Politica

PSD. O meu nome é Pedro Santana Lopes

Santana apresentou projeto, desafiou Rio para debates e defendeu Marcelo

O discurso foi de uma hora e contou uma história de mais de quarenta anos. Na sua apresentação de candidatura a líder do PSD, ontem em Santarém, Pedro Santana Lopes não fugiu do passado – nem do seu, nem do passado do seu partido. Relatou ambos, entrelaçados, e explicou porque quer fazer deles uma “nova base” para futuro. “Quero um partido adequado ao tempo dos que vivemos. Juntar os novos talentos, agregar valor”, prometeu.

A sala, larga e com os tapetes em laranja, contou com cerca de mil pessoas. Setecentos lugares sentados, trezentos, muitos jovens, em pé. O hino social-democrata escutou-se na espera. O anunciante, no microfone, era o mesmo que apresentava Pedro Passos Coelho nos comícios da campanha deste verão e não foi o único rosto familiar. (ver página 4).

Santana foi interrompido 21 vezes, sempre por aplausos, e três vezes levantou a sala antes de terminar. “Se eu tirar o casaco, não me levem a mal”, brincou. Havia muito por dizer. “Clarificar” era o verbo de ordem. “O meu nome é Pedro Santana Lopes”, a frase que marcou o compasso final.

Depois de um já antigo congresso em que prometeu que iria “andar por aí”, Santana diz que hoje “está aqui”. Quer unir o partido, como diz o mote da campanha, mas com intergeracionalidade. “O futuro é construído por todos”, incentivou os jovens.

A retrospetiva foi longa e começou “sem medo”. “Aprendi em 2004 e 2005 que a legitimidade do voto não se herda, conquista-se”. Não comparou, ou prometeu que não compararia, “os factos que se seguiram”, depois do “golpe de Estado” que fez com que deixasse de ser primeiro-ministro há doze anos, quando Jorge Sampaio dissolveu a Assembleia e depois José Sócrates venceu as eleições para o PS de ambos. “Quem ganharia uma eleição contra um golpe de Estado?”, argumentou no mesmo tema.

“Outros acontecimentos posteriormente [aconteceram] e à espera de julgamento [hoje]”, também não foram comentados, mas aludidos, num momento em a sala irrompeu em palmas. Foi como se Santana dissesse o que já transbordava, que os ‘laranjas’ queriam ouvir. “Não vou comparar quem veio a seguir [a Sócrates e está] no governo atual”, novamente não comentando, mas aludindo na ferida.

“Nós somos um partido com cara, com história” e Santana Lopes não quer um partido “com vergonha” dessa história – como “o trabalho de salvação nacional” do governo de Passos Coelho – porque um PSD “com vergonha” dessa história seria um “partido sem vergonha”.

A retrospetiva servia também outro propósito. “O que digo agora é o que sempre disse. Não o digo por entrar em campanha agora para a liderança do PPD/PSD”, e isso sustentou as várias linhas programáticas e políticas que depois apresentou. Fez pontes entre o que propõe e o que antes defendeu, em jeito de atestado de coerência ao seu próprio percurso. “Venho assumir quem sou, o que fui e o que vou continuar a ser”. Contra o Bloco Central como antes fora, no tempo da Nova Esperança.

E nada a ver, ainda pelas alusões, com o seu adversário, que foi somente nomeado uma vez quando recordou as vitórias autárquicas do PSD de Durão Barroso que levaram à demissão de Guterres, em 2001. Rio, no Porto; Seara em Sintra; Santana em Lisboa. Contra Rio – o “meu adversário” – o enxovalho foi vasto, tanto para o ex-presidente da Câmara do Porto como para José Pacheco Pereira. “Nunca fui para a Aula Magna fazer sessões com o Bloco de Esquerda; nunca fui para a Associação 25 de Abril ouvir elogios de Vasco Lourenço, quando o PSD salvava o país da bancarrota”. Santana apelou inclusivamente às distritais que organizassem debates entre si e o seu adversário, na referida missão “de clarificar”.

“O meu partido não se entrega àqueles que quando o partido mais precisava dos seus militantes foram dar a mão aos seus adversários”, disparou mais uma vez. “Quando o partido precisa de mim, eu estou presente. Não estou presente só quando eu preciso do partido”.

Arrumadas essas contas, passou-se para a ‘geringonça’. Santana Lopes refez todo o dicionário do cenário político contemporâneo. A ‘geringonça’ passou a “frente de esquerda”, o governo passou a “governo em funções”, o PSD passou a PPD: “Mais popular, mais junto das pessoas”. O antigo provedor da Santa Casa quer respeito pela “identidade, ideologia e pelo programa”: um “Partido Social Democrata não vindo do marxismo, mas do personalismo e do liberalismo nas áreas em que os assumimos”.

Para Santana, a partir do momento em que Costa “bipolarizou para governar à esquerda”, tem de assumir as “responsabilidades e consequências inerentes”. A maioria parlamentar sustenta uma solução de governo “anacrónica”. “Este governo é mau para o país. Há que mostrar aos portugueses que há melhor, bem melhor”.

“Consolidação orçamental? Com certeza, mas Portugal não se pode fechar em folhas de Excel e em resignações”, defendeu depois, numa tirada que serviria qualquer dos últimos governos. A alternativa é “reformista”, aí como Passos, mas também “patriota” e focada na “solidariedade social”. O candidato a presidente do PSD não hesitou mesmo em pedir “uma forte presença do Estado na saúde, na educação e na segurança social”.

“Não sou o tipo de líder sempre zangado, crispado, que se aborreça com as notícias do país. Quando chegarem boas notícias para Portugal verão um sorriso no meu rosto”, descreveu-se.

Escutou-se também a vontade de voltar a ser primeiro-ministro. Primeiro com a memória histórica de Sá Carneiro e Mário Soares que também perderam eleições antes de voltarem a ganhar; depois com a memória presente. “Falarei com May, como falei com Tony Blair; falarei com Rajoy como falei com Zapatero”, disse sobre os líderes europeus que são até mais velhos que ele. “Macron é um caso à parte, mas tem também quem de uma idade mais avançada sempre a seu lado” e a sala descomprimiu com humor entre os temas sérios. 

Regressando à juventude, falou já de programa, em “plataforma participativa”. “Voar mais alto. Um partido com as empresas, sim; mas das universidades, sempre” porque “não há sociedade que evolua sem procurar saber”.

Em relação à disposição do partido, adiantou que “o líder do partido não tem que falar todos os dias, nem todas as semanas”. “Isso é ridículo. Quero líderes por área, novos protagonistas”, esclareceu, projetando que cada uma (Segurança Social, Administração Interna, Educação, etc.) tenha um porta-voz específico no seu PPD/PSD. 

Perto da conclusão, deixou um elogio forte a Marcelo Rebelo de Sousa. “O PPD deve sentir orgulho de Portugal ter o Presidente da República que tem” porque, para Santana, cabe também ao Presidente “ser a voz da consciência nacional quando os governos não a ouvem, como foi agora o caso da intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa depois das tragédias”.

No fim, antes de apoteose, saudou as decisões tomadas pelo conselho de ministros ontem, em resposta aos incêndios, não esquecendo “o que o partido já havia proposto na Assembleia”. Não descarta “pactos de regime”, desde que sejam “um ponto intermédio entre as posições de cada um”. “Nós somos um partido que nasceu para ganhar. Não nasceu para ser segundo de ninguém”, e os dedos em forma de V de vitória ergueram-se outra vez.