Cultura

Na hora da morte de Van Gogh

Mais de 100 artistas para mais de 60 mil telas a óleo que, para lá de dezenas de obras do pintor holandês, recriam a sua vida – e o mistério em que está envolta a sua morte, aos 37 anos. Eis “A Paixão de Van Gogh”, o primeiro filme de animação totalmente pintado à mão

Na hora da morte de Van Gogh

“A tristeza durará para sempre”, terá dito Van Gogh ao seu irmão, Theo, mesmo antes de morrer, 30 horas depois de, na versão da sua morte que ficou para a história, um suicídio, se ter alvejado no peito. De saúde débil, Theo, colecionador de arte que era quem apoiava financeiramente o irmão pintor em luta pelo reconhecimento, haveria de morrer seis meses depois. Conhecida é a correspondência que trocavam. E dias antes de morrer Vincent Van Gogh tinha-lhe escrito mais uma carta, que seria a última sem que nela se vissem sinais disso.

Depois da morte, pouco convencido com a versão do suicídio, Joseph Roulin – o carteiro que pintou num dos seus retratos e com quem estreitou amizade em Auvers-sur-Oise, onde viveu nos seus últimos meses, pede ao seu filho, Armand, que vá entregar em mão a Theo essa última carta que Van Gogh lhe tinha escrito. Pouco convencido, parte nessa missão para vir a descobrir que Theo tinha afinal morrido também, e aí inicia uma série de encontros com aqueles que se cruzaram com o artista na última fase da sua vida – e quanto mais histórias ouve, mais se convence das razões que levaram às suspeitas do seu pai.

A quem entregaria então essa última carta, se todos lhe parecem potenciais culpados – será esta já a história de “A Paixão de Van Gogh” (“Loving Vincent”, no título original), que estreou este ano no Festival de Animação de Annecy e chega agora às salas portuguesas como a primeira longa-metragem de animação pintada à mão, em telas a óleo, com a colaboração de mais de uma centena de artistas liderados por Dorota Kobiela, artista e realizadora polaca, que começou já há dez anos a pensar num projeto bem menos ambicioso do que aquele em que “A Paixão de Van Gogh” se tornou. “Pelo meu passado ligado à pintura – estudei Belas Artes antes de realização – tinha a ideia de fazer uma curta de animação pintada a óleo”, conta ao i num evento de apresentação do filme na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa. “E ao começar a pensar nisso, em contar a história de um artista através do seu trabalho, teria que ser com o Vincent.”

Vincent

Refere-se a Van Gogh como Vincent, sempre, como passou a fazer o produtor Hugh Welchman, que conheceu nesse processo e que a acabaria por convencer a transformar a curta numa longa-metragem de uma hora e meia, realizada pelos dois num trabalho que se prolongou por seis anos, em três fases de produção: as filmagens com os atores, a edição e efeitos visuais e o processo de pintura, frame a frame, de mais de 60 mil quadros para uma animação a 12 frames por segundo, em que são recriadas 94 das obras do pintor, algumas delas adaptadas para o formato horizontal.

Só para a primeira cena do filme, por exemplo, em que são recriadas “A Noite Estrelada” (1889), “Terraço do Café à Noite” (1888) e “O Zouave” (1888), foram necessárias 729 pinturas – entre tudo o que foi pintado e repintado chegaram ao fim do processo com perto de mil telas a óleo desses mais de 100 artistas que num intenso processo de trabalho procuraram recriar o estilo de Van Gogh. “Quando se vê o filme percebem-se algumas diferenças”, diz-nos Dorota, que vê também nesse lado artesanal parte da riqueza de um trabalho a tantas mãos. “Dessas mil, em boas condições estão 600, porque muitas delas foram usadas muitas vezes.” Parte delas continuará em exposições, duas centenas foram postas à venda ainda durante o processo no site do filme como forma de financiamento – e parte delas está ainda disponível para venda.

Mas não será todo no mesmo registo e a cores este filme em que os flashbacks a um passado que Van Gogh, que iniciou a sua carreira como pintor apenas aos 29 anos, não pintou são recriados a preto e branco, ao estilo das fotografias de época.

Mas falta a história, que Welchman explica que, nesta animação entre o biopic e um quase policial, se condensou nas últimas dez semanas de vida de Van Gogh. Não por decisão inicial, que o princípio foi uma seleção de obras que queriam reproduzir, que os levaram às personagens para a partir daí perceberem que tudo iria dar a esse trágico fim, aos 37 anos. “Sabíamos que queríamos usar uma série de retratos” – explica Kobiela – “e quando começámos a ler sobre essas pessoas, na pesquisa, foram elas que nos conduziram a estas últimas semanas de vida. Estava tudo ligado.” Muitos deles fizeram declarações sobre Van Gogh após a sua morte, acrescenta Welchman.

“Declarações que se contradizem umas às outras, portanto ou alguém está a mentir ou alguém está a recordar mal o que aconteceu.” Daí para esta espécie de investigação policial a que foi dar o filme foi menos de um passo. “Porque há um mistério natural aqui – e a biografia publicada em 2011 [por Steven Naifeh e Gregory White Smith, “Van Gogh: The Life”] traz de volta essa versão de que foi alvejado, de que não foi um suicídio. Nessa altura estava a começar a ficar conhecido, os jornalistas começaram a aparecer e há esse rumor de que terá sido alvejado por uns rapazes de Paris. Não há provas disto, mas esta narrativa ajuda a resolver algumas questões por clarificar na história”, explica o produtor e realizador. “Então fizemos o papel de detetives, começámos a investigar entre os arquivos do Museu Van Gogh. Quem disse o quê e o que contradiz o que vem nas cartas. Por exemplo, o [Paul] Gauguin falou duas vezes sobre isto e disse coisas completamente diferentes, que se contradizem. Foi a partir daí que achámos que devíamos fazer uma história de investigação e essa foi a razão para viajar por estes lugares. Pareceu-nos o caminho ideal para fazer uma viagem, através das suas pinturas, pela sua vida, colocando em perspetiva a sua morte.”

Respostas não têm, contudo. “Acho que é necessária mais investigação. O Museu Van Gogh centra-se sobretudo na sua obra e na relação entre ela e as suas cartas. Mas definitivamente há uma vontade no mundo para se descobrir o que realmente aconteceu.”

 

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