Desporto

Portugal-Suiça. A Luz só falhou em 2004

Para derrubar uma das suas tradicionais bestas negras,a Seleção nacional tinha de jogar no palco predileto. Foi sempre assim nas decisões que acabaram em festa - à exceção daquele maldito 4 de julho, só atenuado pelo tiro de Eder em Paris...

É hoje. Chegou finalmente o dia por que há mais de um ano se anseia: o dia em que fica decidida a qualificação de Portugal para o Mundial do próximo ano, na Rússia. Quer dizer: esperamos nós, obviamente. É que, para o champanhe se abrir, o povo sorrir e a Federação esfregar as mãos com os milhões que vão dar entrada nos cofres (mais o prolongar do estado de graça e acentuar do prestígio próprios de um campeão europeu em título, claro está), será necessário ultrapassar um obstáculo muito, muito duro de matar, qual Steven Seagal num qualquer dos filmes que protagonizou no seu auge na década de 90.

São 21 embates entre portugueses e suíços na história das seleções AA. Seis vitórias lusas, cinco empates e dez triunfos helvéticos - Portugal, refira-se, só ganhou pela primeira vez à quarta tentativa, em 1942. Às mãos dos suíços, Portugal falhou a participação no Mundial 38, no Mundial 70, no Euro 88 e no Mundial 94. Ainda não chega? Claro que não. Nos dois últimos jogos, duas derrotas, ambas em Basileia, ambas por 2-0. A última das quais é precisamente aquela que faz com que a classificação se encontre desta forma: a Suíça com nove vitórias em nove jogos e Portugal com uma derrota (a única em jogos oficiais sob o comando de Fernando Santos) e oito vitórias, à procura daquele triunfo salvador que traga agarrado um bilhete para a Rússia.

Só Scolari chorou na luz

É aqui que entra o palco do encontro. Superstição ou apenas mera questão de planeamento, a verdade é que em toda a história da Seleção nacional tem sido o Estádio da Luz a servir de anfiteatro para as grandes decisões. O recinto do Benfica permitiu festejar já sete apuramentos para grandes competições internacionais, entre os quais as três primeiras presenças em Campeonatos da Europa (1984, 1996 e 2000), todos ainda na velha Luz. Do penálti de Jordão (bem cavadinho por Chalana) frente à União Soviética ao cabeceamento potente de Abel Xavier perante a Hungria, passando pelo mítico pontapé de Rui Costa contra a Irlanda, a Luz foi desde sempre um verdadeiro talismã para as cores nacionais.

E assim se manteve no novo século/milénio: foi ali que António Oliveira festejou o apuramento para o Mundial 2002; que Carlos Queiroz conseguiu chegar ao play-off - e depois superá-lo - para marcar presença no Mundial 2010; e que Paulo Bento celebrou vitória em dois play-offs consecutivos para poder dizer que participou no Euro 2012 e no Mundial 2014.

Faltou dizer aqui um nome, que o leitor facilmente identificará. É verdade: Luiz Felipe Scolari não terá assim tantas saudades da Luz. Além de não ter precisado dela para garantir os apuramentos para o Mundial 2006 e para o Euro 2008, ainda foi ali que viu Portugal sofrer a maior desilusão da sua história, mercê do infame golo do grego Charisteas naquele maldito 4 de julho de 2004.

Curiosamente, nesse Europeu caseiro, a equipa das Quinas até já tinha passado duas vezes pela Luz com distinção: foi ali que voltou à luta pelo apuramento na fase de grupos, batendo a Rússia por 2-0 depois de ter perdido com a Grécia na estreia (1-2, no Dragão), e foi também naquele recinto que superou a Inglaterra, num dos jogos mais épicos de sempre em Europeus - o célebre encontro do golo magistral de Rui Costa, do penálti para o espaço de Beckham, da Panenka de Postiga e de Ricardo a defender sem luvas o remate de Vassell e depois bater David James e espoletar a loucura total.

A partir dessa final, disputaram-se 13 jogos na “Catedral”. Portugal venceu 11 (entre os quais o célebre 4-0 a uma Espanha então campeã europeia em título, e que poucos meses depois viria a sagrar-se também campeã mundial), empatou um e perdeu apenas uma vez, num particular.

Nas apostas já lá estamos

Para as casas de apostas não restam grandes dúvidas: Portugal é amplamente favorito. Seja na Betclic (a vitória portuguesa paga 1,55 euros, com a suíça a valer 5,25), Bet365 (1,65 para Portugal e 6 para a Suíça), 1xbet (1,66 para Portugal e 5,85 para a Suíça) ou o nosso Placard (1,59 para Portugal e 5,35 para a Suíça), todos acham que a Seleção nacional vai, com maior ou menor dificuldade, ultrapassar os suíços e assegurar a presença no Mundial do próximo ano, no que será a décima presença em fases finais consecutivas.

Para Fernando Santos, não há dúvidas: “Portugal tem de assumir algum favoritismo por jogar em casa. O povo português vai empurrar a equipa nos momentos menos positivos.” E Pepe também não as tem, até porque a “bandeira” de Portugal estará de volta à titularidade: assim se dirigiu o central a Cristiano Ronaldo, pois claro. Do outro lado, o mesmo discurso dos portugueses: o jogo de hoje será “uma final” e Ronaldo “pode decidir um jogo em meio segundo”. Uma coisa é certa, segundo Granit Xhaka: a Suíça não vem “defender os 90 minutos”. “Esse não é o nosso estilo. Queremos jogar futebol”, avisou o médio do Arsenal. Role então a bola na Luz.