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Angola. Sodiam corta com Isabel dos Santos

Empresa pública vai sair da Victoria Holding Limited, da filha de José Eduardo dos Santos e do marido, Sindika Dokolo. Prossegue afastamento do Estado angolano dos negócios da família. 

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A teia de negócios entre o Estado angolano e a família do ex-presidente José Eduardo dos Santos está a ser desmantelada a alta velocidade pelo Presidente João Lourenço. Agora chegou a vez dos diamantes.

A Sociedade de Comercialização de Diamantes de Angola (Sodiam) anunciou esta sexta-feira, em comunicado, que “por razões de interesse público e de legalidade” vai sair da empresa Victoria Holding Limited, a empresa criada por Sindika Dokolo e Isabel dos Santos no paraíso fiscal de Malta para comprar a maioria do capital da empresa suíça de joalharia De Grisogono.

A Sodiam tem o exclusivo da compra de diamantes em Angola e através dela a De Grisogono pôde comprar o maior diamante encontrado até hoje em Angola, com 404 quilates, descoberto o ano passado na mina do Lulo pelos australianos da Lucapa Diamond Company. Depois de lapidado e transformado numa joia de 163,41 quilates foi vendido em leilão pela Christie’s por 33,7 milhões de dólares (28,4 milhões de euros) a 14 de novembro deste ano.

No comunicado, lido esta sexta no Jornal da Tarde da TPA, e citado pelo Novo Jornal, a Sodiam garante que a participação ainda que minoritária na empresa maltesa “gerou, desde a sua constituição em 2011, exclusivamente custos para a Sodiam”, por causa “dos financiamentos bancários que contraiu” e, sobretudo, “dos resultados negativos que têm sido sistematicamente apresentados pelo grupo” De Grisogono.

O comunicado do conselho de administração da Sodiam aproveita ainda para criticar a gestão de Isabel dos Santos e Sindika Dokolo, que acusa de ser responsável por essas perdas financeiras, “decorrentes de um modelo de gestão adotado a que a Sodiam EP é e sempre foi alheia”.

A empresa joalheira estava em dificuldades financeiras em 2012 quando Isabel dos Santos e Sindika Dokolo adquiriram uma participação maioritária ao saldar as dívidas que a De Grisogono tinha junto de vários bancos, num valor calculado de 63 milhões de euros. Nessa altura, Fawaz Gruosi, fundador da empresa em 1993, dizia ao jornal suíço Le Matin, que o negócio permitia à empresa aceder a pedras preciosas de primeira qualidade.

Em 2015, denunciando o negócio como ilegal em declarações ao jornal maltês Malta Today, Rafael Marques dizia que “no futuro próximo, o presidente pode ser processado por este caso, por corrupção e desvio de recursos do Estado, como diamantes, e pelo enriquecimento ilícito da sua família”.

O novo conselho de administração da Sodiam é liderado por Eugénio Bravo da Rosa que o novo chefe de Estado nomeou a 6 de novembro para substituir Beatriz Jacinto de Sousa que tinha sido escolhida este ano pelo anterior presidente.

Expansão do negócio

A saída da Sodiam da Victoria Holding Limited deixará Isabel dos Santos e Sindika Dokolo sem acesso privilegiado ao mercado de diamantes de Angola, logo numa altura em que a De Grisogono está a expandir o seu mercado e abriu este mês uma nova loja muito maior na Madison Avenue, em Nova Iorque, encerrando a que tinha até agora num espaço mais pequeno.

Além de ter comprado, por 63 milhões de dólares, o diamante em bruto mais valioso do mundo, o Constellation com 813 quilates, descoberto no Botswana, Sindika e Isabel dos Santos alargaram a sua presença no setor para a lapidação.  Em entrevista à edição de agosto/setembro da Afrique Magazine, Sindika falava em alargar o investimento para a lapidação de diamantes nos Emirados Árabes Unidos. “Nós vamos inaugurar na rentrée a maior fábrica de corte de diamantes do Médio Oriente em parceria com o Dubai Multi Commodities Center”, afirmava.