Sociedade

Weinstein à portuguesa. Apenas silêncio e medo

Nos EUA, a bola de neve está a obrigar a um debate sobre poder e abusos. E em Portugal? Há relatos de casos, mas o medo de falar ainda reina.

“Houve alturas em que fui forçada a fazer coisas que não queria. E a resposta era sempre a de que fazia parte do trabalho”, afirmou Sara Sampaio há duas semanas durante uma conferência na Web Summit. Na mesma ocasião, apelou à denúncia do assédio na indústria da moda e à “responsabilização” não só dos agressores como das pessoas que, cientes destas situações, não as reportam. Sara referiu-se diretamente ao caso de um fotógrafo.

O apelo vindo de uma das modelos portuguesas com mais sucesso de sempre surgiu na senda do que já ficou conhecido como “efeito Weinstein” e que tem motivado uma série de denúncias de assédio sexual no mundo do espetáculo [ver páginas seguintes.].

Nos Estados Unidos, a bola de neve continua a aumentar. Por cá, recentemente, vários portugueses ligados a esta área assinaram uma carta aberta contra o assédio sexual no mundo das artes e do espetáculo publicada em primeiro lugar no britânico “The Guardian”. O manifesto – em que os signatários declaram que vão denunciar “estes incidentes, que são vistos habitualmente com ligeireza”, e todos os que usarem os cargos de poder para “explorar, silenciar e demitir” – foi subscrito por nomes como Filipa César, Diana Policarpo ou Vanessa Rato.

Para Paula Lobo Antunes, esta “é uma conversa muito ambígua” e esta espécie de surto de denúncias sexuais após tantas décadas perde força. A atriz diz que é preciso algum cuidado a discernir os diferentes lados da questão, uma vez que, tanto no mundo do espetáculo como em qualquer outro meio laboral e tanto “em Portugal como em todo o lado”, há pessoas que fazem tudo para chegar onde querem. Mas também há situações de assédio que muitas vezes partem de alguém hierarquicamente superior. “Tem a ver com abuso de poder”, sublinha, considerando que, se esta questão não for enquadrada num cenário de “caça às bruxas”, pode ser muito positiva para alertar para a questão do assédio.

Já quando a história mete um crime – como uma ofensa sexual agravada -, aí não há margem para dúvidas e as pessoas devem ser, obviamente, expostas e punidas judicialmente quanto antes. Mas há casos destes em Portugal que ficaram fechados em gavetas? “Há. Já ouvi relatos de pessoas que passaram por situações e não contaram o que aconteceu”, descreve, afirmando que, por detrás do silêncio, seja homem ou mulher, estará o “medo de não trabalhar”.

“Eu própria já estive em situações desconfortáveis, fora do país, e escolhi sair, retirar-me. Sofri a seguir em termos de trabalho. Prefiro não conseguir um trabalho bom do que submeter-me.”

Conhecida pelas posições feministas, aliás formalizadas na canção “Mulher” – “Sou mulher/ E contra mim o que vier/ É bem-vindo se trouxer/ Igualdade e desalinho” são os primeiros versos –, Rita Redshoes diz nunca ter sido “violentada” da mesma forma que nos casos de Hollywood agora relatados e reforça: “Quando me envolvi com pessoas do meio foi porque quis.” “Uma das perguntas que faço é porque é que isto só veio a público agora. Deixa-me perplexa ser preciso haver um conjunto de pessoas a queixar-se. O que motivou este silêncio?”, questiona. Rita Redshoes reconhece a “ambiguidade” de situações “entre adultos” porque há “casos de abusos”, mas outros “são difíceis de averiguar”. E sentencia: “Quando uma pessoa se sente violentada, isso é claro. Não se fala por vergonha ou medo, mas os motivos são distintos. O que pode levar uma pessoa a denunciar num meio pequeno ou num maior? Devem ser os direitos humanos a prevalecer. E a lei deve proteger”, defende.

“Acho que há problemas muito mais importantes do que esse”, reage o realizador João Botelho. “O problema de Portugal é um problema de ricos e pobres, não é o assédio. Irrita-me muito mais a violência doméstica do que a questão do assédio. Hoje, as mulheres já têm poder para não se deixarem assediar. Claro que há empregos em que têm de ser mais bonitas e em que há patrões que acham que lhes podem pôr a mão. Mas, para mim, os problemas mais graves em Portugal são, primeiro, [a desigualdade entre] ricos e pobres; segundo, a violência doméstica – dizem que Lisboa é uma cidade segura, mas depois morre-se por violência doméstica, e isso, sim, é sinistro, a ideia de que as mulheres não podem ser independentes –; e só em terceiro ou quarto lugar, o assédio.”

Aberta a caixa de Pandora para as questões do assédio nos Estados Unidos, João Botelho não tem dúvidas sobre como começarão, mais cedo ou mais tarde, a aparecer também em Portugal “pessoas a falar de histórias escondidas há muito tempo”. “Os portugueses adoram entrar em modas. Também não tínhamos nada a ver com o Halloween e agora é a festa do ano.” “Portanto, é normal que as histórias apareçam.” Mas “histórias”, João Botelho diz que não conhece. “Não sei de nada, sei só que vão aparecer, de certeza.” E brinca, entre risos: “Eu nunca assediei ninguém. Nunca fui dançar para o engate nem para pôr a mão em ninguém. Estou inocente.”

A jornalista Manuela Moura Guedes diz “não ter pachorra” para esta “caça às bruxas”. “Apontam o dedo a casos com 30 anos. Porque é que esta gente não se queixou na altura? O Kevin Spacey está desgraçado. Tenho imensa pena porque adoro-o como ator. Depois, aquelas atrizes todas que iam ter reuniões no quarto de hotel do produtor [Weinstein] não se importavam de ir para o quarto de hotel, mas ficavam muito ofendidas se perguntava ‘então e agora, vamos ali dar uma voltinha?’. Que coisa! Talvez se elas dissessem, ‘Olhe, no quarto não dava muito jeito, e que tal reunirmo-nos noutro sítio?’. Mas não, achavam normalíssimo. Quer dizer, há um limite”, diz.

Manuela Moura Guedes afirma que já foi assediada, tanto por homens como por mulheres. “Já fui assediada por mulheres, mas não com mais poder do que eu no trabalho.” E que também recebeu os convites para subir mais rápido na carreira. “Uma das coisas que fizeram com que demorasse muito a ir para a informação foi essa. Eu sabia que se enveredasse por um determinado caminho, aquilo seria fácil. Não enveredando, a coisa ia ser difícil.” O caso mais grave aconteceu quando tinha acabado de chegar à profissão. “Uma vez, durante uma reportagem, ia com um jornalista mais velho, era miúda. Fui para o meu quarto, que ficava ao lado do do outro jornalista, e ele começa a bater à porta a pedir-me lume. Ainda lhe disse para ele ir ver se havia na receção, mas disse-me que queria falar comigo e acabei por abrir a porta. Agora só me dá vontade de rir, foi tão triste: pega-me na mão, diz ‘acho-te tanto graça’ e começa a lambuzar-me a mão, veio quase até ao cotovelo. Enxotei-o e disse: ‘Pelo amor de Deus, vai para o teu quarto e isto nunca aconteceu. Amanhã vamos trabalhar e pronto.’ No dia seguinte não me falou e começou a dizer mal de mim para a redação, e depois foi-se embora. Isto é, nitidamente, um caso de assédio, mas não fiz queixa porque controlei a situação. Mas foi nojento.”

A jornalista apela, no entanto, a que não se compactue com o jogo do assédio e que as pessoas denunciem as situações graves, mas sublinha que há outra coisa bem diferente: o jogo da sedução. E, aí, as pessoas são livres. “As pessoas, quando querem alguma coisa, perguntam. E a resposta é sempre um sim ou um não. Se aceitam um não, tudo bem, amigos como dantes".

Cláudia Sobral, Davide Pinheiro e Mariana Madrinha