Sociedade

Spotting. Cada vez há mais gente à caça de aviões em Lisboa

Fotografar aviões está na moda e os locais perto do aeroporto de Lisboa estão cada vez mais concorridos. Portugueses e estrangeiros aproveitam os tempos livres para apanhar modelos novos e alguns metem-se em aventuras para completar as coleções

Por volta das 11 horas da manhã, o calor atípico de outono já se faz sentir e, perto do terminal de carga do aeroporto de Lisboa, o barulho dos aviões é ensurdecedor, mas isso não é um problema para os amantes da aviação. O estacionamento do terminal está cheio, e por ser gratuito durante meia hora torna-se o sítio ideal para visitantes que gostam de apreciar a vista. Entre eles há profissionais e amadores da fotografia, numa moda que parece estar a aumentar na capital: o planespotting.

No passeio, perto do gradeamento verde da pista do aeroporto, estão cerca de seis pessoas com os telemóveis em punho e máquinas fotográficas ao pescoço. Mais afastados estão três amigos, de mochila às costas e com um ar satisfeito, a olhar para o céu na esperança de que chegue um avião peculiar. As t-shirts estampadas com a palavra spotters denunciam--nos imediatamente: já não são novos nestas andanças. Passam a maior parte do tempo com a câmara fotográfica na mão e andam de um lado para o outro à procura do melhor ângulo. Faça chuva ou faça sol, deslocam-se de aeroporto em aeroporto à “caça” de aviões raros e desde crianças que se lembram de ver os aviões, paixão que acabou por saltar para a idade adulta.

Paixão desde crianças

António Leitão, de 49 anos, é gerente de uma empresa de tratamento de águas e nunca se esquecerá de como surgiu o bichinho pelo mundo da aviação.

Quando era pequeno andava sempre com a cabeça no ar a observar os pássaros que voavam de galho em galho, perguntando-se como é que aqueles animais conseguiam tal proeza, mas o que mais o fascinava eram os pássaros metálicos que sobrevoavam a sua casa. “Nessa altura vivia na rota de aproximação do aeroporto da Portela e comecei a interrogar--me como é que os aviões iam ‘para casa’ quando passavam por ali e como sabiam o caminho”, explica.

Intrigado, perguntou ao pai como tudo funcionava e foi ele o que levou a conhecer a chamada “garagem” dos aviões, o terminal que hoje continua a visitar regularmente. “Ri imenso aquando dessa visita: o chapéu do meu tio José voou pela estrada fora, fruto da força do vento provocado pelo avião que manobrava na pista”, conta.

Jorge Sousa partilha a mesma paixão e desde criança que se lembra de brincar com aviões. “Isto vem desde sempre. Sou do tempo em que a gente se sentava numa esplanada, numa varanda do aeroporto, e víamos os aviões”, lembra. Quando era mais novo construía modelos de aviões em miniatura e recentemente dedicou-se ao spotting. Na maior parte das vezes vai até ao aeroporto porque sabe “que vem algum avião especial”, ou então, quando vai buscar o neto à escola, decidem ir observar as aeronaves só por pura diversão.

Alberto Pereira também faz parte do grupo de spotters. Aos 64 anos, está reformado e diz que o que move é apenas o gosto pelos aviões, nada mais do que isso – ao contrário de outros habitués, não trabalha para uma coleção. Sempre que se sente mais stressado ou com algum problema, as aeronaves são o seu refúgio. “Se vier até ao aeroporto e estiver um bocadinho a olhar para os aviões, tudo melhora substancialmente”, resume Alberto, que nisso se assume como um spotter diferente dos demais. “Eu sou um tipo de spotter um pouco diferente, sou mais primário. Não coleciono matrículas, não coleciono aqueles que me faltam, coleciono aquilo que faço”, explica. Ainda assim, está bem embrenhado no mundo da aeronáutica. Tem outras coleções relacionadas com a aviação e faz voluntariado no Museu do Ar.

À caça de aviões na Segunda Circular

Já por volta da hora do almoço, com um sol muito quente, num relvado perto da Segunda Circular, junto a uma bomba de gasolina, estão dois carros estacionados.

Um deles é de Angelo, italiano que conta ter parado por ali para fazer algumas filmagens dos aviões que costumam passar. Tem um boné para combater a falta de sombra e, apesar de não ter uma máquina topo-de-gama, o telemóvel é o suficiente para os vídeos curtos que tenciona fazer. Está acompanhado pela mulher, Maria, que a princípio vinha só fazer-lhe companhia, mas também aproveita para fotografar os aviões com o telemóvel. Mudaram-se para Portugal por causa do trabalho de Maria, mas a paixão veio com eles, contam. E, aqui, a história é outra. Angelo, na casa dos 60 anos, diz ter sido piloto durante 40 anos. Agora, reformado, dedica-se a fazer tutoriais para a internet a explicar “como se processam os voos”. Um hobby que ajuda a matar saudades, diz.

Angelo diz conhecer vários locais de spotting, mas apanhamo-lo no que diz ter sido a primeira vez que parou para apreciar a vista junto à Segunda Circular. Ao lado está Cristóvão Febra. Tem 23 anos e é programador 3D. Desta vez preferiu ficar dentro do carro, abrigado do sol, à espera da passagem dos aviões. Começou a fazer spotting há cerca de um ano, conta. No seu caso, não é uma paixão de criança: foram amigos que já tinham esse hobby que acabaram por o arrastar para o mundo dos spotters, que desde então nunca mais largou.

Viagens Insólitas

Se para alguns é um mero passatempo, há quem acabe por fazer verdadeiros investimentos na arte do spotting. “É uma coleção infindável mesmo para aqueles que viajam bastante pelos mais variados aeroportos, pois todas as semanas existem novos aviões”, explica Carlos Moreira, presidente da Associação Portugal Spotters (APS).

E, por vezes, estas deslocações podem transformar-se em viagens inusitadas ou esperas infindáveis. Antes das tecnologias e aplicações que fornecem informações de onde, quando e a que horas chegam os voos, António Leitão recorda o dia em que esperou cerca de cinco horas por um voo que nunca aterrou. O mesmo aconteceu a Carlos Moreira, que chegou a estar mais de seis horas num aeroporto e o avião que esperava acabou por nunca aparecer.

As memórias de deslocações para fora do país ou até ao aeroporto guardam também alguns momentos insólitos. Numa das vezes em que Jorge Sousa decidiu ir à Madeira fotografar aviões, com os seus amigos, nem sequer chegou a aterrar devido ao mau tempo. Saíram de Lisboa no avião, de manhã, e, quando lá chegaram, o “avião deu duas voltas” e voltou para a capital. Mas nem esse inconveniente o desanimou. “Quem corre por gosto não cansa”, diz.

Carlos Moreira lembra que a maior peripécia da sua vida de spotter foi ter andando um dia no meio de “entulho, lama e arbustos” para chegar ao sítio ideal para tirar a fotografia perfeita junto ao aeroporto de Lisboa. Já António Leitão teve o seu acidente de percurso em Madrid, num dia em que, à procura do local certo no meio de um caminho cheio de cabras, acabou por avariar o carro.

Cada vez mais adeptos

Os contratempos parecem fazer parte do hobby e não diminuem o entusiasmo, que vai passando entre amigos e gerações. Carlos Moreira resume o sentimento: “O homem sempre foi fascinado pelo voo e, para algumas pessoas, esta é uma maneira de apreciar um dos maiores feitos do homem: voar.” O presidente da associação de spotters conta que, muitas vezes, encontram famílias junto ao aeroporto que vêm apenas apreciar as aeronaves. Já no caso de quem leva o passatempo a sério, há vários objetivos, como colecionar matrículas de aviões e fotografias de modelos que ainda não têm.

Quem anda nestas andanças há muito tempo tem também locais preferidos de observação. Para Carlos Moreira, nada bate “a cabeceira da pista 03, que fica junto ao terminal de carga do aeroporto de Lisboa”, refere, pois, normalmente, esse local tem uma boa luz para fotografar ao fim do dia. O relvado junto à Segunda Circular também é um local muito frequentado e, mesmo durante a semana, chega a haver várias pessoas munidas de máquinas fotográficas e até cadeiras, prontas para entrar em ação.

Quando é esperado um avião “raro”, normalmente, a afluência aumenta. “Se vem um daqueles aviões que nunca cá vieram ou que vêm cá raramente, vem a trupe toda”, explica Jorge Sousa. Carlos Moreira dá um exemplo de um desses modelos por que aguardam ansiosamente. “Aquele que, para mim, é um objetivo principal é o Lockheed Super Constellation da Super Constellation Flyers Association. Porém, neste momento está a ser reparado e espera-se que volte aos céus em 2018.”

Mas há outros momentos em que a procura dispara. Quando está previsto chegar um avião de uma equipa de futebol ou com uma pintura diferente, com um famoso a bordo ou um modelo novo, os sítios de spotting podem chegar a ter cerca de 50 a 60 pessoas só para captarem esse momento.

Atualmente a Associação Portugal Spotters conta com 238 associados, número que tem aumentado. Carlos Moreira acredita que o facto de procurarem divulgar o hobby junto das entidades aeronáuticas e, por vezes, conseguirem assim oportunidades para convívios e visitas a aeroportos e outros locais relacionados com a aviação, são alguns dos fatores que contribuem para uma maior mobilização.

Uma das experiências que mais marcam Jorge Sousa é, por exemplo, fotografar em voo, e uma vez teve a oportunidade de poder fazê-lo no cockpit. “É dois em um, tiramos a fotografia e estamos a voar, e o mais giro disso tudo é estar com o pés lá em cima a voar e termos ideia de como se opera o avião.”

Tal como os amantes deste hobby, também o tráfego aéreo em Lisboa tem crescido substancialmente e o aeroporto já se encontra no seu limite máximo de movimentações. A cada hora aterram e descolam 42 aviões na capital e, em 2016, 44,477 milhões de passageiros visitaram os aeroportos nacionais – desse total, 22 milhões na capital.

Desde 2013 que o tráfego aéreo dos Aeroportos de Portugal (ANA) cresceu ao ritmo mais elevado da Europa e, no ano passado, foram investidos 69,2 milhões de euros para melhorar a experiência dos passageiros que passam pelos aeroportos portugueses. Em 2016 operaram 66 companhias aéreas nos aeroportos nacionais e foram criadas 27 novas rotas, com um total de 149 destinos.

O espaço do aeroporto de Lisboa começa a ficar reduzido para a grande movimentação e, em breve, parte do tráfego deverá passar para o Montijo – pelo menos é esse o plano do governo, que já admitiu que a construção do novo aeroporto poderá arrancar em 2019. Por agora, Lisboa continua a ser o melhor spot para fotografar aviões no país.

*Texto editado por Marta F. Reis