Sociedade

EDP desmente ter responsabilidades no incêndio de Pedrógão Grande

Relatório de Xavier Viegas diz o contrário.

A causa principal do incêndio de Pedrógão Grande, que em junho ceifou a vida a 65 pessoas, foi o contacto entre um cabo elétrico da EDP com a vegetação. “A causa está ligada ao contacto entre  uma linha elétrica que foi mal mantida, que não teve o devido cuidado, e a vegetação em sua volta, que não foi limpa”,  disse ao i o especialista em incêndios Domingos Xavier Viegas que ontem entregou ao Ministério da Administração Interna o relatório que analisa as causas e os procedimentos adotados em Pedrógão.   

Desta forma, a EDP, que teve uma “deficiente” manutenção dos cabos elétricos e da vegetação, terá responsabilidade no início do incêndio de Pedrógão Grande. 

Esta é uma das conclusões do relatório coordenado por Domingos Xavier Viegas que durante os últimos quatro meses trabalhou com 15 investigadores da Universidade de Coimbra. 

O documento vem assim rejeitar a tese que tem sido avançada pela PJ que apontou o início do incêndio à queda de um raio durante uma trovoada seca que se fez sentir na região. Para os investigadores da Universidade de Coimbra a trovoada apenas esteve relacionada com a propagação do incêndio, não tendo sido a causa inicial. 

Os peritos aproveitam ainda o relatório para alertar que “a falta de manutenção das faixas” da EDP faz com que existam ao longo de muitos quilómetros de linhas “pontos ou zonas em que a distância entre os cabos e a vegetação é inferior à requerida” de forma a evitar que “em dias de vento o movimento dos cabos e da vegetação não dê origem a toques entre ambos, que podem originar descargas elétricas e causar incêndios”.  

Em resposta, o presidente do Conselho de Administração da EDP Distribuição refuta estas conclusões e garante que a linha elétrica estava com a proteção “bem constituída”, dizendo à Lusa que ficou “surpreendido” com os resultados do relatório. 

Falhas e responsabilidades

Para Xavier Viegas, as “entidades que falham na manutenção e na prevenção têm de ser perseguidas”. O especialista lembra que se fala muito dos incendiários mas há entidades “que não cuidam e não fazem aquilo que deviam fazer na prevenção”. No caso do incêndio de  Pedrógão é exemplo disso a EDP ou a Estradas de Portugal pela “falta de limpeza da envolvente nas estradas” fazendo com que “muitas pessoas fossem colhidas em plena fuga” do incêndio. O especialista apontou ainda que há “autarcas que não fazem os seus planos municipais de prevenção”.

Sobre o combate às chamas, o relatório de Xavier Viegas salienta que tanto os meios disponíveis como o comando operacional da Proteção Civil “não se mostraram suficientes para controlar” o incêndio. Cenário que se agravou “a seguir à notícia das mortes” quando “houve uma comoção na cadeia de comando que impediu ou dificultou todas as ações de socorro”, disse ainda Xavier Viegas ao i. Além disso, o relatório frisa que “se poderiam ter evitado algumas mortes e muito sofrimento aos feridos” caso o socorro “tivesse sido mais pronto e melhor organizado” e que a tragédia de Pedrógão evidenciou que “o nosso sistema de emergência não está preparado” e é “insuficiente” para dar resposta a estas situações.

Entre as várias críticas e recomendações, o relatório frisa ainda a falta de formação e de preparação dos bombeiros e dos comandantes da Proteção Civil. “É importante haver uma boa qualificação dos recursos humanos que estão no comando, no sentido de que haja uma maior uniformidade nos quadros de comando. Os cidadãos portugueses deviam poder, perante uma ocorrência qualquer, saber que vão ser sempre socorridos”, remata Xavier Viegas. O relatório recomenda por isso um “grande cuidado na seleção dos quadros” da Autoridade Nacional da Proteção Civil e dos bombeiros cuja profissionalização deve ser reforçada. 

Com o “muito que há por fazer” em Portugal para evitar incêndios de grande dimensão, o especialista vaticina que o país “é muito vulnerável a estas situações” e que, por isso, “temos de estar preparados para que estes incêndios se possam repetir”, prevê.