Sociedade

Estrangeiros nas faculdades. As novas caras do ensino superior português

Em cinco anos, o número de estrangeiros nas universidades e politécnicos portugueses aumentou 32%. Visitámos a Faculdade de Economia da Nova, onde mais de metade dos candidatos a mestrado já são de fora do país. No próximo ano lectivo, a Nova SBE vai inaugurar um campus novo e atrair mais alunos a nível internacional é um dos objetivos

É hora de almoço na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. As aulas começaram há duas semanas e os estudantes passeiam-se pelos corredores. Não é preciso andar muito para começar a ouvir línguas diferentes e as fisionomias não enganam.

A caminhar para a sua bicicleta, está Reinier van Uden. Alto, louro e de olhos azuis, conta que é holandês, tem 20 anos e acaba de chegar a Portugal para o início do ano letivo. “Na Holanda estudo Econometria, e aqui estou a frequentar duas cadeiras de Economia”, explica. Não queria ir para países escandinavos por causa do frio, por isso a escolha recaiu sobre Portugal ou Espanha, mas não tinha nenhuma preferência em particular. “Candidatei-me a várias universidades e entrei nesta”, diz, acrescentando que veio através do programa Erasmus. “Estou a gostar”, remata.

Dentro da faculdade, numa sala calma com algumas mesas, está Sarah Stohrer, uma alemã de 22 anos que, entre o caderno e o computador, se prepara para fazer um trabalho. Também é nova por aqui. “Comecei este ano. Estou a tirar um mestrado em Economia”. Porquê esta faculdade? “Porque gostei muito do programa, é uma graduação dupla em que se estuda Economia e Gestão. Escolhi esta faculdade em específico por causa do programa”, responde. “E Portugal é um país espetacular!”, acrescenta.

Com Sarah está Hendrik Schiermeyer. Também é alemão, de Dusseldorf – Sarah é de Munique –, mas só se conheceram há duas semanas, em Lisboa. Tem 23 anos e tal como Sarah, começou este ano a estudar em Portugal e está a tirar um mestrado. “As hipóteses eram Londres e Lisboa e escolhi Lisboa. O programa é muito mais barato do que o de Londres e acho que a relação custo-benefício é melhor aqui do que em Londres”. E está satisfeito: “Estou a gostar muito dos professores e do programa, posso concentrar-me em Microeconomia e em Econometria”.

Ambos acreditam que não é só o bom tempo que torna Portugal atrativo: o grau de exigência na faculdade tem fama de ser superior ao das universidades alemãs. E ambos conseguiram bolsas para ajudar a pagar as propinas.

Podiam ser casos raros, mas a Nova – School of Business and Economics –人 o nome oficial desta faculdade, com a sigla Nova SBE – orgulha-se do número de estudantes estrangeiros e o novo campus que pretendem inaugurar no próximo ano em Carcavelos, com vista para o mar, também tem isso em mente.

No último ano letivo, 54% dos candidatos a mestrados eram estrangeiros oriundos de mais de 90 países. Já este ano letivo entraram cerca de 600 novos alunos de mestrado – de 40 nacionalidades diferentes –, entre os quais 98 alemães e 50 italianos. Hoje são 3000 alunos ao todo no campus de Campolide e quando abrirem o novo polo esperam vir a ter “3500 a 4000”, revelou Daniel Traça, reitor da Nova SBE, na assinatura do empréstimo para a concretização do projeto de expansão, que teve lugar a 8 de setembro.

Se entre os alunos da Nova há cada vez mais estrangeiros, a tendência parece ser notória em todo o país.

Segundo as estatísticas da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), o número de estudantes estrangeiros inscritos no ensino superior português tem vindo, todos os anos, a aumentar significativamente. No ano letivo de 2011/2012, estavam inscritos no ensino superior 28.656 alunos estrangeiros. Em 2012/2013, o número passou pela primeira vez a barreira dos 30 mil e fixou-se nos 30.757. No ano seguinte, 33.283 alunos estrangeiros frequentavam as universidades portuguesas, um número que pouco cresceu em 2014/2015: 33.552. Finalmente, em 2015/2016, passaram a ser 37.905 alunos estrangeiros inscritos.

Ao todo, dá um crescimento de 32% dos alunos naturais de outros países num espaço de cinco anos e para o último ano letivo ainda não há dados oficiais disponíveis, indicou ao i o Ministério do Ensino Superior. Até ao primeiro semestre do ano passado estavam matriculados nas universidades portuguesas 36.193 estudantes estrangeiros.

Erasmus, bolsas e propinas

Chegam em várias modalidades: através do programa Erasmus, com apoio de bolsas das instituições ou entidades externas e consulados ou pagando as propinas, que no caso dos alunos estrangeiros podem refletir o valor real dos cursos.

No caso de licenciaturas e mestrados integrados, o valor pode ir até aos 7000 euros anuais, variando conforme a área do curso. Já nos mestrados de 2.º ciclo e do doutoramento os valores praticados com os alunos estrangeiros são idênticos aos que vigoram para os alunos nacionais, mas algumas escolas podem cobrar valores diferenciados.

Desde o ano letivo 2011/2012, as cinco nacionalidades mais comuns mantêm-se: é do Brasil, de Angola, de Cabo Verde, de Espanha e de Itália que vêm mais estudantes para as universidades portuguesas. E há uma outra tendência a assinalar: estudantes oriundos de países não abrangidos por acordos procuram cada vez mais Portugal para estudar, ainda que não tenham apoios. É o caso dos iranianos: segundo dados provisórios da DGEEC havia, em 2016/2017, 279 estudantes iranianos em Portugal, contra 226 em 2015/2016.

“Um país que atraia os melhores”

À margem da apresentação do projeto do novo campus da Nova SBE, Carlos Moedas, Comissário Europeu para a Investigação, Ciência e Inovação, defendeu o caminho da atração de alunos estrangeiros como forma de investimento mas também de criação de valor. “Portugal tem de ser um país que atraia os melhores”, salientou.

Sobre a Nova em particular, frisou que o ADN da universidade tem sido “chegar sempre ao impossível” e não ter medo de arriscar. “É um dos grandes exportadores de Portugal, de conhecimento” e tem trazido para o nosso país “alianças extraordinárias, pessoas que vêm e que ficam”, disse o comissário europeu.

Daniel Traça lembrou que a Nova, nascida “há 40 anos”, sempre teve como objetivo ajudar a “desenvolver o país as suas gentes” e que “a semente da ambição internacional” sempre esteve presente. Reflexo disso é o crescimento da instituição, disse, recordando que em 1985 a Nova SBE tinha apenas 100 alunos.

O projeto da expansão da Nova para Carcavelos conta com um empréstimo de 16 milhões de euros do Banco Europeu de Investimento (BEI), assinado nesta cerimónia de 8 de setembro. O financiamento surge ao abrigo do Plano de Investimento Para a Europa, também conhecido como Plano Junker, e tem a garantia do Fundo Europeu Para Investimentos Estratégicos (FEIE). Na cerimónia, o presidente do BEI, Román Escolano, lembrou que “embora se associe o BEI a grandes projetos de arquitetura”, a atividade da instituição europeia “é muito mais abrangente”, financiando “projetos que contribuam de alguma forma para o desenvolvimento da economia dos Estados-membros e melhore a qualidade de vida dos cidadãos”.

Para já, a Nova acredita que está no caminho certo, em termos de crescimento mas também de conceito. Pedro Santa Clara, Presidente da Fundação Alfredo de Sousa – criada para realizar projetos para o apoio ao desenvolvimento e funcionamento da Nova SBE, em homenagem a um dos seus fundadores, Alfredo de Sousa – comparou o polo a um “microcosmos da União Europeia” dado o elevado número de estudantes europeus e o rumo é serem “verdadeiramente a escola europeia”.

De todos os continentes

Com o novo campus ainda a um ano letivo de distância, a diversidade já vai muito além do velho continente. De volta aos corredores da Nova SBE encontramos Yvonne Yeung, chinesa de Hong Kong. Tem 20 anos e está a estudar Gestão. Pesquisou outras faculdades noutros países, mas esta foi a sua primeira opção porque “tem tripla acreditação e está muito bem posicionada nos rankings”.

Yvonne começou este ano a estudar em Portugal e está a gostar, mas “o volume de trabalho comparado com o das universidades em Hong Kong é muito diferente. É muito duro”, diz, parecendo concordar com os colegas alemães. Conseguiu colocação através de um programa de intercâmbio, uma outra forma de estudar no estrangeiro.

Encostado à parede, com um olhar curioso, está Muhammad Zoheb Gulam Rassul. É moçambicano, de Maputo, e desta vez conversamos em português. “Tenho 22 anos e estou a estudar Gestão aqui, com uma bolsa do consulado de Moçambique”.

Foi um amigo que lhe falou da faculdade. Disse-lhe que era “muito perfeita” e Muhammad, para já, concorda: “Estou a gostar do ensino e fui muito bem recebido, não tenho nada para reclamar”.

Muhammad entrou em fevereiro e está agora a começar o seu segundo semestre. A Nova SBE também foi sempre a sua única opção, mas também ele reconhece o elevado grau de exigência. “Gostava de ter tempo para outras coisas”, diz, entre risos.

Vivian Hongyan He é de Pequim. Não é novata por aqui – começou agora o terceiro ano –, e escolheu esta faculdade para tirar a sua licenciatura em Gestão. “Uma das minhas irmãs tirou aqui o mestrado e aconselhou-me”, explica. Está a gostar da faculdade e do ensino, mas queixa-se de que não vai conseguir acabar em três anos – vai precisar de mais um semestre, porque no primeiro ano chumbou “a algumas cadeiras”. Não tem qualquer apoio financeiro, é Vivian que está a pagar as propinas por sua conta.

Na sala onde estavam Sarah e Hendrik, mas na mesa ao lado, estão agora duas raparigas, Ikram Mnaffedh e Meriem Mehrez, e um rapaz, Zied Triki. São três amigos tunisinos. Têm 25, 23 e 22 anos, respetivamente, e já se conhecem há algum tempo. Vieram para Portugal juntos, na semana passada. “Ainda estamos a viver num hostel”, confessam.

Ikram está a tirar uma pós-graduação relacionada com Marketing e esta foi a sua primeira opção. “Estou a gostar muito, mas é muito diferente das universidades na Tunísia”, confessa. Acha Lisboa uma cidade muito bonita e as pessoas muito simpáticas. “De certa forma, recorda-nos a Tunísia: o clima é semelhante, algumas ruas são parecidas e até as pessoas o são. Não tenho saudades de casa”.

Zied, por sua vez, está a frequentar o mestrado de Information Systems Management. Destaca o facto de a faculdade estar “bem classificada nos rankings” e diz que esse motivo contribuiu para a escolha. Até agora, está a gostar da experiência.

Meriem seguiu os passos da amiga Ikram e escolheu esta faculdade para tirar um mestrado na área de Marketing. Planeia estar cá durante os dois anos e confessa que Lisboa também pesou na decisão. “What’s better?”, pergunta. O país está na moda e não é só para passear.

 

*Artigo editado por Marta F. Reis