Coreia do Sul cria unidade militar para assassinar Kim Jong-un

Seul alterou a sua estratégia perante Pyongyang. A formação da Spartan 3000 insere-se na criação de uma nova estratégia militar para obrigar Kim Jong-un a retornar à mesa das negociações e a travar o seu programa nuclear e balístico

Raramente um governo divulga publicamente a intenção de assassinar líderes de outros Estados, mas foi isso mesmo que o ministro da Defesa sul-coreano, Song Young-moo, fez recentemente. Numa reunião com parlamentares sul-coreanos anunciou que o governo iria formar uma unidade militar de elite com o objetivo neutralizar a capacidade de comando de Pyongyang, onde se inclui a eliminação física da liderança norte-coreana, principalmente a do líder Kim Jong-un.

A unidade, que se chama Spartan 3000, é composta por três mil fuzileiros e atuará com o auxílio de helicópteros e aviões próprios, adaptados para as necessidades de transporte de tropas para efetuar raides em território a norte do paralelo 38. Recentemente participou num exercício militar com forças militares norte-americanas. “A melhor dissuasão que temos, para além das armas nucleares, é fazer com que Kim Jong-un tema pela sua vida”, afirmou Shin Won-sik, um general sul-coreano de três estrelas antes de se ter retirado em 2015. A formação desta unidade parte do pressuposto de que o assassinato do líder norte-coreano, considerado uma divindade no seu país, poderá originar o colapso do regime, possibilitando a reunificação da península.

A Spartan 3000 faz parte de uma mudança da posição e estratégia de Seul para obrigar o seu rival a regressar às negociações. Quando Moon Jae-in foi eleito presidente da Coreia do Sul em maio, defendeu uma mudança de atitude governamental por considerar que dez anos de políticas duras face a Pyongyang redundaram em falhanço. Prometeu encetar esforços de conciliação e de negociação para travar o programa nuclear do seu vizinho. Nos primeiros meses do seu mandato estendeu vários ramos de oliveira a Pyongyang, onde se inclui a assistência humanitária, o diálogo para se reduzirem as tensões na fronteira e iniciativas para reunir famílias divididas pelo conflito. Moon também suspendeu a instalação do controverso sistema de defesa antiaéreo norte-americano Terminal High-Altitude Area Defense – habitualmente designado como THAAD –, que avançou antes de ter tomado posse.

A postura de Moon contrasta com a do anterior presidente Park Geun-kye, que defendia medidas para levar ao colapso do regime norte-coreano e à reunificação forçada da península sob a égide da Coreia do Sul.

As ações de Pyongyang têm, nos últimos meses, deixado a linha política de Moon cada vez mais isolada nos corredores da capital. O reforço das capacidades militares da Coreia do Sul tem granjeado um crescente apoio entre os militares, comentadores e até entre a população sul-coreana no geral. Em julho, Moon propôs aos Estados Unidos a realização de um exercício conjunto de decapitação da liderança norte-coreana com o lançamento de mísseis. Em agosto, definiu uma “linha vermelha” para o programa nuclear norte-coreano, algo que nenhum líder mundial tinha feito até ao momento. Para o líder sul-coreano, o limite inultrapassável seria Pyongyang “completar o desenvolvimento de um míssil balístico intercontinental e de poder armá-lo com uma ogiva nuclear”, algo que parece estar cada vez mais perto de se tornar real.

Neste sentido, o presidente deu ordens ao ministro da Defesa para se implementarem uma série de reformas nas forças armadas, caso seja necessário “mudar-se para uma postura ofensiva se a Coreia do Norte avançar com uma provocação” ou se “atacar a capital”, segundo noticiou o jornal Chosun. O presidente anunciou que o orçamento para a Defesa aumentará de 2,4% para 2,9% ao longo do seu mandato, ou seja, um acréscimo de 12 mil milhões de dólares (10 mil milhões de euros). Estas verbas serão destinadas ao desenvolvimento de três programas militares: “Kill chain”, o primeiro pilar da nova estratégia de defesa e que se direciona para o reconhecimento e destruição de mais de mil locais de fabrico dos mísseis e das ogivas nucleares; o programa coreano de defesa aérea e míssil, que tem como intuito destruir os mísseis norte-coreanos que se dirijam para território nacional e consequente retaliação com bombardeiros; e, por fim, a iniciativa de punição e retaliação maciça, onde se inclui a unidade de elite Spartan 3000. Esta reforma militar tem sucintamente dois objetivos: fortalecer a posição militar preventiva sul-coreana face ao vizinho do norte e alterar a sua relação com os Estados Unidos num eventual conflito militar com Pyongyang, ficando responsável pelo comando operacional.

Com a escalada da tensão, Seul decidiu instalar o sistema THAAD e considera a possibilidade de pedir aos EUA a deslocação de um porta-avião nuclear para a zona, bombardeiros estratégicos e outros equipamentos militares norte-americanos para a Coreia do Sul no futuro próximo, para além de também ter começado a planear novos exercícios militares com Washington. Medidas para relembrar à Coreia do Norte o poder de fogo com que se confrontará na eventualidade de deflagrar um conflito.

Apesar de ter endurecido a sua posição, Moon tem-se confrontado com exigências domésticas para instalar armas nucleares táticas norte-americanas em território nacional ou mesmo para construir arsenal nuclear próprio, rumo a que o presidente sempre se opôs. Caso Seul opte por este caminho poderá levar a uma corrida ao armamento nuclear na Ásia-Pacífico, um desfecho que Washington pretende evitar a todo o custo.

*Texto editado por António Rodrigues