Cultura

Alan Poul. “Temos em Hollywood uma longuíssima história de intimidação”

Um dos produtores e realizadores com mais peso nas séries de televisão de Hollywood fala sobre o estado da arte e o abanão do efeito Weinstein

Alan Poul é um verdadeiro insider em Hollywood. Com uma licenciatura em Literatura Japonesa, e depois de ter ambicionado na juventude uma carreira ligada à produção de musicais na Broadway, viria a tropeçar no seu destino de modo quase acidental. Veio de Paul Scharader o convite para trabalhar em “Mishima” (1985), e mais de três décadas depois, com o seu nome enquanto produtor e realizador a subir para o topo dos créditos de algumas das mais marcantes séries do actual período de ouro da ficção televisão – de “Sete Palmos de Terra”, a “The Newsroom”, “Rome” e “Westworld” – ele é um desses tipos feitos à medida da indústria que faz e desfaz mitos, essa que despejou os antigos deuses do Olimpo para dar lugar às suas estrelas.
Há nele uma agudeza dos sentidos, algo que torna o ar tenso sem ser pesado, e percebe-se o modo como arranca pela raiz a intensidade de cada instante, e prova a sua perspicácia e preparação. esteve em Portugal no âmbito do programa American Film Showcase (AFS), para uma série de masterclasses em várias universidades e escolas. Fomos encontrá-lo depois de uma dessas sessão na Lusófona, e falámos sobre o excelente momento criativo na televisão e a controvérsia e convulsão que se vive por estes em Hollywood.


Nos 12 anos que passaram desde que “Sete Palmos de Terra” chegou ao fim houve alguma outra série que, no que toca à audácia romanesca e aos temas abordados, lhe tenha capturado a atenção?
Em tempos recentes, a série que em termos da escrita e da condução da história me pareceu mais instigante na televisão é “The Handmaid’s Tale”. Isto porque raramente vi algo neste género da distopia num futuro próximo – um género bastante pródigo – tão rico, tão detalhado, tão credível que, ao vê-lo, não és forçado a suspender a descrença. A razão porque esta série é tão assustadora é precisamente porque realmente acreditas no que estás a ver e és puxado para aquela realidade e dás-te conta do que sentirias se vivesses numa sociedade como aquela. E é verdade que é baseada num célebre romance, mas, ainda assim, a forma como os episódios estão estruturados, a forma como o arco das personagens é delineado e, depois, também a infeliz relevância que assumiu a série devido à situação política em que estamos imersos actualmente, tudo isto confere-lhe um poder... Há muitas histórias maravilhosas a serem contadas hoje na televisão, mas esta série tem um tipo de implicações que vão muito para lá daquilo que qualquer outra produção conseguiu fazer em anos recentes.


É interessante que a sua escolha recaia sobre uma série adaptada a partir de um romance de Margaret Atwood quando hoje se tem discute como a própria arte do romance tem sido muito influenciada pelas séries de ficção televisivas.
Antes de mais, uma das coisas que claramente aconteceu com a expansão das narrativas complexas e serializadas na televisão é que toda a gente reconheceu como estas hoje se alinham mais com o que antes nos chegava pelos romances do que as narrativas que nos chegavam pelos filmes. Isto hoje é um ponto assente. O que isto significa é que ganhámos uma imensa liberdade no que toca a fazer desvios na acção principal, desenvolver aspectos psicológicos de personagens bastante secundárias, e isto é que os romancistas faziam e que na televisão antes era qase impossível fazer. Quando fizemos a “Sete Palmos de Terra” sempre dissemos que íamos dar vida a um romance de grande fôlego e, por isso mesmo, sabíamos que íamos ter de lhe dar o tipo de final que deixasse aquele gosto arrebatador que sentimos no fim de romance que passámos um período considerável de tempo das nossas vidas a ler. E é essa a razão porque tínhamos definido com tanta antecedência a forma como a série iria acabar.


E agora que países como os EUA se deparam com uma enorme incerteza política, interessa-lhe trabalhar em produções que sejam relevantes para esse debate?
A razão porque uma série como “Tha Handmaid’s Tale” funciona é precisamente porque o romance não foi escrito como uma reflexão sobre os perigos que representa a liderança de Donald Trump. A própria série não foi pensada como uma reacção ao que estamos a viver. É preciso lembrar que são precisos alguns anos para se pôr de pé uma produção destas, e as pessoas envolvidas no projecto estavam então convencidas, como toda a gente, que Hillary Clinton seria a próxima presidente dos EUA. Isto serve para dizer que se procuras alcançar relevância é mais provável que atires ao lado. O melhor que podes fazer é contar uma boa história, e se desenvolveres uma narrativa que lide com temas universais, como as aspirações humanas, o sofrimento humano e aquelas ideias que sempre fizeram parte das nossas indagações, aumentam as hipóteses de tocares o nervo de algo que as pessoas entendam como relevante no momento.


Isso aconteceu com alguma das séries em que esteve envolvido?
Quando fizemos a “The Newsroom”, tratou-se de uma decisão consciente... Há certas séries televisivas que seguem estrturas fixas do ponto de vista dramático – séries como a “Law and Order” – que tentam manter-se a par, quase ao minuto, com aquilo que está a assumir destaque mediático, e conseguem fazê-lo porque são produzidas e estão prontas para ir para o ar, por vezes, semanas ou até dias depois de um escândalo ter rompido. Essa não é uma estratégia ganhadora do ponto de vista da ficção no que toca a uma perspectiva a longo prazo. Por isso, com a “The Newsroom” discutimos muito sobre o quão próximo queríamos estar da actualidade informativo. E isto era particularmente importante porque se trata de uma série sobre a redacção de um noticiário nocturno. O Aaron Sorkin [premiado guionista e criador da série] tomou a decisão de lidar apenas com eventos sobre os quais tivesse transcorrido pelo menos um ano. Porque, deste modo, não podíamos ser acusados de estarmos a tomar partido ou a impor uma determinada agenda política, estaríamos apenas a reflectir sobre o frenesi mediático que se gerou à volta de um tema e o que teria acontecido se a investigação tivesse chegado ao fundo da questão.


E sente que a série teve repercussões na análise que fez do actual panorama informativo?
Não foram poucas as pessoas que tomaram a série como uma crítica sobre a incapacidade dos canais de informação mediáticos de se centrarem nos aspectos decisivos de um dado acontecimento, e acabarem por enfatizar aspectos secundários na guerra pelas audiências. O que queríamos era olhar sobre o passado ao fim de um ano e levantar o lençol para perceber que história ficou por contar. Não se tratava de criticar o trabalho de ninguém. Quando o Aaron escreveu o piloto da série, o tema que escolheu foi o desastre do derrame de petróleo da BP, mas isso tinha acabado de acontecer quando ele o escreveu. A ideia dele então era focar algo bastante recente. Mas quando finalmente filmámos o episódio ele achou que o ter passado um ano era algo posivito, porque os ânimos entretanto já tinham arrefecido. Não me parece que consigas alcançar grandes resultados se procurares intervir directamente sobre o presente.


Comentou na masterclass que o cinema enfrenta uma crise pelo facto de aqueles filmes que antes eram apenas subgenéros, os filmes B, estes com super-heróis, ficção científica e de fantasia, terem-se tornado os grandes blockbusters de que os estúdios dependem para fazer lucros, ao passo que os grandes dramas que marcaram o período de ouro do cinema hoje passaram para segundo plano e muitas vezes só chegam a ser feitos como filmes independentes? Não receia que o mesmo possa acontecer na televisão, agora que a Guerra dos Tronos e outras séries de fantasia e super-heróis começam a ganhar terreno sobre séries dramáticas como “Os Sopranos”, “Sete Palmos de Terra” ou “The Wire”?
Não me parece que haja esse perigo, por uma séria de razões: Primeiro, porque “A Guerra dos Tronos” só é um tão grande sucesso porque é uma produção de tão grande qualidade. Até pode não lhe interessar, mas tanto na forma como a história é contada como depois no modo como é filmada, e na própria qualidade das representações, é uma série extraordinária. A mim, pessoalmente, a fantasia também não é um género que me entusiasme, não costumo seguir esse tipo de séries, mas a razão porque adoro “A Guerra dos Tronos” é porque se trata de uma série fabulosa. É também uma série inacreditavelmente cara. Por isso, quando os canais concorrentes tentaram fazer-se valer deste sucesso com versões mais baratas desta não alcançaram grande sucesso. Por isso, não alinho nesse receio de que tudo venha a ser feito à imagem de “A Guerra dos Tronos”. A própria HBO tem-se mostrado relutante em criar uma sucessora para esta série. Em segundo lugar, a televisão é um monstro que devora um montão de histórias: é insaciável. Mesmo que venha a haver um ajustamento, e que, num futuro próximo, não se produzam tantas séries como agora, a televisão continuará a precisar de uma grande quantidade de produções para competir pelas audiências. E é hoje algo inerente à própria disputa pelas audiências a necessidade de satisfazer um público muito diferenciado e que exige conteúdos bastante diversos. Porque não é a mesma coisa que acontece no cinema, em que temos um miúdo de 15 anos que precisa de um programa qualquer para fazer com os amigos numa sexta à noite, e que tem de decidir se irá gastar os seus 10 a 15 dólares num filme artístico ou na “Wonder Woman”, e que acaba por preferir aquele que lhe oferece as grandes cenas de acção apimentadas por tremendos efeitos especiais. A televisão tem de ser muito mais multifacetada porque as escolhas que se fazem em casa, tantas vezes sozinho, prendem-se muito mais com o desejo de ouvir uma história nova, e, portanto, no ADN da televisão está inscrito essa necessidade de reinvenção.


Trump chega à presidência depois de ter conquistado um vasto público enquanto celebridade. E, num fenómeno de arrastamento, Hollywood já não é encarada apenas como uma instância criativa, mas pelo seu poder de fabricar ídolos é-lhe atribuída a responsabilidade de servir um exemplo moral e ético. Parece-lhe que o actual efeito Harvey Weinstein, que começou como um processo de denúncia de podres e aspectos perversos da indústria cinematográfica, pode vir a ter um efeito de bola de neve em que se passa por cima da justiça e do Direito, e as pessoas se vêem arrastadas para um tribunal público, e acabam linchadas sem chegarem a poder provar a sua inocência?
É sempre muito difícil ter uma visão clara das coisas quando estas estão em pleno desenvolvimento. Penso que, como acontece com todos os eventos que ganham uma vida própria, um ‘momentum’, tentas encontrar um balanço entre dois valores em conflito. É ainda muito cedo para comentar sobre os efeitos que isto pode ter porque neste momento não podemos imaginar o que vai acontecer. Mas o mais importante é que temos em Hollywood uma longuíssima história de intimidação e opressão que nunca tínhamos realmente confrontado. Tanto os homens como as mulheres na indústria tinham de certo modo assumida que se tratava de um aspecto inerente à cultura de poder em Hollywood e, por essa razão, é necessário um incidente traumático para libertar este tipo de energia, uma vez que essa energia nos chega de uma série de pessoas que, quer tenham sido directamente assediadas ou não, tinham sofrido os efeitos desta cultura e tinham reprimido os seus sentimentos., assumindo que a única opção que tinham era adaptarem-se a esta ambiente, em que de cada vez que estes casos eram denunciados, o assunto acabava por ser varrido para debaixo do tapete e esquecido. Por outro lado, quando algo com este potencial de controvérsia acontece, e com os media envolvidos, há sempre uma espécie de festim, há sempre o risco de as coisas irem longe demais, tornarem-se excessivamente populistas, dando lugar a uma caça ás bruxas, e pode haver um conjunto de pessoas inocentes que acabam por sofrer os danos colaterais destas convulsões, e isso é absolutamente terrível. Contudo, não é algo que me pareça ter acontecido até este momento. É ainda cedo para saber qual será o balanço final, mas nestas ocasiões olhamos para a História em busca de paralelos e posso dizer que, a partir de um determinado ponto, o equilíbrio será restaurado e teremos feito algum progresso numa questão bastante sensível. Acho importante, agora, que todas as pessoas entendam a importância daquilo que está a ser revelado e que tentem manter uma certa frieza e ser razoáveis nas suas reacções.