Sociedade

O dia em que o inferno passou por Fátima

O fumo no ar é denso e ninguém sabe onde se esconde o fogo. “O problema é mesmo esse”, confessam populares e bombeiros. O fogo esteve às portas de Fátima, mas acabou por ceder.


Da autoestrada 1, a caminho da região Centro do país, é impossível distinguir se o céu cinzento se deve às nuvens ou ao fumo dos muitos incêndios que assolaram o país durante os últimos dias. Só ao quilómetro 109 é que se consegue distinguir o cinzento azulado do cinzento mais escuro que vem dos cogumelos de fumo que vão surgindo do chão. No céu, o sol é cor de laranja, o chão fica branco da cinza e o ar cheira a queimado. A A1 está rodeada de eucaliptos queimados e chão a fumegar. Subsistem vários focos de incêndio e as populações ainda não estão descansadas.

A caminho de um dos focos de incêndio passamos pelos bombeiros de Coruche que, visivelmente cansados, nos confessam que estão a trabalhar há mais de 15 horas. Nas aldeias em redor de Fátima, as pessoas reúnem--se na rua sem saber se estão em perigo ou não. O fumo é tão denso que é impossível saber onde anda o fogo.

À porta de casa, Maribel e Júlio conversam, apreensivos. “Claro que estamos preocupados, queremos saber onde anda o fogo e não o vemos”, diz Maribel. Mas esta não é a primeira vez que a zona se vê a braços com esta situação: “Já no último mês, por quatro vezes tentaram pôr fogo aqui.” “Cuidado! Não se metam para aí onde não conhecem!”, aconselha Júlio.

À medida que nos aproximamos de Moita do Martinho e de Crespos, aldeias que estiveram a tarde toda em perigo de serem consumidas pelas chamas, o movimento de carros da GNR e viaturas dos bombeiros é crescente. As sirenes ouvem-se ao longe e as luzes de emergência dos carros de bombeiros são a única coisa que se vê. O fumo é tão espesso que só sabemos que andam helicópteros na zona por causa do barulho – olhando para cima, não se consegue perceber a existência de meios aéreos.

Na aldeia de Crespos, os bombeiros ainda têm trabalho pela frente. São 17h do dia 16 de outubro e estão 28 graus Celsius. “Felizmente, não há vento”, suspira um dos bombeiros enquanto monta a mangueira num dos carros de bombeiros, preparando-o para o combate às chamas que estão uns metros abaixo.

“Já estamos aqui desde a noite passada”, diz um dos bombeiros de Leiria. “O problema, aqui, é que a mata é muito grande e não há acessos”, confessa. “Mas isto agora está mais calmo”, afirma um militar mais descontraído, enquanto troca mensagens com os colegas no intercomunicador. “Agora só arde mato, está calmo.”

Mais à frente há um grupo grande que se aglomera junto a um pequeno posto de controlo improvisado. Carlos, Luís, António e José conversam sobre a situação, claro. “Nós somos todos aqui, dos Crespos”, dizem quase em coro. “Presentemente, não estamos muito preocupados. Este aqui já deve estar quase controlado”, diz António, referindo-se ao fogo que acabou de ser dado como controlado a alguns metros.

A situação é nova para este grupo. São dos Crespos, mas não se lembram de dias como estes. “Isto há sempre alguns que tentam meter aqui uns fogos, mas nunca conseguem. Aqui é a primeira vez que vemos incêndios desta dimensão”, refere Carlos, preocupado. “Já aqui estou há 50 anos e nunca aqui chegou fogo nenhum como este”, completa.

“O pior é que não se consegue ver de onde vem o fogo por causa do fumo. Agora, o pior é o que vem dali”, diz José, apontando para trás, onde se consegue perceber mais uma nuvem de fumo. “Agora, as nossas casas não estão em perigo, mas qualquer coisa pode pegar fogo, nunca estamos totalmente descansados”, acrescenta.

As causas não são claras: “Isto pode ser qualquer coisa, pode ser algum maluco que se tivesse lembrado de puxar fogo a isto, pode ter sido alguém que ia a fumar no carro e deitou alguma beata pela janela, pode ter sido algum peregrino que vá para Fátima e que tenha feito uma fogueira e não a apagou, pode ter sido muita coisa…”, diz Luís. “Isto está tudo seco e qualquer coisinha pega fogo”, explica. “Ainda ninguém pediu que abandonássemos as nossas casas, por isso vamos manter-nos por aqui”, diz António ao ver passar mais um carro da GNR.

Mesmo às portas de Fátima há outra ocorrência, mas já está em fase de resolução. Os bombeiros foram obrigados a descer uma encosta para se certificarem de que a situação não evoluía negativamente em direção à cidade. “Já está apagado, já está apagado”, responde prontamente um dos bombeiros que tinham acabado de estancar o foco.

A caminho de Pataias, outra das aldeias da região de Fátima assoladas pelas chamas durante este domingo e segunda-feira, as estradas já estão todas cortadas. É impossível passar pelas vias junto à aldeia. Já de noite, só se veem as luzes azuis da Guarda em cada intersecção.

O fogo continua a arder junto à aldeia. Só arde o mato, e agora, como é de noite e o tempo está bem mais fresco do que durante a tarde, não se prevê que a situação piore. Junto às piscinas de Pataias, a situação esteve complicada durante a tarde, mas agora está tudo mais calmo.

No quartel de bombeiros é onde a solidariedade mostra a cara. Há mesas estendidas ao longo do quartel e há pão, águas, maçãs, bolos, sumos, frango assado e canja em cima da mesa. Acabou de chegar uma carrinha cheia de mantimentos para os bombeiros, “tudo organizado através do Facebook”, explica Daniel Bajuco, um dos anfitriões.
À mesa estão sentados populares, bombeiros e militares da GNR. “Houve uma grande ajuda da população. Há tanta ajuda que agora até estamos a dispensar mantimentos para outras corporações dos bombeiros de Pombal e Marinha Grande”, acrescenta.

“Foram dias complicados, o tempo não ajudou. Houve uma grande falta de meios, é verdade, mas agora está tudo mais calmo. Agora temos de fazer o rescaldo e estamos a encontrar dificuldades em encontrar pessoal para esse processo”, confessa Telmo Moreira.

Num ambiente mais descontraído, ouvem-se comentários que dizem que “o pior já passou”. “Nunca se sabe o que pode acontecer durante a noite”, diz uma senhora mais cautelosa, sentada à mesa.