Economia

Sindicato aponta falha de 500 tripulantes na TAP

Companhia aérea nacional prepara-se para contratar cerca de 300 trabalhadores até ao final do ano e acena com a contratação de mais 400 já no próximo ano.  

Para manter o atual número de voos, a TAP precisa de mais 500 tripulantes de cabine. O alerta é feito ao SOL pelo Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), um número fica aquém do que foi prometido pela companhia área, que aponta para 300 novos trabalhadores – 200 já foram formados desde o início do ano e prevê contratar mais 100 até ao final do ano. Para Lucinda Passo, presidente do SNPAV, esta é a resposta necessária para evitar as situações que ocorreram durante este verão em que a tripulação era insuficiente para assegurar a habitual distribuição de refeições, assim como o serviço de bordo. «Foram aumentadas as frequências de voo, mas não foram aumentados os números de tripulantes. A maioria dos voos contava com os elementos mínimos de segurança», afirma.

Contactada pelo SOL, a TAP garante que está a planear «contratar cerca de 400 novos tripulantes de cabine em 2018, consoante as necessidades de crescimento da companhia no próximo ano, na sequência do reforço de frota que está previsto. A TAP também estima contratar cerca de 170 pilotos até o final do ano de 2018».

Esta preocupação foi um dos temas que esteve em cima da mesa na reunião com o secretário de Estado das Infraestruturas, Guilherme d’Oliveira Martins, realizada recentemente, em que o sindicato saiu do encontro com a promessa de que iria ser realizada em breve uma assembleia-geral de acionistas (AG). «O planeamento dos tripulantes está mal feito, faltam trabalhadores e se nada se fizer os problemas vão continuar ou mesmo agravarem-se», confessa a responsável.

No entanto, este tema não será debatido no encontro. «Existe um plano específico para esta matéria em concreto, pelo que a mesma não constará da agenda da próxima AG», garante a empresa. A TAP vai mais longe e diz mesmo que estas questões fazem parte «da gestão corrente de uma companhia aérea, não sendo a TAP exceção. Como tal, não são debatidas com o Governo».

A dirigente sindical diz ainda que não houve uma «maior crise» no período de verão porque muitos dos tripulantes acabaram por abdicar de dias de folgas e férias para evitar cancelamos de voos. Luciana Passo lembra, no entanto, que a TAP já tinha sido alertada para este risco em março, mas, na altura, garantiu que «não iria haver qualquer problema».

Uma situação que será mitigada, segundo a TAP, com a entrada dos novos tripulantes. Em relação às sugestões dadas pelo sindicato para combater a falta de trabalhadores, a companhia aérea diz apenas que «envolviam contrapartidas que inviabilizariam a operação da companhia». A empresa acrescenta ainda que propôs soluções para flexibilizar o acordo «que incluíam compensação financeira significativa aos tripulantes e que não foram aceites pelo SNPVAC».

O que é certo é que esta necessidade de mais 500 tripulantes poderá ser rapidamente ultrapassada já em janeiro quando for conhecido o plano de exploração para 2018. «Geralmente o plano é conhecido em novembro e, nessa altura, ficamos a saber quais os voos previstos. Se assistirmos a um aumento das rotas e dos voos então terão de ser contratados mais tripulantes. Não é preciso conhecermos o plano fechado porque admitimos que durante o ano tenha de sofrer ajustes e adaptações», refere. O sindicato já pediu uma reunião com a administração da TAP para saber o que está previsto para o próximo ano, mas até à data ainda não houve resposta.

Luciana Passo admite ainda que os problemas que existem atualmente na TAP ganharam novos contornos após a reversão da privatização da TAP por parte do Governo de António Costa, devolvendo ao Estado 50% do capital da companhia aérea. «Não se deixou implementar o plano que estava previsto após a privatização e a TAP ficou sem rumo. Não é a companhia que se conhecia, mas também não é uma low-cost. É preciso redefinir a sua estratégia», salienta.

Falhas repetem-se

A verdade é que a falta de tripulantes tem trazido várias consequências. Muitos dos voos que têm sido feitos pela companhia aérea não têm refeições a bordo e já houve uma ligação cancelada.

Com o pico do verão, voltou o velho fantasma: os serviços mínimos de segurança. Desde julho deste ano que pagar um bilhete a contar com refeição a bordo incluída não implica que seja servida. Há cada vez mais passageiros a viajar sem refeição e as queixas têm-se multiplicado.

Para o SNPVAC, cabe à empresa assegurar o número de tripulantes necessários para que o trabalho seja feito sem comprometer o descanso previsto no calendário de viagens. Mas o número de novas contratações que a TAP tem avançado parece ficar muito aquém das necessidades da empresa.

Numa carta enviada aos tripulantes da companhia nacional, Fernando Pinto, presidente executivo, sublinhou que a transportadora aérea nacional está, desde maio, em processo de contratação «acelerada» e garante que, «no curto prazo, teremos admitido um total de cerca de 340 tripulantes de cabine».

Em questão não está apenas o serviço que é prestado durante o voo. Já aconteceu, no início deste mês, mais de 200 passageiros ficarem em terra por falta de tripulantes. O voo em questão, que partiria pelas 17h00 com destino a Fortaleza, no Brasil, foi cancelado. A explicação dada pela companhia aérea falava de «razões operacionais». Em causa estava a falta de tripulantes.

O cenário é ainda pior tendo em conta que o número de contratações necessário diz apenas respeito à operação deste ano. Tendo em conta o aumento do número de operações, até porque a TAP se prepara para receber quatro novos aviões, o número de tripulantes em falta será ainda superior.

Polémica com aviões

Para o Sindicato é importante ressalvar que vieram dois aviões da Azul, que tiveram de ser adaptados porque não cumpriam com os mínimos necessários para os tripulantes, mas já foram devolvidos. Falamos de dois Airbus A330-200 que entraram ao serviço da TAP em junho do ano passado, emprestados pela companhia de David Neeleman, mas que vão voltar para a transportadora brasileira antes do prazo que tinha sido acordado. Os aviões deviam ficar na TAP até 2018 e 2019, mas a Azul pediu para que fossem devolvidos mais cedo para poder reforçar a oferta da companhia. Em resposta ao SOL, a companhia explica que «apenas houve ajustes menores para adaptar os aviões aos requisitos EASA/Portugal/TAP» e acrescenta que «foram devolvidos antecipadamente à Azul porque a TAP necessitou de obter em alternativa os A330-300, que são aeronaves maiores e mais adequadas para responder à crescente procura».

Agora, a companhia nacional alugou outras três aeronaves à Singapore Airlines, que exigiu que viessem quatro. No entanto, esta operação para ter mais aviões significa mais dinheiro a pesar nas contas da empresa e mais ligações. Mas para que possam ser feitas é necessário que exista a mão de obra necessária.

Além disto, o SNPVAC alerta para o facto de muitos aviões não terem as características necessárias para que a TAP possa assegurar o serviço a que habitou os passageiros, mesmo que a empresa ajuste o número de tripulantes. «Para terem mais lugares, há aviões que não têm espaço para os carros ou até fornos para as refeições quentes».

Num vídeo, a que o SOL teve acesso, o anunciado novo presidente da Azul, John Rodgerson, admite que a transportadora conseguiu ultrapassar «os dois anos mais difcíeis que a Azul já passou» e promete fazer a empresa crescer. Para isso, a companhia aérea admite que vai apostar em mais aviões A320 porque «estão a funcionar bem e a queimar menos combustível» que os Embraer: «O que o David [Neeleman] quer é antecipar mais 320». Acontece que são exatamente alguns destes aviões que têm vindo para a TAP. Logo que a TAP Express arrancou ficou a saber-se que a empresa ia contar com uma frota de 17 novos aviões fornecidos pela Azul, em regime de leasing, numa operação avaliada em 400 milhões de euros. A ideia era que, até ao verão do ano passado, a TAP recebesse oito ATR 52 e nove Embraer. Por esta altura, Fernando Pinto explicava: «A Azul tem uma frota enorme destes aviões e tinha disponibilidade de mercado para cedê-los».