Dino Matross: “Nós não faríamos isso a nenhum português, por respeito à soberania”

Dino Matross, da direção do MPLA, fala na mágoa pelo julgamento público de Manuel Vicente 

O forte protesto da nota de repúdio enviada pelo governo de Angola ao Ministério dos Negócios Estrangeiros português mostra como em Luanda as altas figuras do Estado estão zangadas com Portugal, mas como tudo em Angola, a linguagem formal é mais agressiva que a sua concretização em atos.

Dino Matross, ex-secretário geral e atual secretário para as Relações Exteriores do MPLA, diz ao i que, embora dentro do partido não se tenha discutido a possibilidade de romper as relações diplomáticas – “nunca ouvi isso e sou membro da direção do partido há muitos anos” -, a verdade é que o processo judicial em Portugal contra o agora ex-vice-presidente Manuel Vicente continua a causar mal-estar.

“O Bureau Político [do Comité Central, principal órgão do partido entre congressos] nunca discutiu a questão do Manuel Vicente, isso é um problema judicial, tem outros fóruns onde se tratam essas questões. O que temos dito, sim, é que o Manuel Vicente é membro da direção do partido, foi até há pouco tempo vice-presidente da República, não é na praça pública que se resolvem esses problemas, deve ter-se respeito por essa personalidade”, afirmou ao i.

 Para este veterano político angolano, a questão “não é Portugal, como Estado, são os órgãos judiciais” e a forma como o processo que devia estar em segredo de justiça aparece nos jornais. “Acho que deviam tratar essa questão de outra maneira e não a nível público, publicitar nos jornais, não fica bem para Angola, nem para Portugal nas nossas relações”, disse. "Nós não faríamos isso a nenhum português, por respeito à soberania".

“Se os jornais angolanos começassem a falar mal de um presidente português, as pessoas em Portugal sentiam-se bem? Acho que não. Tem de haver respeito entre nós. Manuel Vicente é inocente. Enquanto não se provar se é criminoso ou não, é inocente e não se pode andar a falar disso em praça pública. E o povo angolano também se sente ofendido”, acrescentou. “Se for criminoso, vai responder por isso, mas há formas de julgar esse caso”.

Sobre a ausência de menção a Portugal no discurso da tomada de posse do novo presidente, João Lourenço, que enumerou vários países como principais parceiros de Angola sem incluir o parceiro português, Dino Matross tentou minimizar o facto, falando em questões de interpretação, por entre algum bom humor. “Nós estamos intrinsecamente ligados a Portugal, temos uma relação muito forte, temos muito respeito pelo povo português”, explicou.

O dirigente do MPLA refere que há em certos círculos uma animosidade para com Angola (citando os casos de João Soares e da eurodeputada Ana Gomes), animosidade essa que se acaba por refletir, por exemplo, na interpretação de que teria havido assobios ao presidente Marcelo Rebelo de Sousa, quando foi apresentado em Luanda, na cerimónia da tomada de posse do novo presidente. Afinal, era uma ovação.

 “Em relação aos outros [chefes de Estado e de governo presentes], foi o mais ovacionado, mas o ‘Expresso’ diz que não, que foi vaiado. Isso não aconteceu, nem podia acontecer. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa é muito querido aqui, esteve na Faculdade de Direito e toda a gente queria tirar uma fotografia com ele”, garantiu.

 Para Dino Matross, há gente interessada em que as relações entre os dois países não estejam bem: “Isso é que magoa muitos de nós”. Na sua perspetiva, a questão é muito simples: “Querem ou não boas relações com Angola?”.

“Tratam-nos como ditadores, onde está a ditadura? O presidente saiu voluntariamente, a Constituição conferia-lhe o direito de candidatar-se e ele deixou o poder por sua livre vontade”, explicou. “Nós somos um Estado novo, uma democracia nova e reconhecemos que temos muita coisa a superar. Uma grande parte da nossa população é analfabeta, não sabe o que é a democracia. Temos de ir devagar, a democracia não se deve impor.” António Rodrigues