Desporto

Old Firm. E na baliza há um fantasma

Hoje, em Ibrox Park, tem lugar o derbi mais antigo da história da Humanidade: Rangers-Celtic! É como se abríssemos as páginas de um romance.

Sábado, 23 de setembro. Hoje mesmo, pois então. Dia grande em Glasgow, lá para o norte da Grande Ilha.

Dia de Old Firm.

Na véspera, ninguém dorme na Escócia. Rangers e Celtic encontram-se, em Ibrox Park, pelo início da tarde.

Já houve outros: Cadete e Capucho, por exemplo.

Agora há Caixinha, treinador do Rangers a viver esta experiência libertária para todos aqueles que se deixam fascinar pelo grande futebol.

É um privilégio!

Assistir ao vivo ao enfrentamento clássico desses dois clubes gigantescos como figuras de Cecil B. DeMille é algo para pendurar para sempre, emoldurado a dourado, na parede branca de todas as memórias.

Ah! Existe lá jogo com mais memória....

Falo do Old Firm!

O velho e relho Old Firm!

O dérbi mais velho do mundo começou a disputar-se no ano de 1888.

O Celtic acabara de nascer da ideia piedosa do irmão Wilfird, um marista que se lembrou de fundar um clube de futebol para angariar fundos para ajudar os mais necessitados.

Quem diria, não é? O velhinho Celtic foi uma obra de caridade! Recém-nascido aceita, desde logo, o desafio para um jogo particular. Wilfird esfregou as mãos de contente: «Venha de lá o dinheirinho!».

O jogo foi frente ao Rangers e o Celtic ganhou por 5-2.

Já o Rangers era mais velho. Nascera em 1873 por iniciativa de um grupo de rapazes de uma zona de Glasgow chamada Gare de Loch.

Nome de uísque, estarão a pensar. Bem, afinal sempre estamos a falar de escoceses.

Não tardariam estes moços a migrar, instalando-se na zona sul da cidade.

Ah! Ponto de ordem na mesa: não vale a pena procurarem no nome de qualquer dos clubes referências a Glasgow, ou a Glásgua como se escrevia nos meus tempos da mestra palmatória. Não se trata nem do Celtic de Glasgow nem do Glasgow Rangers. Falamos, isso sim, do Celtic Football Club e do Rangers Football Club. Por mim, a ordem dos fatores é arbitrária.

Old Firm, portanto.

Vamos lá ao Old Firm, que é assim que os escoceses tratam carinhosamente o seu antiquíssimo dérbi.

Para isso, saltamos no tempo como um gigantesco canguru: 1904.

Começou por ser uma pilhéria. Melhor: uma caricatura.

No dia antes da final da Taça da Escócia desse ano, Rangers-Celtic, claro está, o jornal The Scottish Referee publicou um cartoon no qual se via um velhote carregando uma caixa de sanduíches com um cartaz dependurado: ‘Patronize the Old Firm – Rangers, Celtic Lda.’.

Assim à primeira vista talvez o leitor não perceba o dichote. Eu explico já aqui ao lado, como a prova dos nove do alfaiate António Silva: o humor da frase estava na ideia arreigada na Glasgow dessa época que os jogos entre Rangers e Celtic, cuja rivalidade crescera a uma velocidade de mais de 300 mil quilómetros por segundo, que é mais coisa menos coisa a velocidade da luz – até por ser o primeiro o clube dos protestantes e o segundo do pároco e acólitos da igreja de St. Mary, na East Rose Street – eram ótimos para o negócio local e valiam por uma firma comercial.

Old Firm ficou!

 

A morte de Thompson

Se no primeiro encontro amigável entre ambos os clubes tinham estado presentes cerca de dois mil espetadores, as multidões não demoraram a aderir ao dérbi. E essa final da Taça da Escócia de 1904 (o Celtic venceu por 3-2) que deu lugar ao Old Firm não foi a primeira entre Rangers e Celtic. A primeira data de 1899: outra vitória dos católicos (2-0).

Alguns autores britânicos garantem que foi em 1909 que a rivalidade descambou em ódio.

Havia um ambiente muito tenso antes de se dar início à finalíssima da Taça da Escócia desse ano. Um empate no primeiro jogo dera lugar a um segundo. O palco foi Hampden Park.

À beira do final dos noventa minutos, persistia novo empate (1-1) e pressentia-se um prolongamento turbulento. Subitamente, os adeptos de um lado e do outro perceberam que a ávida Scottish Football Association tinha ideias bem diferentes. De olho num terceiro jogo e no encaixe financeiro subsequente, tratou-se de deixar cair a meia hora suplementar. A paciência do público rebentou como uma castanha no forno. Cenas de pancadaria multiplicaram-se pelas bancadas. No início, adeptos contra polícias. Em seguida, uma confusão generalizada.

O povo ordenou em Glasgow como em Grândola, no tempo em que o Carrajola matou Catarina Eufémia!

Não houve terceiro jogo. Mas, pela única vez na história, a Taça da Escócia não foi atribuída.

São às centenas os episódios e os personagens deste romance chamado Old Firm.

Mas talvez haja um personagem acima de todos os outros: John Thompson.

John Thompson foi guarda-redes do Celtic. Era ainda um rapazinho de 22 anos quando, num dérbi, em Ibrox Park, chocou com Sam English, avançado-centro do Rangers.

Decorria a época de 1932-33. A fratura que sofreu no crânio condenou-o à morte em poucas horas. English não teve intenção de o abalroar, mas o choque que a morte de Thompson lhe provocou fê-lo abandonar o futebol.

Quanto aos adeptos do Celtic, veneram Thompson com um fantasma amigo que os visita. E cantam, durante os Old Firm: «So come all you/Glasgow Celtic/Stand up and play the game/For between your post/There stands a ghost/Johnny Thompson is his name».

Mais escocês era impossível…