Economia

‘Fernando Pessoa pensou abrir um consultório de Astrologia’

Apaixonada pela rádio, Sofia Saldanha estudou os segredos desta arte em Inglaterra e nos Estados Unidos. O Fernando Pessoa Tour, um rádio-documentário sobre o poeta, é o seu primeiro projeto em português.

Durante 15 anos, Sofia Saldanha trabalhou numa rádio em Braga. Em 2008 foi para Inglaterra fazer um mestrado na área, e ali descobriu os documentários sonoros. De regresso a Portugal, trouxe a intenção de fazer algo ligado à cidade de Lisboa, quando um amigo lhe sugeriu que Fernando Pessoa seria um bom tema. Pôs mãos à obra sozinha e três anos depois apresentou na Casa Fernando Pessoa ‘Não Sei o que o Amanhã Trará’ (http://fernandopessoatour.com), um documentário sonoro em 15 episódios que conta a vida do poeta como nunca a tínhamos ouvido.

Por que decidiu fazer um documentário sonoro e não um livro ou um guia convencional?

Trabalhei em rádio muitos anos e depois fui para Inglaterra, onde fiz um mestrado em Rádio, e foi aí que descobri o mundo da rádio-documentário feita de forma mais criativa. Os ingleses têm uma enorme tradição e fazem coisas incríveis. Depois comecei a trabalhar com realizadores e produtores de rádio na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas sempre em inglês. Até que tive esta ideia de fazer uma coisa em português e pensei que seria interessante fazer algo ligado à cidade.

Já tinha um grande interesse pelo Fernando Pessoa?

Foi um amigo que me sugeriu fazer esta série documental sobre o Fernando Pessoa. Trabalhei neste projeto durante três anos, mas não a tempo inteiro.

A quem se dirige este projeto? Aos turistas ou aos lisboetas?

Tentei fazer um documentário para as pessoas que gostam do Fernando Pessoa [FP] e não sabem muito sobre a vida dele, para pessoas que o conhecem bem mas querem ver as coisas de uma perspetiva diferente, para turistas, para estudantes… Sinto que quando estudei na escola não percebi o FP em toda a sua dimensão. Tentei fazer uma coisa o mais abrangente possível, quase como um filme só com som.

Embora quisesse fazer algo ligado à cidade, não nasceu em Lisboa…

Sou de Braga. Mas gosto muito de Lisboa, também é a minha cidade.

Uma vez que a ideia não partiu do seu interesse pelo FP, imagino que o fosse descobrindo à medida que ia fazendo o projeto. 

Sim, fui descobrindo. Eu achava que sabia, porque já tinha lido muito, mas percebi muito rapidamente que não sabia nada sobre o FP, sobre a vida ou a obra dele. E então em todo este processo tenho estado a aprender. Ainda ontem à noite li uma coisa que não sabia. Foi uma descoberta constante, estive a apaixonar-me por ele cada vez mais. Nunca houve um momento em que pensasse ‘Estou farta’. Pelo contrário, penso: ‘Ainda bem que não li tudo, que não sei tudo, que ainda vou continuar a descobrir’.

Comprou livros, foi para bibliotecas estudar?

Não foi um processo muito convencional. Comecei logo a fazer entrevistas antes de saber muito. As primeiras entrevistas foram à Manuela Nogueira e ao Luís Miguel Roza Dias, sobrinhos do FP, que ainda o conheceram. Para mim foi importante serem eles os primeiros, porque queria ter uma energia inicial um bocado espontânea. Depois comecei a contactar alguns académicos, a Teresa Rita Lopes foi a primeira, entrevistei o Richard Zenith, o Jerónimo Pizarro, a Rita Patrício e a Manuela Parreira da Silva. Aí já tinha lido muito sobre a vida dele. O FP é um universo. Mergulha-se ali e nunca mais se sai.

Que tipo de sons tentou captar para dar a atmosfera de Lisboa?

As gaivotas – claro –, os elétricos, todo o ambiente da rua. Os sons das casas – janelas, portas, as madeiras das casas, que são muito características de Lisboa. Também tenho muitos sons de água, que está muito ligada a Lisboa e a Pessoa. Aquela viagem para África que deve ter sido tão importante – um mês de barco. E gravei muito ambiente de cafés. Por fim, tenho alguns sons de arquivo: a voz do Gandhi, do Aleister Crowley, do Salazar… 

Teria sido ouro sobre azul encontrar um registo sonoro do Fernando Pessoa…

Mas nunca consegui encontrar. Acho que ninguém conseguiu. Mas até pode haver.

Temos alguma ideia de como seria a sua voz?

Já pensei nisso tantas vezes… Tantas vezes, como seria a voz do FP. Não faço a mínima ideia. O documentário tem algumas leituras e há uma pessoa que faz a voz de FP, o Jorge Louraço – todas estas pessoas que participaram são minhas amigas. Acho que ficou muito bem, é um tom muito bom. Mas não sei como o FP falava, não posso saber.

Fez tudo só com recurso a amigos?

Numa segunda fase do projeto, quando a Casa Fernando Pessoa se envolveu, tive consultadoria deles, que viram o percurso, discutimos os temas e fizeram algumas sugestões de outros possíveis entrevistados.

Montar isto tudo deve ser complexo. Tinha uma espécie de guião?

Não, não foi assim. Teve várias fases. Na primeira fase transcrevi tudo, imprimi tudo e selecionei. Punha um post it em cima onde anotava do que eles estavam a falar. A segunda fase foi decidir: neste episódio vou falar disto e daquilo, pegava nas partes em que falavam daquilo e metia lá. Depois foi construir a narrativa de uma maneira em que houvesse uma sequência lógica, que fosse estimulante ouvir. Nessa fase toda a minha casa estava cheia de post its. Fazia lembrar aqueles filmes de detetives.

Como definiu os locais que iriam aparecer neste percurso?

Para mim era óbvio que o início teria de ser o Largo de S. Carlos, onde nasceu. Gostava que o segundo sítio, o episódio onde fala da África do Sul, tivesse sido o Miradouro de Santa Catarina, mas quando fiz o percurso para testar tempos percebi que era um trajeto enorme. Então pus o largo de Camões. As coisas foram conjugadas para tudo fazer sentido, não haver discrepâncias. Depois para mim era importante o episódio em que se fala do Orpheu e do modernismo em Portugal ser no Rossio porque era ali que se encontravam os cafés onde se reuniam.

A vida de FP passava-se muito no interior daquele círculo apertado da Baixa. Como é que ele vai depois para Campo de Ourique?

Foi morar com a família e as casas ali deviam ser mais baratas do que na Baixa. Era um bairro modesto. Depois a irmã mudou-se para Évora, portanto ele ficou lá sozinho, viveu muito tempo sozinho naquela casa. Embora haja quem diga que ele não morou lá até ao fim da vida.

Acabou por morrer não em casa, mas no hospital.

Sim, no Hospital de S. Luís, ali no Bairro Alto.

Imaginamos o FP como um solitário. No entanto a sobrinha diz que ele gostava muito de brincar com as crianças e até escrevia uns versos muito malcriados! Isso muda a imagem que fazíamos dele. Para si também foi uma surpresa? 

Sim, foi uma surpresa. Temos sempre aquela imagem do Pessoa muito sério. Mas não é só ela que diz. Dizem que era uma pessoa com muito humor. Acho que é uma sorte termos a Manuela Nogueira e o Luís Roza Dias a contarem-nos essas histórias, porque se não fossem eles se calhar tínhamos uma imagem do FP que não correspondia à verdade.

Outra coisa que me surpreendeu foi que ele fez um horóscopo para calcular a data em que ia morrer e deu quase certo.

Quem diz isso é o Jerónimo Pizarro. Ele calculou que ia morrer por volta dos 50 anos. Mas não tinha a certeza do minuto da hora a que nasceu, portanto fez um cálculo aproximado. Ele era um excelente astrólogo.

Esses cálculos, essas cartas astrológicas, conseguem-se compreender ou era algo que só fazia sentido na cabeça dele?

São cálculos que os astrólogos ainda hoje usam. Ele tinha um conhecimento avançadíssimo, fazia cálculos muito complexos, e estudava astrologia. Aliás esteve em contacto com astrólogos em várias partes do mundo. E fez 600 ou 800 cartas astrológicas.

Dele ou também de outras pessoas?

De toda a gente. Do Shakespeare, do Oscar Wilde, do Napoleão, da família toda dele, dos amigos, de toda a gente que lhe interessava, para tentar conhecer aquela pessoa. E pensou mesmo fazer um negócio de consultas de astrologia, teve esse projeto. Não se sabe bem se fez, mas se fez foi por um período muito curto. Mas sabia muito. Estava sempre a estudar. É impressionante o que aquele homem fez em 47 anos. E as coisas que ainda não sabemos, porque o espólio não é fácil de estudar... Acho que ainda há ali muitas coisas escondidas.

Contava-se lá que quando foi a cerimónia de trasladação dos restos mortais de FP para o claustro dos Jerónimos abriram a urna e encontraram o cadáver estava intacto!

Isso não é verdade. Desculpe desiludi-lo [risos]. Por acaso surgiu essa questão porque no dia 13 de junho deste ano [data de nascimento de Pessoa] fizemos uma pré-apresentação deste documentário na Casa Fernando Pessoa e alguém colocou essa questão. Estava lá a família do Pessoa e o Luis Miguel Roza Dias, sobrinho, contou que estava presente quando foi a trasladação dos Prazeres para os Jerónimos, e diz que o caixão nunca foi aberto, por isso é impossível dizer.

Mas então pode estar intacto na mesma…

Pode. Tinha de se abrir.