Politica

A solução perdida nas Lajes

O Pentágono foi alvo de uma investigação interna para averiguar a razão da solução açoreana ser descartada. O SOL revela detalhes do inquérito.
 

Desde 2015 que a reconfiguração do dispositivo militar norte-americano na Europa teve repercussões no Velho Continente, incluindo na Base das Lajes, da ilha Terceira, nos Açores. A redução do contigente, que ainda ultrapassa as 60 mil unidades, requereu negociações diplomáticas, nas quais a administração Obama foi ativa, e estas sofreram escrutínio (e muitas vezes pressão política) por parte do Congresso americano.

A localização do Joint Intelligence Analysis Complex (centro de informações e análise) foi um dos apogeus do processo, na medida em que a decisão do Pentágono instalar o centro na base aérea de Croughton, no Reino Unido, onde estão estacionados os caças F-35 americanos, foi altamente questionada, nomeadamente pelo congressista de ascendência portuguesa Devin Nunes (republicano), acabando mesmo por ser alvo de um inquérito interno por parte da Inspeção Geral das Forças Armadas, e a cujo relatório final o SOL teve acesso. 

Sendo natural que a relação especial que Washington e Londres mantêm - até do ponto de vista dos serviços de informação - crie preferências, é também evidente a necessidade que Portugal e a região autónoma dos Açores de encontrar alternativas para a Base das Lajes que compensem a gradual redução de presença americana na ilha. «O que não pode acontecer é os Estados quererem estar, não estando. Isto é, saberem que podem vir quando precisarem sem qualquer condição de responsabilidade», destaca fonte do Governo autónomo insular, que pediu reserva de anonimato devido à reunião bilateral entre os dois países que se realizará este mês.

Atualmente, a base tem funções meramente logísticas e em redução. A instalação de um centro de informações como o referido significaria um aumento de contingente de, no mínimo, um milhar de analistas, além da presença militar. O inquérito da Inspeção Geral das Forças Armadas dos EUA ilibou o Pentágono de responsabilidades, mas deixou severas críticas ao processo de escolha que preteriu os Açores em detrimento da base inglesa de Croughton. O relatório conclui que a escolha foi justificada com o custo que a remodelação a nível habitacional teria para albergar o centro nas Lajes (390 milhões de dólares), não tendo sido apresentadas «quaisquer demonstrações de como este custo foi estimado ou calculado». A alternativa, de «disponibilidade de arrendamento no exterior da base», fora descartada por «falta oferta» no mercado local, mas também «sem qualquer suporte» documental.

O inquérito procurou ainda saber por que razão um terceiro documento teria utilizado dados de 2007 «para avaliar o mercado de arrendamento local disponível» para 2015. A resposta da Força Aérea Americana, reza o inquérito, foi que estes eram «os melhores dados empíricos disponíveis à data», não havendo «tempo para realizar outro estudo» ou sequer «orçamento». Em março de 2016, o congressista Devin Nunes, já mencionado, afirmaria ter informações que dados sobre o mercado do arrendamento estariam a ser destruídos na Base das Lajes, o que poderia constituir «obstrução». Ao que o SOL apurou, o pedido de inquérito ao Pentágono terá também sido oriundo desta alegação.

O inquérito final concluiu que a destruição de ficheiros seguia as regras de protocolo norte-americano para a destruição de documentos; com prazo de um ano e sob supervisão. No entanto, o inquérito também concluiu que o Departamento de Defesa «não deveria simplesmente ter utilizado» os dados de 2007 - «na altura um estudo com 8 anos» - «sem qualquer tentativa de atualizar a informação» e sem «sequer contactar» a Base das Lajes para consulta. «Isto exibiu falta de iniciativa e devida diligência». Equívocos idênticos foram encontrados pelo inquérito militar no que diz respeito à avaliação das condições dos cabos de fibra óptica da ilha - essenciais para um centro de análise de informações, o que elevou as críticas de «imprecisões» e «falhas» na investigação a que o SOL teve acesso, ainda que ilibando os responsáveis.

Além do contexto político e diplomático já descrito, o facto de Croughton já ter visto considerável investimento infra-estrutural ser alocado também desfavoreceu a opção açoreana.

Michael Rubin, antigo quadro do Pentágono e professor em Yale, explica que «a infraestrutura já existente nas Lajes, assim como as ligações submarinas já existentes, a localização central do arquipélago dos Açores e o custo de vida reduzido na região» fazem a decisão parecer «curiosa».

«A decisão foi mais baseada na vontade dos funcionários viverem perto de Londres (em Croughton) do que no meio do Atlântico», escreveu o especialista. «Muito simplesmente, é por isso que os números que o Pentágono mostrou ao Congresso parecem fabricados».