Politica

O que vai acontecer ao PSD de Passos?

Figuras com peso no PSD apelam a uma viragem à esquerda, mas os mais próximos de Passos Coelho insistem que o partido não precisa de mudar de rumo 

A discussão mais visível no PSD é sobre os nomes que vão entrar na corrida para a liderança, mas são cada vez mais as personalidades do partido a apelar a que se abra um debate ideológico. “Não quero discutir nomes. O meu problema não é esse. A verdadeira questão é o rumo do partido”, diz ao i o ex-dirigente social-democrata Carlos Encarnação. 

A saída de Passos Coelho torna inevitável que o partido discuta se quer manter a linha dos últimos anos ou fazer uma viragem à esquerda. Rui Rio, que amanhã apresenta a candidatura à liderança, afirmou há um ano que “gostaria de ver o PSD infletir um bocadinho mais à esquerda ou mais para o centro”. Nessa entrevista à RTP, o agora candidato lembrou que, quando aderiu ao partido, o PSD “era um partido de centro-esquerda” e deve “deslocar-se mais a caminho da social-democracia”. 

Santana Lopes, que poderá disputar a liderança com o ex-autarca do Porto, afirmou no início de 2015 que o seu espaço é o centro-direita. No congresso do partido, um ano antes de Passos derrubar Sócrates e chegar ao poder, Santana defendeu que o PSD deve “liderar o bloco de centro-direita, agregando franjas do centro-esquerda, com o CDS no seu lugar e não com o CDS a tentar subir às nossas cavalitas”. 

Efeitos da Geringonça 

A viragem do partido ao centro tem sido defendida por algumas figuras destacadas do PSD. A aliança dos socialistas com os partidos de esquerda reforça a convicção de que há um espaço por preencher. “O PS deixou o espaço da verdadeira social-democracia vazio quando fez essa opção”, diz ao i Guilherme Silva. Para o ex-líder parlamentar, os momentos em que o PSD se desviou das suas raízes “não têm sido felizes”. 

Figuras como Manuela Ferreira Leite, Marques Mendes, Carlos Encarnação ou Pacheco Pereira já se pronunciaram no sentido de que o PSD deve mudar e descolar do espaço que ocupou com Passos. “É preciso recentrar o partido. Foi um disparate deixar o centro para o PS”, afirmou Marques Mendes.

Ferreira Leite também espera que “o próximo líder saiba explorar esse espaço vazio e recuperar a ideologia originária do PSD”. Carlos Encarnação, em declarações ao i, concorda com os dois ex-líderes e defende que “o PSD não pode ser um partido de direita. É um partido nitidamente do centro. Deve desempenhar o papel de fiel da balança que, de outra maneira, acabará por ser desempenhado pelo PS”.

Manter o rumo

A mudança de rumo não é pacífica no PSD. Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais, considera que “o PSD tem todas as condições para manter o seu rumo sem ter de o alterar nessa componente ideológica”. O ex-vice-presidente defende que o partido nunca abandonou a social-democracia e só governou como governou porque o país estava na bancarrota. “O que o PSD teve de fazer foi não aplicar aquilo que eram as suas bases ideológicas, porque acima da social-democracia estava a própria libertação do país.” 

Carreiras admite, porém, que “há um eleitorado que se situa ao centro que se zangou de alguma forma com o PSD por via das medidas que o governo teve de aplicar para continuar a salvar o Serviço Nacional de Saúde, a escola pública, o sistema de justiça e todas as funções sociais do Estado. Foi necessário aplicar medidas para que os nossos financiadores continuassem a financiar. Estamos a falar de uma situação anormal”. 

A dúvida é se o passismo tem os dias contados. Luís Montenegro, uma das figuras que poderiam reclamar essa herança, optou por não avançar. Uma das razões para não entrar na corrida terá sido a excessiva proximidade dos seis anos em que Passos liderou o partido. Montenegro apelou a que “o PSD não fulanize o debate interno e que seja capaz de discutir as ideias e os projetos que deveremos apresentar aos portugueses”. 

Santana, se decidir avançar, será o candidato mais próximo de Passos. No último congresso, há dois anos, elogiou a “maneira de ser responsável e determinada” do ainda líder do PSD. Nesse discurso, as críticas foram dirigidas a Rui Rio, por estar ausente do congresso. Mal sabia que poderia disputar a liderança com ele dois anos depois.