostava no Jardim Zoológico era do ringue de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua. Não sei se lhe parece idiota o que vou dizer mas aos domingos de manhã, quando nós lá íamos com o meu pai, os bichos eram mais bichos, a solidão de esparguete da girafa assemelhava-se à de um Gulliver triste, e das lápides do cemitério dos cães subiam de quando em vez latidos aflitos de caniche”.

Ah, pois… O Jardim Zoológico emanava uma aura estranha de filme em câmara lenta.

Até o professor de patinagem, tão negro e tão direito parecia em câmara lenta.

Francisco Xavier Araújo, nascido em São Tomé, em 1892, morreu em Lisboa no dia 8 de setembro de 1987.

Em “Lisboa, Anos 70”, Joana Stichini Vilela também lhe dedica espaço interessante. E recorda-o através de Maria Teresa Horta: “Era um gentleman, um dançarino, um negro lindo e alto”.

Quem viveu a Lisboa da infância que eu vivi não o esquece.

Havia uns laguinhos de água suja onde os casais de namorados pedalavam preguiçosamente a fazerem mover gaivotas de forma desordenada que mais pareciam os carrinhos de choque da Feira Popular à mistura com cisnes e com umas pontes que lhes ficavam por cima.

Xavier de Araújo: um preto luzidio que patinava de mão dada com meninas de sonho vestidas com saias de pregas azuis escuras e meias também azuis escuras puxadas até aos joelhos.

Um dia, numa entrevista ao “Diário de Notícias”: “Dediquei-me à patinagem já com cerca de 40 anos, depois de ter abandonado todos os outros desportos. Vivi em Inglaterra quando na minha juventude, pratiquei râguebi, futebol, críquete. Mas era melhor no salto em altura e fui campeão universitário de boxe”.

Em Portugal também jogou futebol, chegou a alinhar pelo Braga, mas dedicou-se sobretudo ao râguebi construindo uma equipa de muita qualidade no Ginásio Clube Português e sendo internacional.

No Jardim Zoológico de que me lembro, rodopiava com meninas em redor como se fossem borboletas, borboletas azuis, e ele comprido e luzidio, regendo toda uma orquestra de saias de pregas e meias pelos joelhos.

Maria Teresa Horta: “No Verão, Xavier Araújo andava completamente vestido de branco. É das imagens de beleza que tenho!”

Inventa os espectáculos de patinagem acompanhados por música, geralmente com a Banda Filarmónica da Guarda Nacional Republicana, faz demonstrações um pouco por toda a parte, dá aulas, recebe em 1977 o Prémio Internacional de Fair Play concedido, precisamente, pelo Comité Internacional de Fair Play.

Francisco Xavier Araújo: um tendão de Aquiles pôs fim absoluto ao seu caminhar plácido sobre rodas.

Contou: “Fumo e bebo, embora de forma controlada, e faço uma alimentação racional. Estou crente de que foi o desporto, ou melhor, a sua prática como atleta, árbitro e dirigente, o grande responsável pela saúde de ferro que sempre tive”.

Morreu velho. Dia 8 de setembro de 1987.

Maria Teresa Horta: “Era um gentleman! Um cavalheiro!”

Cavalheiro que rodopia na minha memória que, de vez em quando, ainda voga ao sabor dos gestos mágicos de um bailarino preto e luzidio com meninas em volta.

Ficava para além da melancolia das panteras negras e da desconfiança dos leopardos, dos laguinhos de água suja, indiferente ao caos das gaivotas e dos namorados e das buzinadelas irritadas dos cisnes quase atropelados, indiferente ao urro do elefante a recusar moedas de tostão e a tocar sinetas a preço de meio escudo, indiferente ao olhar meigo das girafas que, também elas, esticavam os pescoços malhados para espreitar a azáfama das borboletas escuras que voavam em seu redor soltando gargalhadas no meio da repetição continuada dos seus movimentos incomparavelmente azuis.

Era um maestro. Que conduzia suavemente uma orquestra de borboletas. Lindas e azuis.