Causa-Efeito

O liberal de Harvard


Eis que surgiu a coroação europeia da consolidação orçamental, vulgo austeridade, orquestrada por Mário Centeno. Um caminho de reais alternativas, já identificadas por esta coluna em julho: em vez de cortes nos salários da função pública decidiu cortar nos serviços via cativações hercúleas, e em contraponto aos aumentos de fiscalidade direta, optou por realocar carga fiscal para os mais regressivos impostos indiretos. As metas foram atingidas, com uma ajudinha aqui e ali das típicas receitas extraordinárias, e é assim que o liberal de Harvard, ministro das Finanças do Governo mais à esquerda da democracia portuguesa, atinge o cargo liderante à mesa do Eurogrupo.

Existem vários ‘opinion makers’ que gostam de repetir críticas prefabricadas ao Eurogrupo pelo facto de ser um órgão supranacional europeu que ‘não é diretamente eleito’. Acho bastante curioso este fenómeno, pelo facto de se tratar de um comité onde os ministros das finanças - democraticamente escolhidos em cada país do euro - se reúnem por forma a coordenar as políticas económicas dentro da moeda única. Quem critica um grupo com estas características ou é anti-integração europeia ou não entende bem o quão crucial é esta coordenação dentro de uma união monetária como a do Euro. 

O Eurogrupo é claramente um passo intermédio necessário da integração europeia, e um que se encontra atualmente em transformação em direção à sua nova configuração. Com as propostas já em marcha, apoiadas entre outros por Macron em França e Schulz na Alemanha, a atual posição de presidente do Eurogrupo irá evoluir para a de um novo ministro das Finanças e da Economia ao nível europeu, que prestará contas aos cidadãos do bloco por via do Parlamento Europeu. Centeno poderá estar assim próximo de assegurar uma nova promoção e consequentemente no sítio certo à hora certa para receber os louros por planos integracionistas que o precederam.

Quanto aos impactos internos desta eleição, eles irão ser uma produção interessante de acompanhar. Já muito se comentou sobre o desconforto da extrema-esquerda ao ver a mesma Europa que repudia colocar um selo de aprovação nas medidas implementadas por um governo que sustenta. Porém a especulação de qualquer instabilidade material é exagerada, pois o ministro das Finanças - elemento crucial na governação de um país altamente endividado como o nosso - ficou ainda mais difícil de fragilizar. De figura quase secundária no governo de Costa a presidente do Eurogrupo, Centeno ganha agora novo protagonismo e poder levando Marcelo a ser ainda mais um aliado que tudo fará para evitar quebras nesta linha de governação. Portugal continuará assim a ser o ‘bom aluno’ europeu, e quiçá o poder acrescido de Centeno o fará limpar o pó de algumas das ideias reformistas que deixou esquecidas na sua gaveta em Harvard. 

*Gestor de portfolio multi-activo no BIG - Banco de Investimento Global

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