Sociedade

Duche diário? No tempo em que não se tomava banho todos os dias

Só nos anos 80 se começa a popularizar em Portugal o hábito do banho diário. Num estudo sobre os hábitos de higiene dos lisboetas, publicado em 1986, conclui-se que já 57% da população toma banho todos os dias. Foram os romanos e os muçulmanos que introduziram o banho, mas a prática decresceu depois. O duche diário parece hoje uma prática instalada, mas é relativamente recente.

Para os padrões atuais, é capaz de ser mais fácil assumir em público que se desviou um roupão de banho num hotel do que admitir a uma plateia que não se tomou duche numa manhã. Roubar um roupão é um crime mas, nos tempos que correm, não tomar banho todos os dias é um crime social provavelmente mais penoso. Na realidade, a ideia de sair de casa sem passar pelo duche pode ser um transtorno para a maioria das pessoas – não se sentem bem, têm o pavor de cheirar mal.

E, no entanto, o hábito do duche diário em Portugal é recentíssimo. Até meados dos anos 80, só uma minoria o adotava e o facto não se explica apenas pelo elevado número de habitações sem casa de banho.

O standard cultural da higiene da época era o banho semanal, ou bissemanal, como a frequência de relações sexuais entre a D. Flor de Jorge Amado e um dos seus maridos – quartas e sábados. Enchia-se a banheira ou a selha de madeira ou alumínio, no caso das habitações sem casa de banho. A existência de bidés (uma peça que praticamente não existe nos Estados Unidos, o primeiro país a popularizar o banho diário ainda no princípio do século XX) servia um propósito da higiene diária, a par do lavatório, que também servia para as abluções da cavidade na parte inferior da articulação superior do braço, vulgo axila ou sovaco.

Também em Portugal a popularização do duche matinal começou a tornar o móvel sanitário obsoleto – muitas famílias removeram o bidé das suas casas. Se se toma banho todas as manhãs, para que serve o mono?

Num texto publicado em 1986, a jornalista Maria José Mauperrin conta uma história passada nos fins dos anos 60 numa aldeia a 40 quilómetros de Lisboa. “Preparava-se a família para o grande momento privado: o cerimonial do banho anual. Cedo a senhora Maria acendia o lume de lenha no quintal. Panelão no fogo, água a ferver e vá de subir com o líquido fumegante para o quarto. O alguidar de barro era pequeno para a corpulência do senhor Manel. Atenta, a senhora Maria, púcaro em punho, lá ia deitando a água sobre o corpo ensaboado do marido (...) A senhora Maria resmungava cntra a pressa do homem que mal lavava a cabeça. Um banho por ano e mesmo assim apressado. O homem retorquia que mais tempo na água ainda apanhava uma doença”.

No mesmo texto de 1986 Maria José Mauperrin conclui que por essa altura “o banho parece institucionalizado”. E cita um estudo sobre as práticas culturais dos lisboetas, que foi encomendado pela direção da Lisboa 94 [quando foi capital da cultura] ao Instituto de Ciências Sociais onde se conclui que 57% da população de Lisboa já toma banho todos os dias. Mas no grupo etário dos 66 anos, só 19% fazia do banho um hábito diário. As mulheres terão aderido mais depressa ao novo hábito: 60% tomava banho todos os dias em meados dos anos 80, contra 54% dos homens que o faziam. Mas a autora conclui o texto com uma pergunta pertinente: “Quem disse contudo que Portugal é Lisboa”?

Se é no século XIX que o hábito do banho começa a reentrar nos costumes por razões de saúde – tinha sido reduzido na Idade Média por a medicina da época  ter associado a prática às pestes negra e bubónica – as condições de vida da maioria dos portugueses, a viver em casas sem água, não facilita a sua expansão, circunscrita às classes aristocráticas e burguesas.

Um comissário do exército inglês de passagem por Portugal no princípio do século XIX traça um retrato dos hábitos de higiene dos portugueses desse tempo: “A terapêutica portuguesa recomenda os banhos para todas as espécies de doenças ou incómodos; e talvez algumas vezes façam bem. Porque, se não fosse isso, nove décimos das mulheres de Portugal nunca teriam experimentado uma ablução desde a sua primitiva batismal; nem mesmo uma simples lavagem de cara de manhã com uma toalha. Esta última operação efetua-se geralmente sem grande rigor, molhando elas levemente a boca e a ponta de um lenço ou de uma toalha, e esfregando-a nas faces, sobrancelhas e nariz (...) Os homens têm uma espécie particular de sujidade, que consiste, entre outras coisas, em não se barbearem mais de uma vez por semana. Por isso muitas vezes os vemos com barbas com cerca de uma polegada de comprimento, negras, ásperas, e parecidas com escovas de fato”.

 

Banhos romanos e muçulmanos

Quem trouxe o hábito do banho para o lugar que hoje se chama Portugal foram os romanos – que amplificaram um costume aprendido com os gregos e com os habitantes do Antigo Egito. Com a queda do Império Romano, o costume entra também em decadência. Como escreve a investigadora Luísa Trindade, no texto “Corpo e Água: os banhos públicos em Portugal na Idade Média”: “Se na Península Ibérica a desestruturação do império romano enquanto unidade político-administrativo e cultural implicou um significativo recuo na prática do banho, interrompendo-se em algumas regiões, circunscrevendo-se a estruturas palatinas e eclesiásticas, sobretudo episcopais, a verdade é que não seria preciso esperar muito para que reaparecesse com nova intensidade”.

A invasão dos mouros teve esse benefício, entre outros. “Sob o domínio islâmico, o banho foi uma prática extremamente popular e não apenas pelas obrigatórias cinco abluções diárias que asseguravam o estado de pureza imprescindível à maioria dos atos rituais”.

Na investigação, feito no Centro de Estudos Sociais, afirma-se “a função social que cumpriam foi igualmente determinante para a população em geral”: “Entre os estratos mais elevados da sociedade os banhos atingiram um elevadíssimo nível de sofisticação, constituindo não só um momento fundamental da vivência cortesã como integrando, no ciclo restrito das elites governantes, o protocolo oficial”. “Não admira, por isso, que, privados e públicos, embora estes últimos sem a monumentalidade das grandes termas romanas, os banhos existissem onde quer que o ocupante muçulmano se tenha instalado”.

Com a Reconquista cristã, Portugal diminuiu os hábitos de higiene que romanos e muçulmanos propagaram, mas a autora defende que não foram extintos. “O movimento da Reconquista cristã e a transferência do domínio político para as mãos dos conquistadores de matriz franco-romana – representando a tantos níveis um corte civilizacional – trouxe de novo um decréscimo acentuado no número de equipamentos balneares. Mas de forma alguma determinou o seu desaparecimento: o estigma que Michelet lançou sobre a Idade Média, “nenhum banho durante mil anos” está hoje definitivamente ultrapassado”. Luísa Trindade escreve que “os novos senhores não só usaram as estruturas existentes nas cidades conquistadas, como construiram muitas outras”.

Na sociedade medieval religiosa ou laica, defende a autora, era considerado suficiente, em termos de higiene, “o cuidado com as partes visíveis do corpo: rosto e mãos, aquelas que o vestuário deixava a descoberto. O rosto lavava-se todas as manhãs, com água fria, olhos e boca incluídos. A lavagem das mãos era mais frequente, particularmente antes de cada refeição”.

Apesar disso, Luísa Trindade defende que “alteradas as conceções de higiene clássicas e privadas da sofisticada engenharia romana ou da obrigatoriedade dos preceitos religiosos islâmicos, os cristãos medievais banharam-se seguramente menos que os seus antepassados. Mas nem com menor prazer. Nos banhos públicos, a linha que separou o simples prazer da água e da convivialidade da volúpia e licenciosidade foi por vezes muito ténue. Demasiado ténue na perspetiva da igreja”.