Economia

Belmiro de Azevedo. A fortuna da vida

Nome sinónimo do empreendedorismo em Portugal, Belmiro de Azevedo morreu na quarta-feira. Deixa de legado um jornal, um império espalhado por noventa países e uma fortuna avaliada em 1,6 mil milhões de euros. Foram quase oito décadas de uma vida notável.

Antes das 6h30 Belmiro de Azevedo já estava de pé. Lia o jornal, fazia café e seguia para o ginásio, onde cumpria 100 minutos de exercício. Era esta a sua rotina diária, contou à Revista 2 do Público há dois anos, quando se afastou em definitivo da Sonae. Homem de hábitos férreos que iam muito para lá do desporto. Uma busca por ser mais e melhor – conjugada com a sorte de estar no sítio certo à hora certa – e que em última instância, o fez construir um império. Morreu na quarta-feira, na Cuf do Porto. No mesmo dia, num daqueles enredos da vida, morreu uma das irmãs, no IPO da mesma cidade.

Mesmo quem não conheceu a realidade do país de há 80 anos terá, algures, ainda que herdado da memória coletiva, uma imagem de Portugal na década de 30. Um país atrasado, já imerso na ditadura, em que as distâncias eram quase fossos intransponíveis. Nas aldeias, poucos iam além da quarta classe. Belmiro de Azevedo nasceu em 1938 nesse outro Portugal, na freguesia de Tuias, em Marco de Canaveses, filho de um carpinteiro e uma costureira. Foi o mais velho de oito irmãos e foi muito além da quarta classe da escola da terra: foi para a Universidade do Porto, onde se licenciou em Engenharia Química, em 1963. E depois Harvard, e Stanford, e Wharton.

Anos depois, já homem forte do grupo, já um dos mais ricos do mundo, continuava a exaltar o conhecimento enquanto força motriz da inovação empresarial. «Sou obsessivo quanto ao conhecimento», disse ao Expresso em 1999.

Pagou os estudos desde os 14 anos, havendo dias em que dava mais de dez horas de explicação. Quando saiu da faculdade já tinha iniciado a carreira como técnico de têxtil na Efanor. Dois anos depois torna-se diretor-geral da Sonae (sociedade criada em 1959 e dedicada ao fabrico de produtos derivados da madeira).

Casou com Maria Margarida Carvalhais Teixeira, farmacêutica, a quem Belmiro se referia de forma brincalhona como a sua Chief Emotional Officer. O casal teve três filhos: Nuno, Paulo e Cláudia, tendo Paulo Azevedo sido designado como o seu sucessor.

E, a par da vida empresarial, deu talvez um dos maiores contributos para a democracia que pode haver: chamou Vicente Jorge Silva e criou o Público, fundado para ser um jornal anti-institucional. E se geria os negócios com a vontade férrea de quem se exercita 100 minutos por dia, ali não entrava: desde o início que prometeu não pedir favores ou interferir no trabalho jornalístico. Cumpriu a promessa até ao fim.

Sempre cultivou uma imagem de uma certa dureza, de distância, e mantinha a vida privada nessa esfera.

Mas tinha características inatas que foram entrando nos seus consecutivos perfis. Viajava sempre em classe económica, não gostava de vender carros porque desvalorizavam e uma vez levou os colaboradores a jantar à Feira Popular depois de ter recebido uma distinção da embaixada francesa. No início da década de 90 ainda não tinha um telemóvel por ser muito caro – mas essa década ainda não tinha findado e, com a visão estratégica que o caracterizava, já tinha lançado a Optimus.

Atravessou regimes e governos sempre com a língua afiada: achava que Cavaco era um ditador, que Marcelo não tinha honestidade e que Sócrates merecia um lugar no Guinness por ter feito tantos disparates em tão pouco tempo. Mas tinha saudades de Sá Carneiro.

 

Dono de um império

«Diz-se que sou demasiado perfeccionista, que a Sonae ganha em tudo no que se mete. Não é assim. Somos um grupo muito diversificado e, ao diversificar, necessariamente corremos riscos». É desta forma que Belmiro de Azevedo resumia o seu percurso e, acima de tudo, caracterizava a Sonae que se tornou num verdadeiro império.

Entrou para a Sonae no final da década de 1960 e assumiu o controlo da empresa em 1974. Uma empresa de pequenas dimensões e com dificuldades económicas e financeiras, que fabricava laminados decorativos. A sua primeira tarefa, como recordou nos 50 anos da Sonae, foi destruir o que estava feito para voltar a construir. Entrou como diretor de Investigação e Desenvolvimento, mas rapidamente foi promovido a diretor-geral e administrador delegado. E é também através da ascensão na empresa que Belmiro que começa um conflito com os herdeiros de Afonso Pinto de Magalhães, falecido no início de 1984, inconformados com o acesso de Belmiro de Azevedo ao controlo da empresa familiar. Mas o empresário sempre se mostrou inflexível: era preciso que a Sonae tivesse «uma gestão completamente profissional».

No início dos anos 1990, os herdeiros de Pinto de Magalhães ainda detinham 12% da Sonae, além de diversos litígios judiciais com Belmiro de Azevedo. O acordo, que colocou um ponto final no contencioso e consolidou o controlo do empresário sobre o grupo, só foi assinado em 1994, em casa de Carolina Pinto de Magalhães, viúva do fundador da Sonae.

O grupo acabou por se tornar num dos maiores do país e também o maior empregador privado de Portugal. A fortuna de Belmiro de Azevedo, considerado um dos mais ricos de Portugal, está avaliada em dois mil milhões de dólares (cerca de 1,6 mil milhões de euros), segundo a revista Forbes.

Em 1985 abriu o primeiro Continente em Matosinhos, que veio revolucionar o mercado de retalho. O primeiro hipermercado do país fechou as portas no dia de estreia à meia-noite com as prateleiras vazias. Em 1988, lançou uma empresa para as tecnologias da informação, a que se seguiu a Sonae Imobiliária no ano seguinte, e o jornal Público já em 1990.

As telecomunicações também foram uma aposta forte do grupo que deu os primeiros passos nesta área em 1998 com o lançamento da Optimus, um projeto que contou com a liderança do seu filho Paulo Azevedo.

Mas o percurso também teve derrotas: «Provavelmente, nós somos, como empresa, o maior perdedor nacional, perdemos quase todas as grandes aventuras, fomos sacudidos e não foi elegantemente», chegou a afirmar.

Um dos casos mais emblemáticos foi a Oferta Pública de Aquisição (OPA) _sobre a PT. A operação, que durou um ano, conheceu a sua morte em 2007. Curiosamente, o homem forte da Sonae abandona nesse ano a liderança executiva para o seu filho, Paulo Azevedo. Dois anos depois, Belmiro, numa altura em que a Sonae comemorava os 50 anos, culpou o Governo de José Sócrates por ter sido responsável pela decisão mais grave e inesperada ao revelar que o Executivo tinha dado «instruções» para que a Caixa Geral de Depósitos votasse contra a OPA. «José Sócrates portou-se mal até porque o Estado, como detentor de uma golden share, nunca deu indicações de se opor ao negócio», referiu. E deixou uma garantia: desde aí «nunca mais falou» com o primeiro-ministro: «Não tenho interesse e sou correspondido», referiu.

Também o negócio no Brasil não correu bem. A entrada no mercado de distribuição brasileiro arrancou em 1989 com a compra de parte da CRD (da qual viria a assumir o controlo) e vendido mais tarde, em 2005, parte ao Carrefour e o maior número de lojas à WalMart, gigantes deste setor, por mais de 600 milhões de euros. O episódio voltou a repetir-se na Portucel. A Sonae detinha 25% da Portucel quando esta foi alienada e vendeu a sua posição acima do preço a que o Estado alienou. Não concorreu à privatização porque considerava o modelo «hostil» aos seus interesses. Ganhou Pedro Queiroz Pereira e, anos mais tarde, Paulo Azevedo chegou a admitir que a Portucel «felizmente não ficou mal entregue».

 O império criado por Belmiro de Azevedo está em 90 países e inclui várias empresas, entre as quais a Sonae MC que detém as atividades de retalho alimentar, saúde e bem-estar, áreas onde opera através do Continente e da Well’s, por exemplo. A ramificação dos negócios da Sonae, detidos a 100% pelo grupo, estende-se também à Sonae Sports & Fashion, onde detém insígnias como a Sport Zone, Zippy e Salva, à Worten e à Sonae RP que detém os ativos de imobiliário de retalho.

Em todo o seu percurso deixou uma garantia em termos salariais. «Os salários são baixos. O pessoal do meio é que ganha demais. Têm de ser aumentados o último piso e o rés-do-chão».

 

Um homem que marcou o país

Tinha horror à incompetência, mudou a vida de muitos que trabalharam com ele e não deixava ninguém indiferente. É assim que se fala de Belmiro de Azevedo, a quem muitos consideram que Portugal tem uma dívida de gratidão. Uma das primeiras reações à morte do empresário chegou por parte do ministro da Economia, Manuel Cadeira Cabral, que considera que «a sociedade portuguesa tem muitos aspetos de gratidão para com ele», principalmente, porque falamos de um empresário «muito inovador em termos de gestão».

A importância de Belmiro de Azevedo para Portugal é, aliás, uma das linhas gerais dos discursos feitos por quem o conheceu. Luís Campos Ferreira, ex-secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, destaca que «foi um grande vulto de Portugal. Um vulto muito ligado ao tecido económico. Um homem que ‘fez por ele’ como se diz no Norte, um homem que foi subindo na vida a pulso, com uma grande capacidade de inovação, que fez muito sucesso. Além de uma grande capacidade empresarial, Belmiro de Azevedo era muito conhecido pelo seu caráter muito marcado, pela sua ousadia e que não usava o dinheiro de uma forma ostensiva na sua vida privada».

Fácil de admirar e, por vezes, intimidante, mas também de raciocínio rápido. Para António Lobo Xavier, Belmiro de Azevedo «foi um homem que deixou uma grande obra ao país. Tinha uma rapidez de raciocínio fulgurante». «Eu ficava fascinado como ele, em poucos minutos, dominava matérias complexas. Deu-me sempre uma sensação de humildade e muitas vezes fiquei intimidado com ele. Foi talvez a pessoa que mais admirei nestes últimos 40 anos», não esconde o amigo de longa data, que sublinha ainda características importantes do lado mais pessoal: «É alguém a quem estive ligado durante muitos anos por uma grande amizade e, também, por razões profissionais. A quem devo grande parte do que sou como profissional e, também, como homem – porque também aprendi várias coisas da vida humana, fora das empresas, com ele. Estou triste».

Além das qualidades enquanto empresário, muitos salientam exatamente este lado mais pessoal de Belmiro de Azevedo que foi ajudando profissionalmente muitos dos que se cruzaram durante anos no seu caminho. «Custa-me porque era o meu pai profissional. Tenho-lhe uma amizade profunda. Era muito duro, no sentido de exigência, mas era também muito especial por ser tão atento a todas as coisas», começa por dizer José Marquitos, antigo administrador do Público. «Era um homem que não deixava ninguém indiferente e ninguém imagina as pessoas que ele ajudou a crescer. Tinha a preocupação de nos fazer a todos cultivar o crescimento», explica ainda, acrescentando que além da «obra feita nos negócios», todos devem lembrá-lo por ter feito «tanta gente crescer com ele. Todos os anos fazia uma viagem para os EUA para fazer um curso. Depois, escolhia um livro e obrigava os quadros da Sonae a ler».

Conhecido por uns por não gostar de gastar dinheiro, é lembrado por muitos por ser «desprendido de bens pessoais». Silva Peneda, ex-presidente do CES, explica que é impossível falar do empresário sem saber que «o dinheiro para ele era um instrumento para investir. Tinha uma visão de longo prazo. Gostava de formar equipas, tinha horror à incompetência e ao desleixo. Tinha um pensamento fulgurante e conseguia definir estratégias e gerar consensos. Era o verdadeiro líder».

O espírito de liderança é, aliás, uma referência para outros nomes altos do tecido empresarial português. Rui Nabeiro, fundador da Delta Cafés, é um dos casos: «Foi um homem extraordinário e um exemplo em Portugal para todos os empresários. Lutou e soube lutar. É um exemplo em Portugal para todos os empresários, que procurou trabalho e procurou dar trabalho. Foi um grande criador».

Alexandre Soares dos Santos, presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos e antigo CEO do Grupo Jerónimo Martins, não esconde que «era um grande empresário, um homem de visão e de ação, corajoso, num país que tantas vezes maltrata quem é desassombrado, quem tem espírito de iniciativa e capacidade empreendedora».

Uma outra característica que muitos ressalvam é a capacidade que tinha de ser frontal e direto «porque não estava refém deste ou daquele poder». António Saraiva, presidente da CIP, diz mesmo que era alguém que «tinha o condão de chamar as coisas pelos nomes e de pôr o dedo na ferida mas, sobretudo, recordo-o como um grande amigo, empresário e como um criador de riqueza».

A verdade é que, seja pelo lado empresarial ou pelo lado pessoal, o que não faltam são exemplos de quem lhe reconhece qualidades únicas. Miguel Cadilhe, antigo ministro das Finanças, diz mesmo que «Belmiro merece a admiração de todos nós» e garante que falamos do maior empresário português que alguma vez conheceu.

Os testemunhos sobre quem foi Belmiro e a importância que teve para país e para a vida de muitos com quem se cruzou são mais do que muitos. Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, deixa claro que falar deste empresário é falar, sobretudo, de uma «figura marcante do nosso meio empresarial e da sociedade portuguesa, em termos de liderança, determinação, visão de futuro e empenhamento social e cultural ao longo de mais de 40 anos».

A verdade é que até quem nem sempre concordou com a participação cívica de Belmiro de Azevedo lhe tira o chapéu pela obra que deixa. Eurico Brilhantes Dias, secretário de Estado da Internacionalização, é um dos exemplos e deixa claro que se tratou de «um empresário único no pós-25 de Abril». 

Mariana Madrinha, Sofia Martins Santos e Sónia  Peres Pinto